Nos dias 16 e 17 de Outubro realizou-se em Budapeste uma conferência dedicada a uma das conversas políticas mais importantes do século passado, aquela entre Leo Strauss e Alexandre Kojève. Os dois pensadores confrontaram-se, em plena Guerra Fria, tendo em conta a marcha da História, o seu eventual fim, a tirania e um Estado mundial.

Fugido da Europa para escapar ao Nacional Socialismo, Leo Strauss encontrou a sua nova casa nos Estados Unidos da América, onde se tornou, entre uma certa elite intelectual americana, um pensador determinante. Strauss, como muitos grandes pensadores, é controverso. Na sua casa adoptiva os seus discípulos são por vezes divididos entre os Straussianos da Costa Oriental (East Coast Straussians) e os Straussianos da Costa Ocidental (West Coast Straussians). Os seus livros continuam incontornáveis, Direito Natural e História (1953) ou Pensamentos sobre Maquiavel (1958) são obras dificilmente ignoráveis.

Na conferência tratou-se primariamente do Da Tirania. Uma interpretação do Hierão de Xenofonte (1948). Strauss recebeu uma resposta da parte de Alexandre Kojève. Strauss, depois de ter lido Kojève, relança a contenda com a sua Reafirmação. Os três textos foram publicados em conjunto posteriormente, mais o Hierão de Xenofonte.

Kojève deixou Strauss a falar sozinho, pois não se dignou a continuar a interacção, dizendo a Strauss que o resto seria da responsabilidade dos leitores. Décadas após décadas eles têm-se mostrado presentes, de tal forma que o Mathias Corvinus Collegium realizou esta conferência em 2025, apercebendo-se da centralidade desta questão para o futuro da política internacional.

Por esta altura o leitor perguntar-se-á qual o interesse dum livro escrito na Grécia Antiga, há mais de 2000 anos, para a actualidade política? O interesse é imenso, pois grande parte do vocabulário político que ainda hoje utilizamos vem dessa Grécia distante.

A primeira lição é que a tirania não é sinónimo de ditadura. Outrora isto era claro, hoje infelizmente não. Pensamos que assim o seja muito por culpa do conceito de ditadura do proletariado, em voga no século XIX e XX. Surgiu também a questão do despotismo, normalmente assumido como sinónimo de tirania. No entanto, Melvin Schut, na sua intervenção ancorada em Tocqueville, levantou a possibilidade de existirem despotismos que não seriam necessariamente tirânicos.

Seguiu-se uma vivaz discordância entre quem escreve estas linhas e Paul Rahe, eminente especialista da Esparta antiga, a grande rival de Atenas no mundo grego d’antanho. Na Europa Romano-Germânica, e consequentemente nas Américas, existe uma tendência que menospreza fortemente o pensamento político da Europa ortodoxa, de Bizâncio e da Muscóvia. Na Idade Média produziu-se uma metamorfose do conceito de despotismo – passar do despotismo antigo ao despotismo moderno sem ter a consciência do despotismo medieval – em Constantinopla – é um erro.

Erro esse muito straussiano, mas não só. A sistemática distinção entre os Antigos e os Modernos – por exemplo muito presente em Benjamin Constant – mina a tripartição histórica: Antiguidade, Medievo, Modernidade. Convenientemente vemos as duas primeiras amalgamadas contra a terceira, fingindo que foram a mesma coisa – ignorando como o Cristianismo modificou a Europa na transição da Antiguidade para o Medievo.

Quem ganhou o debate, Strauss ou Kojève? Empate técnico, diríamos nós. Strauss está correcto quando insiste que um Estado homogéneo e universal seria sempre combatido por homens nobres, que se rebelariam contra esse jugo brutal. Strauss está igualmente correcto quando alerta para a existência de problemas intemporais, daí – em pleno século XX! – ter-se debruçado num livro de Xenofonte onde o tirano de Siracusa e o poeta Simónides trocam argumentos sobre o poder e a sabedoria.

Kojève acerta quando integra o processo histórico na sua análise. Hierão de Siracusa não pode ser compreendido como Estaline: o tempo, o espaço, a tecnologia, o Cristianismo, o Socialismo, o Eurasismo nunca o permitirão. Strauss suspeita demasiado da História, pensando que esta degenera frequentemente em Historicismo.

Kojève não falha quando vê em Hegel o pensador mais importante da sua época, eu ousaria mesmo dizer da nossa época – vivemos todos debaixo da sobra de Hegel. A Revolução Francesa, Napoleão, a Prússia livre e restaurada. Mas Kojève trai Hegel quando passa do hegelianismo ao hegeliano-marxismo. Hegel não é Marx.

Alexandre Kojève foi dos primeiros a ver claramente que a essência – ousia – da União Soviética e da fetal União Europeia é a mesma – antecâmaras do tal Estado universal e homogéneo. Philippe de Villiers – na página 337 do seu le moment est venu de dire ce que j’ai vu – conta-nos parte da sua conversa com Vladimir Putin; dizendo ao russo que Margaret Thatcher um dia lhe disse: nós desembaraçámo-nos dos comissários no Leste. Não o fizemos para obedecer a outros comissários no Ocidente.

Esta dialéctica permanente é eximiamente descrita por Carl Schmitt, é a batalha entre o universo e o pluriverso. Entre a tirania e liberdade, entre o mal e o bem.

Tendo dito isto não é de estranhar que a Hungria de Orbán receba Trump e Putin; tentarão uma vez mais salvar as vidas ucranianas, que estão a ser sacrificadas no altar dos acólitos de John Locke, para instaurar o Estado universal e homogéneo de Kojève. Em Portugal contentamo-nos de continuar a dar milho aos pombos, e a reduzir a arte da política a mera gestão. Através da servidão voluntária – La Boétie – amamos tanto a tirania que atacaríamos quem dela nos livrasse.

Numa recentíssima entrevista no The Independent o britânico Lorde Richards alertou que a Ucrânia não conseguirá levar a melhor sobre a Rússia – foi possivelmente a primeira vez que alguém britânico hierarquicamente tão relevante disse algo do género desde 2022. Se Londres acompanhar Washington entraremos numa nova fase, e aproximar-nos-emos do fim da matança.

Como sussurrou o epítome da elegância na longa noite de Budapeste: afiem as espadas. Como fazê-lo? Fechando os almanaques do feminismo, do multiculturalismo e do economicismo e abrindo as obras de Xenofonte, de Strauss e de Kojève.