Entre o dia em que escrevo e a data em que o texto é publicado há necessariamente atraso e daí resulta que as minhas palavras possam estar desactualizadas no momento em que são lidas. Por isso evito escrever sobre situações temporais concretas que tendem a evoluir com rapidez. Os repórteres é que fazem isso bem.

No entanto, face ao contexto de uma pandemia dinâmica e já existente há semanas, pese embora a OMS só agora a tenha declarado, dadas as implicações para a saúde pública nacional atrevo-me a elencar algumas das primeiras lições que todos deveríamos aproveitar. Esta epidemia, ou seja, a emergência de um vírus com genoma novo e de potencial expansão por via aérea, era inevitável. Não era preciso ter andado a ler thrillers ou literatura de ficção científica. O conhecimento da biologia e das doenças infecciosas já era suficiente para que se pudesse adivinhar uma pandemia deste tipo. E outras virão, até porque o surgimento de “novas” bactérias e novas resistências a antibacterianos é constante.

Daí que todos tenhamos de aceitar, com alguma surpresa, a impreparação dos sistemas de saúde mais avançados para lidar com uma epidemia de expansão rápida. Em Portugal temos tido, como os outros, atrasos de resposta associados a atrasos na preparação. Apenas são menos desculpáveis porque tivemos mais tempo de antecipação do que os nossos orientais vizinhos. Logo que a situação na China se declarou muita coisa deveria ter sido feita, em termos de inventariação de equipamento e pessoal, só para dar um exemplo. Logo nessa altura, ao arrepio da nacional forretice, dever-se-ia ter previsto uma lógica de teste generalizado para o SARS-CoV-2.

Faz sentido que os médicos tivessem de ligar para um linha telefónica e, se fossem atendidos, validar, com quem seguramente saberia menos do assunto, a indicação para fazer um teste imprescindível?

Seguindo critérios de validade duvidosa, ao contrário do que outros mais avisados fizeram, só estivemos a testar supostos contactos e aconteceram coisas tão estranhas como um hospital de Lisboa, o maior do País, ter doentes com pneumonias virais e só há uns dias os ter testado, para concluir que estavam infetados com coronavírus. O “chuveiro” de perdigotos já terá caído em cima de dezenas de contactos e há que lidar com a inevitabilidade de fechar, ainda que temporariamente, espaços que poderiam ser necessários para assistir doentes. Faz sentido que os médicos tivessem de ligar para um linha telefónica e, se fossem atendidos, validar, com quem seguramente saberia menos do assunto, a indicação para fazer um teste imprescindível? Isto foi só para poupar, já que outra explicação não existirá. A eficiência foi inimiga da efectividade.

Temos um plano de contingência tardio e cheiro de omissões. Bem o vasculhei, mas não há nenhuma indicação sobre o que deve ser feito com imunocomprometidos. Não deveriam ser testados, ao menor sinal de infecção respiratória, como já se faz para um conjunto de vírus bem conhecidos? Há uma norma padrão de atuação clínica hospitalar, não apenas para testes e isolamentos em salas improvisadas? Onde está? Qual a orientação para internamento de doentes com COVID-19? Em que pé está a nossa capacidade de intervenção domiciliária e de acompanhamento à distância de doentes no domicílio?

Há hospitais que já vão tendo dificuldade em abastecer-se com desinfectantes e há outros que mandaram comprar “fatos de pintor”, parece que por iniciativa própria. Não é bizarro?

A linha SNS 24 não funcionou para as exigências observadas. Estava desenhada para picos de procura considerados aceitáveis. Quando a situação começou na China não teria sido sensato prever os meios para o aumento de resposta? Há hospitais que já vão tendo dificuldade em abastecer-se com desinfectantes e há outros que mandaram comprar “fatos de pintor”, parece que por iniciativa própria. Não é bizarro?

Os médicos, enfermeiros e todo o pessoal que lida directamente com doentes estão muito desprotegidos e pouco apoiados. Vai haver lugar a pagamentos de compensações e indemnizações para nós e para as nossas famílias? Quem as protegerá e como serão protegidas do inevitável risco de contágio que todos nós, profissionais de saúde, veicularemos?

Se a situação crescer e as pessoas continuarem a ir para a praia a povoarem bares e discotecas, será inevitável declarar um estado de emergência qualquer. Aprendam com a Itália!

Continuamos com falta de legislação sobre quarentena obrigatória e os subterfúgios do código penal não servirão para resolver o problema, sendo que, se a situação crescer e as pessoas continuarem a ir para a praia a povoarem bares e discotecas, será inevitável declarar um estado de emergência qualquer. Aprendam com a Itália!

Queremos diminuir as oportunidades de transmissão por contacto interpessoal e há doentes, os mais frágeis, que continuam a ter de ir aos hospitais buscar medicação cada 30 dias, porque as instituições não podem comprar medicamentos para períodos mais longos. Não podem, porque a legislação não permite despesas acima de determinados limites. Em tempos de crise mude-se e adapte-se a legislação. Há umas semanas, já com a epidemia instalada, a SPMS suspendeu a aplicação de acesso direto dos médicos à prescrição electrónica de medicamentos. Agora, só se podem prescrever medicamentos criando um episódio de consulta, mesmo que não presencial, o que não sendo o fim do mundo é mais uma tarefa burocrática numa altura em que a burocracia deveria estar aliviada.

De um modo geral as mensagens são erráticas, descoordenadas e inconsistentes. Já foi dito e escrito à saciedade que os exemplos de políticos têm sido bem maus. Sinceramente, não haverá já conferências de imprensa em demasia? E não deveriam essas conferências de imprensa ser deixadas para os técnicos? A senhora directora-geral da saúde (DGS) tem sido exemplar, mesmo com as incertezas que a têm rodeado. E é sempre melhor dizer “não sei” do que inventar desculpas e justificações. Melhor ainda, não convocar uma conferência de imprensa se não tiver nada para dizer. Para a contagem diária dos casos, basta um comunicado, não? A senhora ministra que se poupe. Está a ficar exausta, não o consegue disfarçar, e o seu pouco capital de liderança pode esfumar-se num ápice. O pior que lhe poderá acontecer é ficar bloqueada nas contradições a que a defesa do governo a obrigarem. Fale pouco, bem, com segurança, sem mentir, sem medo da realidade, sem rodeios, nem que seja para dizer, como a senhora Merkel já fez, que os tempos vindouros serão muitíssimo difíceis e exigentes de uma mobilização total do País inteiro.

Tem de haver contenção no disparate e na intervenção politiqueira. Chamar a senhora DGS à Assembleia da República, logo quando a Dra. Graça Freitas precisa de estar a trabalhar, foi um exercício de arrogância e de poder sem sentido.

Nesta saga da comunicação salva-se, para já, o senhor primeiro-ministro que tem sabido estar, falar e resguardar-se. O nosso Presidente da República, ao contrário, conseguiu fazer figura do que não é tolo. O showman, o hipocondríaco assumido, em comportamento contrafóbico. Não era preciso. Como não seria necessário que o senhor presidente do Instituto Nacional de Saúde, rebocando um trólei de viagem, tivesse ido pessoalmente escarafunchar na presidencial garganta. Outas faringes teriam beneficiado muito mais, se os testes tivessem sido feitos atempadamente e localmente.

Termino com outra lição evidente. Tem de haver contenção no disparate e na intervenção politiqueira. Chamar a senhora DGS à Assembleia da República, logo quando a Dra. Graça Freitas precisa de estar a trabalhar, foi um exercício de arrogância e de poder sem sentido. As “contas” far-se-ão no fim. Não estamos em tempo de chicana. A senhora ministra lá terá de ir, até regularmente, para falar verdade, sem escamotear realidades, porque ao falar aos deputados, enquanto não fecharem a Assembleia, estará a falar aos Portugueses. Bem mais adequado do que a proliferação de conferências de imprensa que só servirão para a desgastar sem nenhum benefício nacional. Nesta fase, o governo e as autoridades precisam de críticas construtivas, como as que tentei aqui fazer, de rever o que fez mal, de emendar o que ainda pode ser emendado e não desperdiçar oportunidades na luta contra a pandemia. Em saúde, tarde é quase sempre tarde demais. O tempo está a esgotar-se e já não há tempo para continuar a apanhar bonés.