Portugal vive preso a um consenso gasto. Um consenso que diz que o Estado é sempre a resposta, que o mérito é uma ideia perigosa e que a iniciativa privada é suspeita. Um consenso que se disfarça de pragmatismo, mas que apenas serve para adiar reformas, manter clientelas e repetir slogans que não resolvem problemas.
Por cá, o liberalismo é tratado como uma excentricidade estrangeira ou uma ameaça ao bem comum. Porque desafia a cultura instalada, rejeita dogmas, exige responsabilidade e recusa a dependência como solução fácil. E porque acredita que só sociedades com cidadãos livres para decidir, errar e reconstruir são verdadeiramente justas e inevitavelmente mais prósperas.
Mas não é novidade que o liberalismo seja a corrente contrária que acaba por prevalecer.
Foi em nome da liberdade de imprensa que liberais ingleses, inspirados por Locke, enfrentaram a censura real e, em 1695, aboliram o Licensing Act, abrindo caminho à cultura de opinião livre que influenciaria toda a Europa moderna.
Foi em nome do sufrágio universal que os liberais britânicos impulsionaram as Reform Acts de 1832 e 1867, que alargaram o direito de voto e culminaram no voto feminino em 1918 e 1928.
Foi em nome da liberdade económica que se aboliram as Corn Laws em 1846, derrotando o protecionismo aristocrático que encarecia os alimentos. Contra os interesses instalados, os liberais defenderam o livre-comércio como motor da prosperidade.
E foi em nome da educação como emancipação que liberais como Jules Ferry instituíram a escola pública obrigatória, gratuita e laica na França dos anos 1880. À época, a ideia pareceu revolucionária.
Hoje, muitas destas ideias são dadas como garantidas. Mas foram tudo menos consensuais no momento em que surgiram. Correntes políticas que hoje se apresentam como suas herdeiras e porta-estandarte, estavam então entre os seus opositores mais ferozes.
O atual consenso social e político tem três pilares: um Estado que promete mais do que lhe é possível cumprir, uma sociedade habituada à proteção mesmo quando ela falha, e uma política que evita o confronto de ideias. Propõe-se um cheque-ensino? “Querem privatizar a escola pública.” Fala-se em liberdade de escolha na saúde? “Querem acabar com o SNS.” O debate público tornou-se um ritual de caricaturas, onde qualquer proposta liberal é recebida com sarcasmo ou escândalo.
Portugal continua com salários estagnados, produtividade baixa e uma juventude desencantada. Muitos culpam o mercado, esquecendo-se que, na ocidental praia lusitana, nunca foi verdadeiramente livre. A economia está bloqueada por licenças que demoram, burocracia paralisante e um sistema judicial que se arrasta como um purgatório. Temos um Estado pesado que não resolve e um discurso aparentemente progressista mascarando uma prática profundamente conservadora. Em nome da estabilidade, não se muda nada.
Precisamos, por isso, de quem pense diferente. Não para substituir um dogma por outro, mas para abrir espaço à escolha. Não para impor um modelo, mas para permitir que vários floresçam. Ser liberal é acreditar que Portugal pode mais, se confiar mais nas pessoas e menos na tutela do Estado. E isso, hoje, é nadar contra a maré. Em muitos aspectos, é um gesto punk: desafiar o sistema, questionar, recusar o conforto da multidão. Talvez por isso incomode tanto. E por isso é tão necessário.