As melhores evidências apontam para a existência, espalhados pelos CSP e alguns Hospitais do SNS, de um conjunto de profissionais que exercem como médicos dentistas e que têm vindo a ser considerados, pela maioria dos Serviços e Administrações como verdadeiros extraterrestres no SNS.

Primeiro, pelo facto de, não tendo uma carreira própria, serem contratados para os Serviços pelos mais heterogéneos mecanismos usados pela função pública – e nenhum deles adequadamente legal – para a autonomia desta profissão que está técnica e deontologicamente regulada por uma ordem profissional. Constata-se que, ou estão contratados como Técnicos Superiores que não é uma carreira compatível com as competências médico-cirúrgicas reconhecidas em Portugal e na Europa para a Medicina Dentária, como foi assinalado a 17-11-2021 pela Provedoria de Justiça ou, então, estão contratados para prestação serviços em moldes semelhantes a qualquer outro bem descartável do SNS e em que nem sequer há qualquer homogeneidade do valor-hora pago pelas diferentes ULS: uns pagam 10,80€/h, outros terão direito a 12€/h, outros 12,50€/h, outros 13,96€/h, outros 14,30€/h, outros 14,50€/h, outros 15€/h. O valor  pode chegar aos 22€/h, deitando por terra o basilar conceito de remuneração igual para funções iguais (se calhar, por isto mesmo, uma putativa boa justificação para a premente necessidade de revisão constitucional); como última hipótese de contratação, verifica-se a ainda abusivamente utilizada contratação por empresas de prestação de serviços que fazem comissão deste tipo de serviços, como se as necessidades de atendimento nos gabinetes do SNS aos utentes, fosse temporária e não permanente e haja interesse do Estado em introduzir um 3º factor, cujo benefício para esta equação não fica claro.

Num segundo nível de alienização da Medicina Dentária no SNS, verifica-se que estes profissionais não são, nem estão minimamente integrados numa estrutura hierárquica de serviço específico para as suas funções, em arrepio aos já abundantes e complementares Relatórios e Orientações, publicadas por também já demasiados Grupos de Trabalho que se debruçaram sobre a emergente reforma da Saúde Oral no SNS, ao longo dos anos. Se por um lado os utentes e os médicos dentistas não recebem ou percebem instruções claras de base organizativa dos Serviços, por outro lado, tudo demonstra que qualquer outro profissional do SNS (seja ele médico, enfermeiro, TSS, TS, TSDT ou até administrativo) parece estar “habilitado” para “dar uns bitaites” na coordenação e gestão desses gabinetes, mesmo que salte à vista que nem sequer consegue escovar os dentes, quanto mais perceber ou identificar as necessidades próprias da saúde oral no que respeita, por exemplo, a materiais e consumíveis necessários aos gabinetes, a tempos de consulta, governação clínica ou trajeto do utente nos diferentes níveis de cuidados.

Como terceiro sinal de quão estranha está a Medicina Dentária no SNS, prende-se com o facto do próprio Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral ter a sua coordenação local (mas não a nacional) blindada à Saúde Pública, situação que não acontece com outros programas nacionais como o Programa Nacional para a Diabetes, ou o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, ou o Programa Nacional para a Saúde Mental, contrariando orientações da própria Federação Dentária Internacional,  publicadas e periodicamente revistas desde o ano de 2000. Mais parece haver uma intromissão abusiva que obriga à nomeação de uma coordenação local, quando essa nomeação, tal como a organização interna das atuais ULS, são da exclusiva responsabilidade dos respectivos Conselhos de Administração. Mas se o médico dentista pode ser tido como um alien para o SNS, a FDI ou demais organizações nacionais ou internacionais serão os OVNI’s da UFOlogia, em que pode interessar fingir que se auditam de forma sistemática e consequente aquilo que se designa por “cheque dentista”, qualquer que seja a área a ter em conta (grávidas, idosos, crianças, portadores do HIV,….)

Por último, assinalar que, quiçá devido ao estado de marcianização da saúde oral no SNS e pelo SNS, Portugal continua de forma reiterada a ser, segundo os mais recentes relatórios da OCDE, Health at Glance, um dos 3 países em que maior percentagem da população reporta necessidades de saúde oral não satisfeitas, e o segundo onde estão identificadas maiores discrepâncias no acesso a cuidados de saúde oral entre o quintil de portugueses classificados com maiores rendimentos e o quintil dos classificados com menores rendimentos, ou seja, estaremos a um pequeno passo para o Estado mais rapidamente poder reinvindicar uma sucursal da famosa Roswell’s “Alien Zone Area 51”, que criar a carreira especial de Medicina Dentária no SNS, reconhecendo os conteúdos funcionais do médico dentista nos Serviços Públicos de Saúde.