Seguro firmemente um ramo de salgueiro. Atiro-o para o lago do jardim do Campo Grande. De repente, baixo-me e mergulho a mão na água, perfurando o reflexo do meu rosto. Na palma da mão, de volta ao ar, um amentilho. Um amentilho de salgueiro húmido e macio. As sombras e os obstáculos impedem a visão para além da margem. Quem nunca pensou ver “algo” para lá do seu próprio rosto?
A Odisseia de Homero constitui a primeira grande meditação do Ocidente sobre o reconhecimento: fadigas, equívocos e tormentos acumulados ao longo de vinte anos (mas podiam ser trinta) deslizam subitamente do passado e oferecem por fim o seu sentido àquela palavra que constitui a base do canto.
Essa mesma palavra – nostalgia – poderia muito bem ser o epíteto de Ulisses: é ele o homem que padece da dor (ἄλγος – algos) do regresso (νόστος – nostos); o navegador cujo fragmento perdido de téssera é o lugar virginal e puro a que tudo prometeu união. O paraíso atrai e seduz. Desde antigamente.
A questão que se coloca ao rei quando por fim põe os pés em Ítaca é dupla: como reconhecerá o passado aquele que andou perdido e como poderá o novus reconhecer o vetus? Pois Homero diz com razão que Ulisses está duplamente irreconhecível quando regressa à sua ilha natal: por um lado, passaram-se vinte anos de batalhas e provações; por outro, Atena teve o cuidado de o tornar ainda mais irreconhecível, transformando-o num velho mendigo, coberto de farrapos, de cabelo comprido e coberto de piolhos.
Argos é um cão e os animais não sentem quaisquer angústias com o tempo, cujo devir, aliás, ignoram. O reconhecimento de Argos prescinde de todos os sinais: fareja Ulisses e imediatamente reconhece o seu dono; Euricleia, a ama, reconhece-o pelos pés no momento em que lhos lava: cuidara daquela criança desde o dia em que nasceu e, muito mais do que o rosto ou uma peculiar forma de cruzar os braços, os pés de uma criança e os de um ancião teimam nos mesmos traços.
Eumeu e Filécio, velhos amigos de infância, reconhecem Ulisses pelo sinal que lhe foi infligido durante a iniciação adolescente – uma cicatriz a meio da perna. São os três da mesma idade e sabem já que todo o caçador se torna homem no seu primeiro combate mortal com o mais selvagem dos animais – a memória. O vaqueiro e o porqueiro reconhecem o ferimento infligido a Ulisses por um javali durante o confronto corpo a corpo na floresta do Parnaso, numa madrugada de insónia, ansiedade e nevoeiro.
Laertes, o pai de Ulisses, velho rei destituído do poder, vive separado dos homens que governava. É desprezado por eles; usa um gorro de pele de cabra; já não é rei, é um camponês ridículo; encontra-se quase tão profanado como o seu filho, transformado num vagabundo pela deusa. O rei destronado observa o modo como aquele pobre coitado vagueia pelo pomar, e nesse momento reconhece o seu filho na infância. Ulisses observa atentamente as árvores de fruto que plantou há muito tempo com o seu pai, quando era uma criança. Desde antigamente.
Telémaco, o filho de Ulisses, pergunta-lhe: “por que sinais pode uma criança reconhecer o seu pai?” e, fazendo-o, fala. O filho é forçado a invocar o próprio dialogos, que funda a linguagem. É deste modo que cada pai tem de responder ao seu filho para que este se torne seu descendente. Os sinais são substituídos por traços. O filho não consegue reconhecer uma semelhança biológica de que não tem consciência – uma vez que o pai partiu e Telémaco nunca o viu – mas o pai reconhece o seu filho na medida em que o parentesco é capaz de, na criança, vislumbrar aquele que morreu – o pai quando tinha a mesma idade. Reconhecer, neste sentido, significa confessar-se filho. Perenemente, ao longo de todos os tempos, um filho será sempre o filho-do-pai-na-mesma-idade. A “semelhança” – tão irrecíproca como a filiação – passa sempre de pai para filho, passando pela imagem do morto que o filho ignora, transitando pela cena que ninguém vê.
Por fim, Penélope é a esposa. Por que sinais reconhece uma mulher o seu homem? Ela contesta os traços, duvida dos sinais, rejeita as palavras. Aguarda a resposta verdadeira, exige aquela linguagem que não se reduz a palavras e que, colocando-se para lá da fé na própria linguagem, prescinde dela. Mantém-se absolutamente relutante ao longo do ciclo de reconhecimentos – o cão, a ama, os amigos, o sogro, o filho – e nada a convence. Nenhuma mulher aceitará reconhecer o seu homem senão quando este lhe confiar o segredo.
Segundo Homero, a mulher é a fiel depositária da nudez (o segredo do corpo) e a fidelíssima depositária do segredo (a nudez da alma). Quando Ulisses lhe revela a estrutura oculta do leito conjugal, de que uma das pernas é uma raiz de oliveira, ela reconhece nele enfim o homem que ama. Nesse momento, sobe para a cama, deita-se de costas e oferece-lhe o antiquíssimo desejo de ser possuída por ele. E imediatamente após ele depositar nela o seu segredo, após ter ejaculado dentro dela, o homem, de novo marido, abre a boca, aproxima-se do ouvido dela, devolve-lhe num sussurro o mais oculto dos segredos – o seu próprio nome, de novo inteiro, de novo puro: Penélope (Πηνελόπη), nome geralmente interpretado como uma combinação da palavra grega pēnē (πήνη), “trama”, e ōps (ὤψ), “face”.
Diz-se que mulher alguma amará um homem que não lhe saiba sussurrar, desde antigamente, o seu nome, pois, assim que ela o ouve, esse som revela-se afinal a morada na qual ela, sem saber, sempre habitou e da qual ele nunca chegou a partir.
Como pode o Agora ser movido pela visitação, pela condensação do Outrora? Como pode uma mulher reconhecer um homem se não permitir com ele tecer a trama oculta do seu rosto? Enquanto houver salgueiros nas margens, será sempre tempo de regressar.