1 Não apoio o politicamente correcto por significar fraqueza e incapacidade de defesa de valores. Não apoio qualquer extremismo político, religioso, social e económico por implicar imposição sobre terceiros. Não apoio a cultura do cancelamento, nem o wokismo, por serem expressões de intolerância. Não apoio a identidade do género, que considero ser uma aberração, por resultar da insegurança de pessoas com pouca auto-estima e, embora reconheça os direitos das minorias, nos moldes ensinados por Lord Acton, não posso aceitar que sejam uma imposição sobre a maioria.

Vivemos num tempo em que os valores que caracterizam a nossa civilização estão sob ataque cerrado. É natural que o pensamento humano e a sociedade evoluam ao longo do tempo. Thomas Jefferson sumarizou a ideia: “Eu não defendo mudanças frequentes nas leis e nas Constituições, mas as leis e as instituições devem andar de mão dada com o progresso da mente humana. À medida que este se desenvolve, se torna mais esclarecido, que novas descobertas e verdades são feitas e que os comportamentos e opiniões mudam, com a transformação das circunstâncias, as instituições devem evoluir para acompanharem os tempos”. Todavia, essa evolução não implica o repudiar de valores.

Se eu critico as tendências autocráticas da esquerda, se eu critico a estupidez do revisionismo da esquerda que quer impor uma releitura da história, cancelando ou proibindo, as ideias de génios como, entre outros, Platão ou Aristóteles, que são a fonte estrutural da evolução do nosso pensamento, não posso apoiar o mesmo tipo de comportamento por parte da direita. Não tenho nada contra quem acha que acabar com a identidade do género e o wokismo é suficiente para fechar os olhos ao restante, incluindo aos valores democráticos. Simplesmente não penso assim. Portanto, apoio as medidas de Trump sobre o género e afins, mas discordo das restantes.

2 O GOP (Grand Old Party), mais conhecido por Partido Republicano, acabou. Donald Trump e associados trataram disso. O que existe agora é o MAGA, algo completamente distinto, até mesmo contraditório. Ora vejamos.

Em 1988, num discurso num discurso sobre tarifas contra o Canadá e o México, Ronald Reagan disse que as mesmas eram anti-americanas, afirmando que “Os nossos parceiros comerciais pacíficos não são nossos inimigos. São nossos aliados. Devemos ter cuidado com os demagogos que estão prontos a declarar uma guerra comercial contra os nossos amigos — enfraquecendo a nossa economia, a nossa segurança nacional e todo o mundo livre — enquanto agitam cinicamente a bandeira americana. A expansão da economia internacional não é uma invasão estrangeira, é um triunfo americano. Um objectivo para o trabalhámos arduamente para alcançar e algo central para a nossa visão de um mundo pacífico e próspero de liberdade. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos lideraram o caminho para desmantelar as barreiras comerciais e criar um sistema de comércio mundial que preparou o terreno para décadas de crescimento económico inigualável. Sim, em 1776 os nossos pais fundadores acreditavam que valia a pena lutar pelo comércio livre. E podemos celebrar a sua vitória porque hoje o comércio está no centro da aliança que assegura a paz e garante a nossa liberdade. É a fonte da nossa prosperidade e o caminho para um futuro ainda mais risonho para a América”.

Este tipo de pensamento já não existe. Trump afirma o contrário. Para além disso, não me recordo de nenhuma outra administração norte-americana elogiar e/ou apoiar tanto autocratas e ditadores como a de Donald Trump faz. São os seus interlocutores preferenciais.

Por isso, embora não tenha sido surpreendido, achei o discurso de JD Vance vergonhoso. Tentou dar lições de democracia e de liberdade de opinião aos europeus ao mesmo tempo que a administração a que pertence é incapaz de reconhecer a invasão do Capitólio pelos apoiantes MAGA e que baniu indefinidamente a Associated Press da Casa Branca por causa da expressão “Golfo da América”.

Não foi JD Vance quem questionou a autoridade dos tribunais para decidir sobre medidas executivas de Trump? JD Vance desconhece que a democracia na América está baseada no Estado de Direito e na Separação de Poderes? Será que JD Vance considera a Rússia e a China democracias? Apontar o dedo sem olhar para o reflexo é, no mínimo, hipocrisia.

3 Há vários anos que escrevo sobre a necessidade de Portugal e da Europa investirem mais em defesa e segurança. Infelizmente, penso que o facto da União Europeia não ser uma federação impediu a criação de uma agência como a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) que, entre outros avanços tecnológicos, originou a Advanced Research Projects Agency Network (ARPANET), a base da actual internet. O investimento que o EUA fizeram em defesa também teve impacto no desenvolvimento social.

Sou um apoiante da NATO e, como estudioso do tema, consciente de que nem sempre houve harmonia entre europeus e americanos no seio da NATO. Tanto os pontos que François Duchêne (1972) e Hedley Bull (1983) enunciaram continuam relevantes. E é inquestionável que o “Pivot to Asia” foi mais do interesse americano do que europeu.

A Aliança Atlântica prevê desde a sua criação um pacto de defesa mútua de todos os seus membros. Curiosamente, o artigo 5º só foi invocado uma vez desde 1949. Quem o fez foram os EUA, depois dos ataques de 11 de setembro. E todos os restantes membros na NATO honraram o pedido. Hoje, os EUA dizem claramente que não honrarão as suas responsabilidades se outro país invocar o artigo.

4 Dito isto, Donald Trump tem toda a legitimidade para pensar e fazer o que quiser. Isso não está em causa. Frank-Walter Steinmeier, Presidente da Alemanha, sumanizou bem o novo tempo: “A nova administração americana tem uma visão diferente da nossa sobre o mundo. É uma visão que não respeita as regras estabelecidas, as parcerias estabelecidas e a confiança. Não podemos mudar isso. Temos de o aceitar e temos de saber lidar com isso.”

É um bom sinal saber que há consciência da nova realidade. A europa tem de se preparar para um tempo em que os EUA são contra o comércio livre e em que preferem dialogar com ditadores. Se Putin invadir países da UE, os americanos não nos ajudarão.

Não sei se tudo isto se trata de uma reescrita ou inversão de paradigma nas Relações Internacionais? Estou a escrever um ensaio sobre o tema. O que sei é que a destruição deliberada do elo fundamental entre a Europa e os EUA, ou seja, o eixo principal da chamada Civilização Ocidental, é suicida e terá custos tanto para os americanos como para o europeus.