As carcaças despedaçadas dos tanques russos nas estradas da Ucrânia puseram toda a gente a falar do “erro” de Putin. Enganou-se, quando julgou que tinha força para ocupar a Ucrânia. A esse respeito, há que fazer duas observações. A primeira é que não foi só Putin que se enganou. Já se esqueceram? Pois então eu lembro: quantas pessoas, em Fevereiro deste ano, previram que a Ucrânia resistiria? Mais: quantas pessoas previram que o Ocidente ajudaria a Ucrânia, como tem ajudado? Alguns até entenderam a invasão como mais um capítulo na história da regressão das democracias ocidentais, num mundo destinado a ser dirigido pelas autocracias chinesa e russa. Sim, Putin talvez não contasse com a determinação dos ucranianos em lutar, nem com a disponibilidade do Ocidente para os ajudar, nem ainda com a qualidade decisiva do armamento, da logística e dos serviços de informação ocidentais. Mas não foi só o ditador russo que se enganou. Foi toda a gente. Julgámos todos, a Ocidente, que éramos mais fracos do que somos.

Foi então apenas um “erro” que levou Putin à Ucrânia? Sobrestimou ele as suas forças? Não fazia ele ideia de que lhe faltariam tropas, de que teria dificuldades de abastecimento, e de que o seu armamento provaria nem sempre ser da melhor qualidade? Talvez, e talvez não. Esta é a segunda observação que importa fazer, para melhor percebermos o que se passou e o que se passa: talvez Putin estivesse ciente das suas limitações, e talvez essa percepção tenha sido uma razão, não para desistir da invasão da Ucrânia, mas para a precipitar. Não, não é uma hipótese tão paradoxal como parece. A consciência da fraqueza é, muitas vezes, o motivo das jogadas mais arriscadas. Temos, a esse respeito, de rever o que, nos últimos vinte anos, julgámos ter ficado a saber sobre o mundo.

A Rússia, ao contrário do que sugerem os mapas, não é um colosso. Tem uma economia mais pequena do que a da Coreia do Sul, e uma população que é metade da dos EUA, e que está a envelhecer e a diminuir. É verdade: dispõe de armas nucleares, mas vive da exportação de energia fóssil, num mundo que tem como objectivo transitar para energias renováveis. É uma potência, mas em declínio. A ditadura de Putin assenta, aliás, na noção dessa crise. O seu objectivo é recuperar a grandeza geopolítica perdida. É daí que tira a sua legitimidade. Uma Ucrânia democrática, próspera, e integrada no Ocidente, na medida em que ficaria assim fora do alcance da Rússia, seria a prova de que a restauração do império era impossível, o que abalaria fatalmente o poder de Putin. Daí, a necessidade de destruir a Ucrânia. Mesmo que Putin tenha reconhecido o risco da operação, teria de o correr.

Putin deve saber que o tempo não corre a seu favor. A Rússia não está a ficar mais forte, mas mais fraca. Já foi essa percepção, por exemplo, a razão principal para na primeira metade do século passado a Alemanha ter arriscado repetidos confrontos militares. Sim, a Alemanha tinha uma grande economia; mas nunca pareceu aos seus líderes que tivesse o “espaço vital” para ser uma grande potência mundial, como desejavam. Em 1914, os governantes alemães temiam a ascensão da Rússia aliada à França; em 1939, Hitler estava obcecado com o poder crescente dos EUA, como demonstrou o historiador Brendan Simms. É quase sempre a potência que se sente a enfraquecer que aposta na guerra como uma última oportunidade, esperando que a sorte das armas compense as suas fraquezas.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.