Política

Portugal é diferente… e não é para melhor /premium

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Onde Portugal é diferente para pior é que a vida política está monopolizada pelo governo, ou por quem ocupa o Estado e pelas corporações que querem fazer parte deste, nomeadamente os sindicatos.

A desordem mundial impera há já algum tempo e vai crescer nos próximos anos. Em Portugal, porém, a pouco mais de quatro meses das eleições europeias e outro tanto até às legislativas, não se esperam grandes mudanças e, se as houver, não será para melhor, como já se pode entrever. A menos de uma imprevisível edição local dos «coletes amarelos», que de repente se pusessem a reivindicar a «demissão do governo», ou de um surto patriótico contra os turistas e os imigrantes que tanta falta fazem cá, a única coisa que se pode prever para as próximas eleições de Junho e de Setembro é que a abstenção se arrisque a ultrapassar os recordes das anteriores europeias e nacionais (nestas últimas, foram 50% de abstencionistas incluindo os «brancos e nulos»). Até o Presidente da República teve mais 50% de abstencionistas e está a perder admiradores!

Como noutros países, o congelamento do sistema partidário português parece, contudo, estar a sofrer de há pouco para cá uma fragmentação crescente. Na hipótese mais provável, isso fará com que o partido actualmente dominante continue a não ter maioria absoluta no parlamento, pois mesmo que o PS aumente a sua votação relativa (não necessariamente em votos) será graças aos parceiros da «geringonça», seguramente o PCP mas talvez também o BE.

Entretanto, a fragmentação partidária acabou por afectar irremediavelmente o PSD com o abandono de Passos Coelho, dividindo-se as actuais lideranças em três e meia: um Rui Rio em queda mas sempre favorável à união com um PS que não quer ouvir falar de «bloco central»… Depois, a enésima reincarnação de Santana Lopes prestes a aliar-se com quem precisar dos votos que a Aliança conseguir; a seguir, o futuro leader do PSD que vier a sair dos derrotados da mais recente cisão do partido e que cujos adeptos, no intervalo, se absterão… E por último mais algum protestatário do género André Ventura!

Onde Portugal é diferente para pior é que a vida política está monopolizada pelo governo, melhor dizendo, por quem ocupa o Estado e pelas corporações que querem fazer parte deste, das quais os sindicatos são a face mais visível. O caso dos professores, com um despudor que ultrapassa todos os outros funcionários públicos e os assalariados das empresas estatais, está longe de ser o único e, se o ministro das Finanças arranjasse maneira de lhes ceder aquilo que não foi prometido a mais ninguém, o resto da função pública não pararia até recuperar o mesmo…

Nos inquéritos de opinião, a esmagadora maioria dos portugueses revolta-se contra as greves despropositadas dos funcionários e isso não deixará de ter influência nas eleições. Um exemplo, porém, de que Portugal só é diferente para pior é o caso do Sistema Nacional de Saúde. Também em Espanha, como na Grécia, o sistema público de saúde está em plena crise financeira e organizativa sob a pressão da sua gradual privatização, tal como cá. Algo que se passa já também com a Grã-Bretanha e só poderá agravar-se, para todos, com a desunião europeia…

A diferença é que em Espanha há já importantes manifestações de rua em genuína defesa do SNS. Em contrapartida, se alguém cá se manifesta são os enfermeiros com a sua pressão sobre o sistema enquanto os doentes sofrem as consequências e as seguradoras reencaminham quem pode pagar para o crescente sector privado. A ADSE, uma espécie de seguro de saúde criado por Salazar a fim de evitar que os funcionários do Estado tivessem de recorrer aos hospitais públicos da época, continua às ordens do governo e tem hoje por principal função transferir 3,5% do rendimento bruto dos antigos e actuais 1.200.000 funcionários públicos para o sector privado, ou seja, mais de 600 milhões de euros em 2018, valor este que os associados têm a maior dificuldade em conhecer mas que representa, em média, um seguro de 500€ por ano a adicionar à parte que todos pagam dos impostos afectados pelo Estado à saúde.

O gasto directo em saúde de uma população em vias de envelhecimento como a nossa foi sempre bastante mais alto em Portugal do que na UE e é hoje, no mínimo, 2 mil milhões de euros do nosso bolso, além dos 8,5 mil milhões em impostos. O gasto estatal em Espanha é mais de 73 mil milhões de euros para 45 milhões de habitantes, ou seja, o dobro por habitante que em Portugal…

Paradoxalmente ou talvez não, é quem está menos mal que afinal mais se mexe. Com efeito, o problema mais intratável da nossa vida social – portanto, também da política – é a falta de mobilização dos eleitores perante os seus alegados representantes, se necessário promovendo a sua remoção por quem de direito. Não nos esqueçamos que Portugal deve ser um dos pouquíssimos países europeus cuja Constituição nunca foi submetida a referendo popular e que cujos governos se recusam a referendar questões graves como, por exemplo, a liberalização da eutanásia. As perspectivas não são brilhantes.

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