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O espectro do populismo ameaça Portugal.

E se com esta afirmação atraí a atenção do leitor, sugiro que leia o artigo de Miguel Poiares Maduro “o que esconde a palavra populismo”. Vale a pena. Pode ajudar-nos a encontrar resposta à pergunta: há condições para o populismo triunfar em Portugal?

O conceito é equívoco, um problema constante da moderna ciência política, de origens confusas, algures no século XIX (Farmer’s Alliance nos EUA ou a componente nihilista do movimento revolucionário russo?). Retomo e complemento Poiares Maduro:

  • Para os populistas, as sociedades dividem-se em elites e povo, aquelas “más”, este “bom”. As elites detêm o poder e os populistas querem recuperá-lo em nome do povo “bom”.
  • Dessa forma, o populista representa e interpreta a vontade do povo, por definição justa e verdadeira. Só ela interessa. Discuti-la é traição (ao povo), sendo por extensão também traição questionar a interpretação dessa vontade feita pelo líder populista.
  • Nenhum outro poder supera o do populista, não são admitidos mecanismos de controlo e separação de poderes. Nenhum mérito é aceite, salvo os que o populista assinale. Todas as instituições com voz independente perdem a independência… ou a voz.
  • O populista rodeia-se de “tropas”, nem sempre metaforicamente, fiéis mobilizados, que impõem à maioria (em geral) silenciosa um líder aberto ao povo, popular e empenhado na defesa exclusiva do seu interesse.
  • O populista em geral não tem uma ideologia clara. Pode ser de direita ou esquerda, quase parasita ideias e propostas que confortam os medos mais básicos da sociedade.

São duas as condições principais para o surgimento de líderes populistas.

  • Talvez a mais importante, o afastamento entre os cidadãos e a classe política. O “establishment”, as elites no poder, os políticos profissionais (ou ocasionais) percepcionados como corruptos e incapazes, são fonte da insatisfação que corrói a confiança nas instituições.
  • As crises, sejam económicas, de profunda desigualdade social ou de outra natureza. O populismo é nacionalista ou, mais restritamente, nativista. Já em meados do século XIX o Know Nothing Party (Partido “Não Sei Nada”) lutava contra os direitos dos imigrantes, nomeadamente católicos, em favor dos protestantes nascidos na América.

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Finalmente, como identificar um populista?

Pelo tom em geral apocalíptico, profético, quase sempre zangado: Trump, Le Pen, Salvini. Pela referência generalizada a inimigos figadais: elites, neoliberais, UE, imigrantes. Pelo discurso nacionalista do “Portugal primeiro”, da “America First”, “do meu bairro primeiro” (vale tudo). Pela posição contra o sistema, contra os bancos, o aparelho financeiro, a especulação em geral. Contrapõem-se-lhe o bom trabalhador, o cidadão médio, o pequeno empresário.

Um populista opõe-se à religião como forma de alienação das pessoas, é anti-muçulmano, anti-judeu, anti-católico, o que for preciso e sobretudo conveniente. Cultiva elaboradas, quase inverosímeis (convencem muita gente) teorias da conspiração, que atribuem às elites. É em geral eloquente, narcisista, sedutor. Usa uma linguagem simples, uma lógica discursiva voluntarista, promessas vagas, um discurso bipolarizado, polémico, cheio de pronomes pessoais e referências ao povo, à pátria, à vontade nacional, à segurança (coisas boas), às elites, aos financeiros, à integração europeia, aos sabotadores, aos imigrantes (coisas más).

De vez em quando, o populista fala de si próprio na terceira pessoa, enchendo a cena política de si próprio, com os espectadores, o povo, convidado a participar. Mais do que uma ideologia, expressa uma forma de narrativa que vai ao encontro das preocupações e aspirações dos cidadãos e “lhes diz o que querem ouvir”. Como escreve Poiares Maduro, “o populismo reduz a democracia ao voto da maioria”, “acaba com os mecanismos de controlo e separação de poderes”, desvaloriza “os factos e conhecimento” no processo democrático, condena qualquer dissidência como traição e os opositores como sabotadores.

E em Portugal, o populismo pode ser uma realidade?

O contrário seria surpreendente. As condições estão reunidas, candidatos a populistas não faltam. Experimentem aplicar os critérios acima enumerados ao que sucedeu com o Sporting (e o país) nos meses mais recentes e aperceber-se-ão até que ponto, numa escala obviamente menor, se tratou (ou não) de um fenómeno populista.

Um político popular está próximo do povo para o aproximar das instituições e da política. Um político populista aproxima-se do povo para o aproximar de si e alienar das instituições e da política. Não são realidades distintas, são realidades opostas.

O populismo em Portugal é evitável, mas só se quem o pode evitar não menosprezar o risco (os políticos em primeiro lugar). O primeiro passo, importante e urgente, é perceber as razões que o podem criar. E combatê-las, também, ou sobretudo, pelo exemplo.

Caso contrário, o risco converter-se-á em realidade e a realidade não será um lugar agradável para viver.