Há pessoas que aprenderam a sofrer sem fazer barulho. Levantam-se de manhã, vão trabalhar, cumprem horários, tratam dos filhos, respondem às mensagens, cuidam dos pais, resolvem problemas e ainda encontram disponibilidade para perguntar aos outros se precisam de alguma coisa. Quando alguém lhes pergunta como estão, sorriem e respondem quase instintivamente: “Estou bem”. E a conversa continua, porque ninguém percebeu que, por detrás daquele «estou bem», havia tanto por dizer.
Nem todas as dores se vêem. Há pessoas profundamente cansadas que continuam a trabalhar, pessoas tristes que continuam a sorrir, pessoas que se sentem sozinhas e passam o dia rodeadas de gente. Há quem atravesse um luto sem o dizer, quem tenha medo do futuro, quem esteja preocupado com um filho, quem carregue dificuldades económicas que esconde, quem viva uma crise familiar sem que ninguém saiba, quem tenha simplesmente chegado àquele ponto em que já não consegue explicar o peso que leva dentro de si.
E nós cruzamo-nos com essas pessoas todos os dias.
Uma das formas mais discretas de solidão é exactamente esta: estar rodeado de pessoas e sentir que ninguém percebe verdadeiramente o que se passa dentro de nós. Não porque os outros sejam necessariamente indiferentes, mas porque todos andamos demasiado depressa. Temos compromissos, mensagens por responder, lugares onde chegar, problemas para resolver. Encontramo-nos, cumprimentamo-nos, perguntamos «como estás?» e, muitas vezes, nem sequer esperamos verdadeiramente pela resposta.
Há algum tempo, alguém me dizia uma coisa que nunca esqueci. Durante meses atravessou um período muito difícil e ninguém percebeu. Continuava a trabalhar, conversava normalmente, sorria, aparecia nos lugares onde era esperado. Até que um dia um amigo lhe perguntou: “Como estás?” Respondeu como sempre: “Estou bem”. O amigo olhou para ele e perguntou novamente: “Não foi isso que te perguntei. Quero mesmo saber como estás”. Foi suficiente. Não houve um grande discurso, nem uma solução extraordinária. Houve apenas alguém que reparou. E, naquele momento, isso era tudo o que aquela pessoa precisava.
Fiquei muitas vezes a pensar nesta diferença. Podemos perguntar “como estás?” por educação ou podemos perguntar porque queremos realmente saber. As palavras são exactamente as mesmas, mas uma pergunta passa por nós e a outra pode abrir uma porta que estava fechada há muito tempo.
Aprendemos a esconder muito bem aquilo que sentimos. Também aprendemos que não devemos incomodar os outros com os nossos problemas, que temos de ser fortes, continuar, aguentar. E criámos uma estranha admiração pelas pessoas que suportam tudo sozinhas, como se precisar dos outros fosse uma fragilidade. Não é. Nenhum de nós foi feito para carregar sozinho tudo aquilo que a vida coloca sobre os seus ombros.
As redes sociais tornaram esta contradição ainda mais evidente. Sabemos onde alguém passou férias, o restaurante onde jantou, o aniversário que celebrou e a fotografia que escolheu para mostrar um momento feliz. Podemos acompanhar durante anos a vida de uma pessoa e, ao mesmo tempo, não fazer a menor ideia de como ela está. Nunca soubemos tanto sobre os outros e isso não significa que os conheçamos melhor.
Conhecer alguém exige outra coisa. Exige tempo. Exige presença. Exige aquele silêncio desconfortável em que não temos uma resposta pronta, mas continuamos ali. Nem sempre é necessário dar conselhos. Aliás, há momentos em que os conselhos só aumentam a distância. Quem sofre nem sempre precisa que lhe expliquem como deve resolver a vida. Precisa de alguém que escute sem julgar, que não compare dores, que não tenha pressa de mudar de assunto.
A proximidade não se mede pela quantidade de pessoas que conhecemos, mas pela qualidade das relações que somos capazes de construir. E há relações que se perdem não por causa de grandes conflitos, mas por pequenas ausências acumuladas. Um telefonema que não fizemos. Uma visita constantemente adiada. Uma conversa para a qual nunca tivemos tempo. Um silêncio que vimos, mas não quisemos interromper.
Por isso, vale a pena olhar com mais atenção para as pessoas que fazem parte da nossa vida. Sobretudo para aquelas que parecem não precisar de ninguém. A mãe que cuida de todos. O pai que nunca se queixa. O amigo que está sempre disponível. O colega que continua a chegar todos os dias à mesma hora. A pessoa que faz rir toda a gente. Os fortes também se cansam. Os que cuidam também precisam de ser cuidados. E quem passa a vida a perguntar aos outros como estão também precisa que, um dia, alguém pare diante dele e faça a mesma pergunta.
Não conseguimos resolver todas as dores de quem encontramos. Nem nos compete fazê-lo. Mas podemos impedir que algumas pessoas as atravessem completamente sozinhas.
Às vezes começa por uma coisa tão pequena como pousar o telefone, olhar alguém nos olhos e perguntar sem pressa: “Como estás?”
E ficar tempo suficiente para ouvir a verdadeira resposta.