O país tem assistido, entre a surpresa inicial, a curiosidade compassiva e a avolumada indiferença, a uma oferta expressiva de candidaturas presidenciais, fazendo lembrar as pedras rolantes que perseguiam a personagem de Buster Keaton no filme Seven Chances. Estamos no domínio do colapso rochoso, de volume e desfecho incertos.
A primeira coisa a salientar remete para um adágio popular, de justeza incerta e aplicabilidade duvidosa: “quantidade não é qualidade”. Tendo a discordar. A Lei dos Grandes Números, publicada em tempos longínquos no Livro das Grandes Leis, dá-nos conta do seguinte: se, em média, 1 em cada 10 produtos for de qualidade, a proporção observada de produtos de qualidade tenderá para 10%; se comprarmos 1.000, é altamente provável que encontremos 100 produtos de qualidade. O ganho é irrefutável.
A segunda e a terceira não me ocorrem, mas a quarta é particularmente incisiva: é provável que o povo se anime pouco, mas o comentariado se excite muito. Disso já nos deu conta um conhecido cronista que, num jornal de inapelável referência, e provavelmente atento ao preceito dos Grandes Números, exortou a pátria com um clamor pungente: que floresçam cem candidatos (é também provável que, no caso do cronista em causa, apenas se reclamasse por alguém à esquerda que não o doutor Seguro).
Uma breve visita aos canais televisivos que albergam carinhosamente o vasto contingente de comentadores que nos calhou em sorte (qualquer coisa na ordem dos 123 indivíduos, se não me falham as teclas), e que servem para mediar a tensa relação entre a crua realidade e as sinapses neuronais dos que constituem o rebanho humano que, crê-se, anseia por “explicações”, permite-nos perceber o que se avizinha: horas, dias, semanas, meses de alegres conjecturas sobre matérias de grande profundidade: que facção do PS não vai à bola com o doutor Seguro; que figura representará o doutor Ventura fingindo não representar o doutor Ventura; como irá o doutor Tavares encaixar-se a si e ao seu partido; de que forma devemos separar o grupo dos “candidatos sérios” do grupo dos “candidatos não-sérios”; um almirante desprovido de farda perderá gravitas? Mortágua (uma delas) avançará? E por aí fora.
É claro que, neste contexto, invocar a bolha do comentariado e a sua proverbial ausência de noção, mais ainda num tema que, em boa verdade, interessará tanto ao português médio para a resolução dos seus problemas como as obras completas de Kierkegaard interessarão ao doutor Marques Lopes, não colhe. Não colhe porque os que fazem parte da bolha do comentariado há muito decretaram que a bolha do comentariado é uma invenção, um delírio, uma muleta sem sentido, um indigente bordão retórico, um buraco negro para onde são sugados apenas os que insistem em invocá-la maliciosamente. Até porque, se existisse, a bolha do comentariado reflectiria o irrestrito colectivo. E, por maioria de razão, a qualidade dos candidatos. Esqueçamo-la para sempre.
A quantidade de candidatos declarados e a quantidade dos que ameaçam apresentar-se às eleições de 2026, talvez não difira muito das últimas corridas presidenciais. Em 2016, tivemos vinte e duas candidaturas potenciais, ficando doze pelo caminho (dez no boletim de voto). Em 2021, o potencial foi de treze (no boletim restaram sete). É justo concluir que o número de pedras rolantes para 2026 tenha “margem de progressão”.
Ainda bem? Ainda bem. Há muito que, na disciplina de Cidadania, entre a problemática das gâmetas e a do planeamento familiar – a que se juntará, num futuro próximo, formas criativas de os papás, lá em casa, subtraírem ao avultado rendimento englobado uma quantia não despicienda para a conta poupança que lhes permitirá, aos setenta anos, comprar o milionário T2 em Marvila -, os petizes aprendem que os actos eleitorais são a festa da democracia. Uma corrida participada é uma corrida abençoada.
A recém-inaugurada liga dos pré-candidatos não podia ser mais esperançosa. Nela constam: um sindicalista “anti-sistema” (André Pestana); um empresário que participou no Shark Tank (Tim Vieira); uma académica com “carreira internacional” cujo lema é “Acção em vez de resignação, realismo em vez de populismo, empatia em vez de egoísmo, pedagogia em vez de demagogia e alegria em vez de amargura” (Manuela Magno); uma psicóloga clínica com carreira no (arranjem fôlego) Bloco de Esquerda, Juntos Podemos, AGIR, Nós Cidadãos e ADN (Joana Amaral Dias); um industrial dos metais preciosos (Raul Perestrello); um candidato que lançou a candidatura a partir de um restaurante chinês e que, ao longo da vida, foi proprietário de 459 carros e 63 motas (Orlando Cruz); o ex-presidente da Junta de Freguesia de Rans (Vitorino Silva); uma pessoa que em tempos organizou um buzinão (Aristides Pereira); um dissidente da Iniciativa Liberal com experiência profissional no digital, e que fundou há quatro meses o Partido Liberal Social (José Cardoso); uma life coach que afirma estar “fora da matrix”, garantindo ainda ter sido “a primeira coach a ser paga pelo Estado português” (Angela Maryah); um tenente-coronel cujo lema “não ser o presidente de todos” desafia o eleitor a interrogar-se “estarei de fora?” (Tinoco de Faria).
“Conforme se pode” era, segundo Montaigne, citando Xenofonte, o dito favorito de Sócrates. Ainda Montaigne: “Devemos encaminhar os nossos desejos às coisas que nos são mais fáceis e próximas, e nelas os fixarmos”. Atemo-nos, pois, ao que nos é oferecido, próximo e possível. Não temos um Churchill? Temos um Marques Mendes. Não temos um De Gaulle? Temos um Gouveia e Melo. Não temos um Kérensky? Temos um António Filipe. Não temos um ou dois Disraelis? Temos um Seguro e um Figueiredo. E se a esta galeria de notáveis, e à não menos espectacular liga de pré-candidatos, se juntar o aristocrata Moreira, o lente Nóvoa, o competentíssimo Centeno, a intrépida Gomes? Haverá festa mais linda?