O Parlamento português rejeitou recentemente, mais uma vez, uma proposta para reconhecer unilateralmente o Estado da Palestina. A decisão suscitou críticas previsíveis, com acusações de insensibilidade ou de submissão ao status quo internacional. Mas, por detrás da espuma da indignação, vale a pena colocar uma questão mais fundamental: o que deve orientar a política externa portuguesa: a moralidade abstrata ou a eficácia estratégica?

O sofrimento do povo palestiniano é real e profundamente comovente. Decorreram mais de sete décadas desde a primeira grande vaga de deslocamentos forçados, e a situação em Gaza, agravada pelas ações do Hamas e pelas respostas desproporcionais de Israel, tornou-se insustentável. Reconhecer esse sofrimento é um dever humano. Mas transformar esse reconhecimento em atos diplomáticos simbólicos, sem que daí advenha qualquer consequência prática para melhorar a vida dos palestinianos, é uma forma vazia de consolo político.

Portugal, enquanto Estado com influência limitada no tabuleiro global, tem de fazer escolhas. E essas escolhas passam por identificar onde pode efetivamente ter impacto. Hoje, essa prioridade é a Ucrânia.

A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito entre dois Estados soberanos; é um teste à arquitetura de segurança europeia construída desde o fim da Guerra Fria. É ali, e não no Médio Oriente, que se joga o futuro da ordem política que sustenta a liberdade, a paz e o desenvolvimento no continente europeu. Sem uma Ucrânia viável, livre da dominação russa, não haverá estabilidade duradoura na Europa. Apoiar a Ucrânia não é um gesto de solidariedade — é uma necessidade estratégica.

Portugal tem desempenhado esse papel de forma proporcional às suas capacidades, tanto no plano militar como humanitário. Mas internamente, há sinais contraditórios. Um exemplo revelador é o do Partido Comunista Português, um dos partidos que trouxe o reconhecimento da Palestina à ordem de trabalhos parlamentares. No entanto, em 2022, quando o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, discursou no hemiciclo português num momento crítico da invasão russa, o PCP optou por não estar presente. A escolha levanta inevitavelmente questões sobre dois pesos e duas medidas: por que razão se exige firmeza moral no caso palestiniano, mas se abdica de qualquer demonstração de solidariedade no caso ucraniano, quando este último se trata de um conflito à porta da Europa e com implicações diretas para a segurança coletiva?

É legítimo e desejável que a Europa se preocupe com o Médio Oriente. Mas essa preocupação não pode substituir a responsabilidade primária de garantir a sua própria coesão e segurança. Como num avião em situação de emergência, há que pôr a máscara de oxigénio em nós próprios antes de tentar ajudar o passageiro ao lado. E a Europa, confrontada com ameaças no Leste, com instabilidade nos Balcãs, com divisões internas e guerras comerciais, não se pode dar ao luxo de dispersar o seu capital político e diplomático por todas as causas do mundo ao mesmo tempo.

Importa também ter presente que a União Europeia tem sido, de longe, o maior doador de ajuda humanitária e financeira aos palestinianos. Apesar da existência de países extremamente ricos na região do Golfo, é a Europa quem tem suportado grande parte dos custos humanitários, nomeadamente de saúde e educação em Gaza e na Cisjordânia. Isto revela que o problema central não está na falta de apoio material, mas sim na ausência de um contexto político viável para a criação de um Estado funcional. E esse contexto não depende de resoluções aprovadas em Belém ou em Bruxelas — depende da reconciliação entre facções palestinianas, da estabilidade regional e da disposição de Israel em aceitar uma solução de dois Estados.

Tal como tem alertado Bruno Maçães, antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus e um dos mais atentos analistas da política externa europeia, a União tem vivido sob a ilusão de que pode atuar como uma superpotência moral, mesmo sem deter instrumentos de poder real. É uma postura que resulta bem em cimeiras e declarações, mas que falha quando posta à prova no terreno. A prioridade de qualquer estratégia externa madura deve ser a defesa do que está próximo, do que é estruturante, do que ameaça diretamente a sua integridade. Só depois — e não antes — se deve pensar no resto.

A causa palestiniana merece atenção, compaixão e apoio sustentado. Mas a política externa não é o terreno do idealismo puro — é o exercício da responsabilidade. E, hoje, a maior responsabilidade de Portugal, enquanto membro da União Europeia e da NATO, é garantir que a Ucrânia resiste, que a Europa se mantém estável, e que há um continente funcional a partir do qual se possa, no futuro, fazer mais e melhor pelo mundo.