As coisas talvez se possam colocar desta maneira: o mundo parece cada vez mais agreste, mais promotor do desamparo e desigual, mais desumano e mais injusto; as pessoas, mais agitadas, mais inflamáveis e indiferentes; e os líderes dos países parecem mais vulgares, mais jogadores e menos empáticos.

A vida da maioria das pessoas não é tão bonita como ela podia ser: trabalham demais, são exploradas e manipuladas, namoram de menos e vivem com fadiga e de fugida. Como podem chegar ao fim de um ano e eleger doze desejos para que a sua mudança se dê se, tantas vezes, sentem mais saudades daquilo que perderam do que sentem as coisas com que sonham e desejam ou aquilo a que aspiram, simplesmente? Como podem mudar se quase tudo as convida à resignação, à desistência ou à derrota? No meio de tantas pequenas barafundas, como hão-de as pessoas ser mais inteligentes, mais bonitas e mais bondosas? Como podem mudar e, a partir dessas mudanças, começar uma vida nova mesmo que o façam de braço dado com um comboio de coisas que gostariam de esquecer? Como se pode ter uma boa vida ou uma vida bem vivida com este peso todo que as impede de voar? Como se pode pôr beleza, encontro e alegria onde existe silêncio, descuido e desencontro? Como se pode pôr amor onde persiste o desamparo? Como pode haver o amanhã quando o agora nos destrata?

E, no entanto, o mundo muda! Quando não se quer consertar tudo ao mesmo tempo, de fio a pavio e de um dia para o outro. E muda sempre que somos mais verdadeiros e mais humildes. E muda mal escolhemos as pessoas “certas” com quem nos propomos mudar. E muda quando deixamos de querer que ele mude para nós em vez de sermos nós a mudarmo-nos  para ele. E muda se não impusermos a nós próprios mudá-lo sem errar. Se bem que mude nada quando o evitamos mudar porque temos pouco para lhe dar. E mude muito quando o pouco que se pensa casa com tudo o que lhe é útil.

Mudar é recordar, reconhecer e recomeçar. As pessoas só não mudam quando se impedem de recordar. Quando imaginam que mudar não é reconhecer. E sempre que supõem que mudar não é recomeçar.

Bom Ano Novo!