Contados todos os votos da segunda volta das eleições presidenciais, é possível concluir depois das crónicas anteriores – Então, vamos lá a ver e A eleição da porta ao lado – a análise do que se passou, sem receio de errar por ler mal os números.

Como a primeira volta apontava, António José Seguro foi eleito Presidente da República folgadamente, com 3.505.846 votos – um pouco mais de dois terços dos votos validamente expressos (66,8%) e pouco menos de dois terços do total de votantes (63,5%). Um resultado categórico, que confirma o acerto total da estratégia e do discurso que definiu e seguiu desde que se apresentou e as sondagens o colocavam em 6%.

A vitória de António José Seguro

António José Seguro quis disputar a eleição ao centro e foi eleito pela confluência ao centro de 3,5 milhões de eleitores. É este o resumo. Definiu com precisão o ponto exacto do posicionamento que queria; e manteve-o constante. A bacia hidrográfica fez o resto: vários afluentes convergiram para alargar a corrente até à foz. Nem o sopro variável das sondagens, nem provocações ou factores de distração o afastaram desse posicionamento e geografia que escolhera. A imagem estabilizada na primeira volta deu os frutos esperados na segunda: Seguro, que já estava destacado com 400 mil votos de avanço, duplicou a votação e terminou com o dobro de André Ventura, vantagem de 1,7 milhões de votos.

António José Seguro ultrapassou ainda o maior número de votos obtido por um candidato em eleições presidenciais desde 1976. Assim é, na verdade: Mário Soares, na reeleição em 1991, teve o voto de 3.459.521eleitores. Dito isto, não é possível, porém, estabelecer mais comparações: esta votação de Seguro foi obtida numa segunda volta, com apenas dois contendores; ao passo que, nas eleições de outros Presidentes (Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco e Marcelo), tratou-se quase sempre de primeiras voltas com quatro, cinco, seis, sete ou 10 candidatos em compita. Na única segunda volta no passado, Freitas/Soares em 1986, a disputa foi taco-a-taco e não permitiu tão altos voos. Seja como for, como já disse, a eleição de Seguro foi categórica, com a maior votação de sempre.

O resultado de André Ventura

André Ventura teve um resultado importante, somando mais 400 mil votos aos 1,3 milhões que trazia da primeira volta e fixando-se em 1.739.745 votos – um pouco menos de um terço dos votos validamente expressos (33,2%) e um pouco menos ainda de um terço do total de votantes (31,5%). É importante no histórico eleitoral de Ventura, que disputou esta eleição como se fosse outra coisa, somente para consolidar liderança e notoriedade e aumentar o seu score, a sua cotação. Fizera assim em 2021: tinha 1,3% (legislativas 2019), veio sacar 11,9% (presidenciais 2021), para subir a 7,2% (legislativas 2022) e 18,1% (legislativas 2024). Agora, repetiu: tinha 22,8% (legislativas 2025) e queria galgar muito para cima, para se afirmar como o líder da direita e ter novo trampolim para buscar a vitória total nas próximas eleições legislativas.

Chega e André Ventura confundiam-se inteiramente nesta campanha: Ventura não corria para Presidente, nem queria ser eleito; era voto partidário para futuro líder do governo. Di-lo também Diogo Pacheco de Amorim, em artigo de há dias no “Nascer do Sol”: “Ventura não averbou uma «colossal derrota» nas presidenciais, pois que estas foram uma ‘matrioska’ eleitoral, duas eleições em que uma ocultava a outra no seu interior: Seguro corria para Belém. Ventura, para mais uma etapa em direção a S. Bento.”  

Lendo os números, não o conseguiu. O resultado foi importante, mas ficou aquém do desejado. Ventura, na segunda volta, teve 33,2%, o que pode parecer mais do que os 31,8% da AD nas legislativas 2025. Mas não dá para cantar vitória. Primeiro, comparar presidenciais com legislativas obriga a usar os resultados da primeira volta em que a competição é plural e não a dois – e, aqui, Ventura teve 23,5%, bem longe dos 31,8% da AD. Segundo, mesmo teimando em usar os dados da segunda volta, temos de corrigir o cálculo das percentagens: nas presidenciais, só contam os votos nos candidatos; nas legislativas, contam todos os votos, incluindo brancos e nulos. Assim, corrigida em termos homólogos, os 33,2% de Ventura passam a 31,5%, abaixo dos 31,8% da AD. (E, em conversão similar, os 23,5% da primeira-volta passam a 23,0%, praticamente o mesmo que os 22,8% das legislativas. Ficou em casa.) O tira-teimas pelo número de votos é mais claro: os eleitores que votaram no líder do Chega foram 1.326.942, na primeira volta, e 1.739.745, na segunda – ou seja, respectivamente, 681.495 menos ou 268.692 menos do que a última votação da AD. Em suma, as presidenciais não serviram para André Ventura poder afirmar-se como o líder da direita. Poderá vir a sê-lo. Para já, não.

A direita deita fora o Palácio de Belém

Na altura de todos desenharem as suas estratégias, não parecia difícil que o espaço à direita vencesse tranquilamente o desafio das presidenciais. Há 20 anos que acontecia sempre assim: duas vezes Cavaco Silva, duas vezes Marcelo Rebelo de Sousa. Até 2006, fora ao contrário: nunca tinha havido um Presidente à direita do PS. E sei as dificuldades que enfrentei e a firmeza que tive de ter, como líder do CDS-PP, para afirmar e manter o apoio a Cavaco Silva e, assim, assegurar a vitória logo à primeira volta. Depois de 2006, nunca mais tivemos Presidentes à esquerda.

Nas legislativas de Maio de 2025, a cerca de um semestre das presidenciais, o espaço político à direita alcançou larga representação parlamentar com apoio de 60% do eleitorado. Era preciso ser algo desastrado e muito desorientado nos propósitos para desperdiçar tão vasta base eleitoral e devolver a uma figura vinda da esquerda o triunfo que há 20 anos lhe fugia. Ainda por cima, vários sinais vindos do PS mostravam como os socialistas mais vocais trabalhavam animadamente para novas derrotas.

As estratégias partidárias deram cabo de um quadro esquerda/direita – parlamentar e eleitoral – que nunca fora tão favorável à direita. Em especial, a estratégia do Chega teve o efeito de eleger António José Seguro: por estar noutra e por subtrair 1,3 a 1,7 milhão de eleitores à escolha do Presidente. A estratégia do PSD partilha essa responsabilidade, mas com a atenuante de que corria para vencer as eleições. O Chega, não: o seu pensamento não ia além da calculadora – e da mochila de votos. Quanto à IL, deixou cair a candidatura do partido; e, mais tarde, Cotrim de Figueiredo apresentou-se com independência, querendo ser eleito e batendo-se por estar na segunda volta. O CDS, depois de Paulo Portas, anunciado diversas vezes, desistir de se apresentar, juntou-se ao PSD.

O recomendável teria sido o que, tantas vezes, se cita de Sá Carneiro: “primeiro o País, depois o Partido”. Isto é, que os partidos à direita do PS se concertassem discretamente sobre uma personalidade que pudesse merecer o apoio da AD e, ao menos, a não rejeição da IL e do Chega, de tal forma que pudesse lançar a candidatura a partir de uma posição de independência. O partidarismo deu cabo de tudo. E o partidarismo mais abrasivo foi o do Chega, ao decidir instrumentalizar as presidenciais como ginásio (a primeira volta) e pista de treino (a segunda) para outras competições futuras. E, caso Seguro fosse, de facto, o diabo vermelho, como os apoiantes do Chega quiseram pintá-lo na segunda volta, a responsabilidade do Chega seria ainda maior: teria posto o diabo vermelho em Belém.

O ponto fraco da estratégia do Chega para as presidenciais era revelado há muito pelas sondagens: os altos índices de rejeição do Chega pelo eleitorado, resultando em que, numa eventual segunda volta, o líder do Chega perdia para todos, em geral, com grande distância. Assim, a verdade é que todos antecipavam o que viria realmente a acontecer. Nem vale apontar a culpa daqueles que, ao centro e à direita, sinalizaram publicamente ir votar Seguro. É que, nas sondagens, os índices de rejeição são expressão do sentimento directo de eleitores comuns, não de líderes partidários ou outras figuras. É larga parte do eleitorado que pensa e se manifesta assim: não gosta, não quer. Os índices de rejeição são algo de que só o Chega pode tratar, pelo modo como actua e intervém.

O Chega soube sempre que corria para perder; e, se, do outro lado, viesse a estar António José Seguro (como, a certa altura, pareceu provável), sabia que corria para perder para Seguro. Foi assim que aconteceu. Matemático.

O estrondo do socialismo

Também falhou, quase totalmente, na segunda volta, a campanha intensa para identificar Seguro com “a esquerda” ou “o socialismo”, como mote de mobilização de Chega e Ventura, apresentando-se como “a direita” e “o não-socialismo”. Digo “quase totalmente”, porque os 400 mil votos que Ventura cresceu da primeira para a segunda voltas terão vindo, em boa parte, de eleitores que levaram a sério essa campanha e, além disso, o crescimento de votos brancos e nulos pode ter derivado dessa linha – eleitores que, não votando Ventura, quiseram mostrar não votar Seguro. Contudo, não são números muito significativos: primeiro, é normal o crescimento dos candidatos da primeira para a segunda volta (em graus diferentes, é óbvio); e, segundo, o total de brancos/nulos na segunda volta (5%) é próximo do verificado nas legislativas de 2025 (4,1%).

A razão para a linha de campanha de esquerdização do alvo não ter pegado parece evidente. Primeiro, Seguro fez uma campanha ao centro e não militando à esquerda. Segundo, os candidatos do socialismo – que os houve, na verdade – foram todos eliminados na primeira volta: Catarina Martins (2,1%), António Filipe (1,6%), Jorge Pinto (0,7%) e André Pestana (0,2%). O socialismo foi copiosamente derrotado. E não foi o Chega a fazê-lo. Foram os próprios candidatos do socialismo – e o eleitorado, espontaneamente.

As condições eram, de facto, muito boas para a direita fazer melhor. Mas aconteceu como nos deram. Daqui a cinco anos, há mais. A cumprir-se a tradição, vai ser difícil. Quebrou-se uma sequência.