Esta semana, foi com Henry Nowak. É preciso cuidado com o “aproveitamento” deste caso. Evitar generalizações, não cair na xenofobia, e ter muita atenção. Casos destes podem ser “aproveitados” pela extrema-direita, essa dona de casa matreira, que colhe as reses todas para as “aproveitar” em croquetes políticos enganadores.
Já sabemos que é a resposta automática a todas as situações inconvenientes, e a fórmula que a esquerda arranjou para não ter de responder àquilo que a contraria. Se há uma crime que põe em causa a bondade do multiculturalismo, o problema não está no crime, está no aproveitamento que se faz dele. Se há um escândalo de corrupção num partido (podemos imaginar que é em qualquer um, mesmo que na realidade seja sempre nos mesmos), o verdadeiro escândalo é o aproveitamento político que os adversários fazem da situação. O “aproveitamento” é a chave universal para todos os imbróglios, e o mais engraçado é que é usada sempre com um ar grave, de mãos postas, como se de facto se estivesse a dizer alguma coisa útil. Mesmo nos casos mais ridículos, e desnecessários, como no caso bizarro, e que já dura há uns anos, de Camões.
Estamos a chegar ao dia de Camões, especialmente assinalável este ano porque é nesta data que se encerram as comemorações dos 500 anos do poeta. Muita coisa foi feita, colóquios, livros, exposições, e a discussão especializada foi de facto vibrante; mas se ouvirmos políticos a falar sobre Os Lusíadas, o que é que encontramos? Um monte de moralistas, muito preocupados, a explicarem-nos o “aproveitamento” que o Estado Novo fez de Camões, e a agitar afanosamente o esfregão, na tentativa de nos apresentarem um Camões, este sim desaproveitado, bem limpo de imperialismos e de ideias patrióticas.
É verdade que há n’Os Lusíadas o Velho do Restelo, sim, que pesa sobre Afonso de Albuquerque e sobre os herdeiros de Vasco da Gama uma terrível sombra, e que há muitas passagens que denunciam a corrupção do Estado da Índia; no entanto, usar isto para fazer de Camões um opositor do império é como dizer que um general é contra a guerra por se queixar dos soldados.
Em que consistiu o tal “aproveitamento”, então, que o Estado Novo fez d’Os Lusíadas? Em ensiná-lo, como se ensina agora? Em “vendê-lo”, como marca nacional, como se vendem agora os pastéis de nata e a Nova de Carcavelos? A ideia de que houve um “aproveitamento” sugere que há, nalgum ponto, uma má-fé; que há uma qualquer falsidade a respeito de Camões que se usa para legitimar uma ideia ilícita. Que falsidades terão sido essas, e que ideias? Mais, quem é que as espalhou? Foi o próprio Salazar que andou por aí a rasurar as Redondilhas de Babel e Sião, ou foram os camonistas que ainda hoje são lembrados como grandes estudiosos, e citados por aqueles que não se aproveitam (e, na verdade, também não aproveitam nada dele) de Camões?
É curioso, aliás, que o Estado Novo, também fruto do acaso, é certo, foi o regime político contemporâneo que menos importância oficial deu a Camões. Às grandes comemorações de 1880, que deram uma estátua no Chiado e ainda hoje são lembradas como um marco na história da disseminação do republicanismo, seguiram-se as mais tímidas (dada a incerteza da data) comemorações de 1924, cujo monumento mais assinalável foi a criação da cátedra universitária de estudos camonianos; depois disso, nas comemorações dos 400 anos da publicação d’Os Lusíadas, em 1972, a fanfarra é muito mais dirigida, e fica tudo entre académicos – o Estado não “aproveita” grande coisa, e aproveita certamente menos que o Estado de 1980, que já volta a fazer grandes exibições de paixão camoniana.
Ou seja, o que se nota é que esta palavrinha mágica, o “aproveitamento”, se tornou um tira-nódoas universal, que nos limpa de todos os pecados e os atira para cima dos outros. A quem é que interessa que o Estado Novo tenha feito com Camões exactamente o mesmo que todos os outros regimes fizeram? O “aproveitamento” é a palavra usada para descrever os mesmos actos praticados por quem tem menos legitimidade. A democracia celebra, o Estado Novo aproveita; a esquerda denuncia injustiças, a “extrema-direita” aproveita-as. A elasticidade da palavra é extraordinária: consegue eliminar a causalidade – imaginar uma relação entre a pressão do politicamente correcto e a morte de Henry Nowak é aproveitamento – e, nos casos mais acrobáticos, até consegue trocá-la: é por causa destes “aproveitamentos” que depois surge o racismo e a violência.
O mais importante de notar, contudo, não é o contorcionismo linguístico; o mais importante neste vício de invocar o aproveitamento é o facto de mostrar como a esquerda está enclavinhada até aos ossos naquilo que considera o pecado capital das direitas populistas. A acusação de “aproveitamento” é a maneira que a esquerda tem de transformar uma verdade numa mentira, ou seja, de se movimentar à vontade nos terrenos daquilo a que, nas mãos da direita, se costuma chamar com horror a pós-verdade. É verdade que Henry Nowak foi alvo de uma desconfiança acrescida por ser branco? Sim. Podemos dizê-lo? Não, isso é um aproveitamento da situação. É verdade, mas o importante não é que seja verdade, e há coisas mais importantes nestes casos do que a verdade. Já vimos muitas denúncias deste discurso, e foi a esquerda que nos garantiu que ele representava o grau máximo do horror e o primeiro passo em direcção à barbárie. Talvez fosse bom aproveitar as suas próprias lições.