Facto: com quatro anos lectivos consecutivos de disrupções no funcionamento das escolas, devido à pandemia e agora devido às greves dos professores, há milhares de crianças que já não sabem o que é a normalidade escolar. Muitas delas, aliás, nunca souberam: as que estão hoje a frequentar o 1º ciclo do ensino básico nunca entraram na escola sem receio de perturbações ou de descobrir que não terão aulas.

Facto: existem ainda alunos sem aulas por falta de professor. A escassez de professores é um dos maiores desafios do sistema educativo, visto que o fluxo anual de saídas para a reforma esmaga o número de novos professores saídos das Escolas Superiores de Educação. O recrutamento tornou-se particularmente difícil em determinadas disciplinas ou áreas geográficas menos apelativas aos professores-candidatos. Até ao momento, não se conhecem medidas do governo que permitam contrariar eficazmente esta sangria.

Facto: as perturbações no funcionamento das escolas têm consequências para a aprendizagem das crianças, assim como para o seu bem-estar emocional e psicológico. Seria, de resto, absolutamente bizarro caso assim não sucedesse e, afinal, as crianças aprendessem mais e melhor sem aulas do que com aulas. Os dados internacionais não permitem qualquer fragmento de dúvida acerca do transversal dano na aprendizagem nos anos da pandemia. Da mesma forma, a investigação confirma que períodos longos de greve arrastam consequências para a aprendizagem dos alunos.

Facto: o governo e os sindicatos, por razões diferentes, fizeram intervenções públicas que desvalorizaram o dano causado aos alunos e a urgência da recuperação da aprendizagem. Da parte do governo, o Ministro da Educação analisou as provas de aferição de 2022 concluindo que os alunos já estavam melhores do que em 2019 — reclamando então o sucesso do programa de recuperação de aprendizagem implementado. Da parte dos sindicatos, desdramatiza-se o impacto das greves (ou seja, da não-realização das aulas) na aprendizagem das crianças, assegurando o impossível (que os alunos não serão prejudicados), para defender a oportunidade e necessidade das actuais lutas sindicais.

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Facto: aumentou recentemente a procura por vagas em colégios privados. Os dados mostram, por exemplo, que nunca em democracia houve uma tão grande percentagem de alunos do secundário a frequentar estabelecimentos privados como em 2021 (24,3%) — e, quando vierem os dados relativos a 2022, a tendência confirmar-se-á. Apesar do tremendo esforço que tal implica, as famílias estão a optar por pagar para tirar os seus filhos de escolas da rede pública.

Facto: aumentou bruscamente a procura por centros de explicações, para apoio à aprendizagem dos alunos, de acordo com uma reportagem desta semana na Renascença. Para além destes testemunhos, os dados recolhidos oficialmente vão até 2019 e, apesar de serem escassos, retratam uma realidade alarmante onde milhares de famílias sentem a necessidade de subscrever serviços de apoio ao estudo para os seus filhos realmente aprenderem e poderem prosseguir os seus estudos no ensino superior. É uma espécie de sistema educativo sombra e todos os sinais sugerem que esta realidade se aprofundou.

Durante os últimos anos, escrevi repetidamente sobre cada um destes factos, pelo que vou poupar o leitor à repetição dos dados e dos argumentos. O meu ponto com esta síntese consiste em tornar clara esta ideia: as acções geram reacções. Com o iminente colapso da rede pública, porque os desafios educativos não foram corrigidos (mas sim agravados) e os danos na aprendizagem não foram recuperados (mas sim negados), as famílias viram-se forçadas a resolver à medida das suas possibilidades: inscrevendo os filhos na rede privada e recorrendo a centros de explicações. A Educação entrou num salve-se quem puder e, infelizmente, muitas crianças não podem — afinal, não são muitas as famílias que conseguem suportar o custo financeiro destas alternativas, pelo que se alargou o fosso social entre quem pode e quem não pode.

Isto é uma injustiça revoltante. Isto é um drama social silencioso, porque os principais prejudicados não têm voz no debate público. E, claro, isto é também a morte do slogan político “da defesa da escola pública” — é que foram os seus alegados defensores que a sacrificaram no altar das suas conveniências.