O sector automóvel é um dos pilares fundamentais da economia portuguesa: em 2024 contribuiu com 7,7 por cento da facturação total das empresas e gerou 10,9 mil milhões de euros em receitas fiscais. Com 167 mil trabalhadores, envolvendo 35 mil empresas, este sector não apenas sustenta a economia nacional, como também reflecte tendências e desafios globais, particularmente no que toca à transição energética e à sustentabilidade. Contudo, apesar de alguns dos dados mais recentes serem positivos, persistem entraves significativos à concretização de um futuro mais sustentável.
Dos vários desafios à transição energética, posso começar por destacar a renovação do parque automóvel português. Cerca de 1,6 milhões de automóveis com mais de 20 anos continuam a circular nas estradas nacionais, um número preocupante num momento em que a União Europeia traça metas ambiciosas para a descarbonização. Com apenas 7 por cento do parque automóvel movido por energias alternativas, Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer para alcançar os objectivos europeus que, actualmente, prevêem que, até 2035, apenas veículos com zero emissões de CO2 sejam matriculados como novos.
Outro entrave significativo reside no aumento das importações de veículos usados a gasóleo. Em 2024, 72 por cento dos automóveis a gasóleo matriculados em Portugal eram importados usados, reflexo de uma fiscalidade demasiado permissiva, que acaba por “incentivar” a entrada de veículos mais poluentes. Este fenómeno contraria os esforços de sensibilização ambiental que têm pautado o mercado de veículos novos, onde os modelos sustentáveis, como os eléctricos e híbridos, representaram mais de 50 por cento das vendas no ano passado. Isto apesar de não termos nada contra a liberdade de circulação de bens na União Europeia.
Estamos, por isso, perante um paradoxo no sector. Por um lado, acabamos de sair de um ano histórico para a produção automóvel, com o segundo melhor resultado da última década, com 332.546 veículos produzidos, 87,6% dos quais destinados à exportação. Por outro lado, a realidade das estradas nacionais contrasta com este dinamismo: a predominância de veículos antigos e a elevada dependência de combustíveis fósseis continuam a atrasar a evolução para um sector mais sustentável.
Este retrato do sector compromete não apenas os objectivos ambientais, mas também a segurança rodoviária e a eficiência energética. A renovação da frota é, portanto, uma prioridade inadiável. Nesse sentido, o reforço do Sistema de Abate de Veículos em Fim de Vida é crucial, não apenas para incentivar a aquisição de veículos eléctricos, mas também para incluir outros tipos de veículos que possam contribuir para uma redução significativa das emissões de CO2. Embora os incentivos e benefícios fiscais à mobilidade eléctrica sejam atractivos para as empresas – cujas frotas muito têm contribuído para o aumento da circulação de veículos mais verdes –, o mesmo não acontece para o cidadão comum, cujos apoios são praticamente inexistentes.
A transição energética do sector automóvel português é, por tudo isto, um caminho inevitável e urgente. Com as metas europeias já definidas, os próximos anos serão decisivos para transformar o parque automóvel e reduzir a pegada ambiental do transporte. Este é um processo que exige uma combinação de políticas públicas que promovam a renovação do parque, passando pela colaboração entre o sector privado e o governo para acelerar a expansão das infra-estruturas de carregamento.
Apesar dos desafios, o sector automóvel português apresenta sinais de mudança positiva. A liderança dos veículos sustentáveis no mercado de ligeiros novos é um dado encorajador, demonstrando que a transformação já está em curso. O futuro do sector automóvel será, inevitavelmente, mais sustentável e Portugal, com as medidas certas, pode posicionar-se como um exemplo nesta área.