As eleições presidenciais na Ucrânia e na Eslováquia vieram mostrar uma vez mais que os eleitores estão fartos dos políticos profissionais. Isto não seria muito grave se estes últimos dessem conta de que não se trata de um fenómeno passageiro, mas cada vez mais presente se continuarem a desprezar os problemas reais dos cidadãos.

Foram muitos os que se riram quando, na véspera de Ano Novo, Volodimir Zelenski, actor, cómico e showman, anunciou a sua candidatura ao cargo de Presidente da Ucrânia, o maior país da Europa depois da Rússia.  Depois, os sorrisos foram desaparecendo à medida que as sondagens mostravam as perspectivas eleitorais desde “corpo estranho” na luta política. Os eleitores e políticos ucranianos começaram a ver a realização real de uma telenovela: “O Criado do Povo”, onde Zelenski desempenha o papel de Presidente da Ucrânia.

Verdade seja dita, a telenovela-comédia não é genial, mas, em alguns momentos, até parece que as cenas são bem reais. Por exemplo, como a oligarquia ucraniana faz de um simples professor de História numa comum escola o Presidente de um país.

As razões do salto do personagem principal do ecrã para a realidade política são várias, mas a principal é que o eleitorado está cansado dos políticos profissionais clássicos que lhes enchem os ouvidos de promessas irrealizáveis. No caso da Ucrânia, bem como noutros casos, as pessoas são capazes de votar no diabo para se verem livres dos actuais dirigentes.

Este estado de espírito está muito presente entre a juventude e a classe média que não vêm na política clássica um caminho para o futuro. O eleitorado está cansado da corrupção, do nepotismo e da degradação constante do seu nível de vida. Veja-se o número de pessoas que emigraram desse país à procura de melhor vida: de 9 a 10 milhões, num país com cerca de 45 milhões de habitantes! Grande parte são quadros bem preparados do ponto de vista profissional!

Zelenski ainda precisa de vencer na segunda volta ao actual dirigente do país Petro Poroshenko, e a tarefa não é fácil. O actor, que tem ainda pouca experiência no campo da política e nenhuma na área da governação, terá de enfrentar um político experiente e que se apoia numa poderosa máquina administrativa. Creio que, se a segunda volta for tão limpa e transparente como a primeira, Zelenski acabará por vencer e aí estaremos perante grandes incógnitas. Será que ele é um político autónomo ou, como dizem os seus críticos, um homem do oligarca Igor Kolomoiski, que espera a sua oportunidade de se vingar por Poroshenko lhe ter nacionalizado o PrivatBank? Quem será a sua equipa? Terá Zelenski tempo de formar um partido político forte capaz de obter um bom resultado nas eleições parlamentares do Outono?

É de recordar que o sistema político ucraniano é um sistema misto presidencial-parlamentar. O Presidente tem fortes poderes no que respeita à política externa, mas a política interna está sob o controlo do primeiro-ministro nomeado pela Rada (Parlamento) e do governo. Ora, se o Presidente não tiver um forte apoio na Rada, terá dificuldades em governar tendo como primeiro-ministro um político da oposição.

Mas mesmo que Zelenski seja derrotado pela “política clássica”, a sua participação na corrida eleitoral é mais um sinal claro de que o eleitorado já está cansado da impotência dos governantes. Parafraseando Vladimir Lenine, ao enunciar algumas das condições para a revolução socialista, quando os debaixo já não querem e os de cima já não podem.

(Qualquer que seja o vencedor, as relações entre a Ucrânia e a Rússia não irão melhorar, e o Kremlin parece ter consciência disso. Podem, sim, degradar-se ainda mais ao ponto de termos de assistir a novos conflitos armados).

Na vizinha Eslováquia venceu as eleições presidenciais uma advogada, Zuzana Caputová, cujo programa político é também muito vago, podendo resumir-se a uma das palavras de ordem da sua campanha: “É preciso mudar tudo enquanto não é tarde”.

Mais dois casos de populismo a juntar aos muitos já existentes.

P.S. Herman José, se as coisas continuarem assim pelo nosso país, prepare-se para exercer o cargo de primeiro-ministro ou de Presidente. Penso que o eleitorado já não será apanhado de surpresa.