A palavra “intelectual” nasceu na França do final do Século XIX e servia para quem ia além de dar notícias. Sim, o intelectual não era apenas um jornalista glorificado. Ao contrário do que pode parecer de um contexto superficialmente cultural, do intelectual não é assim tão importante esperar o que ele sabe mas o que ele sente. Logo, será insatisfatório se avaliarmos o intelectual a partir do que ele pensa. Faria dele a criatura racional que nunca quis ser.

Também é pelo facto de o intelectual ser mais o que sente do que o que sabe que o seu ofício é incontornavelmente da ordem da avaliação moral. Nenhum intelectual é relativista. Nas palavras de Tom Wolfe em “Hooking Up”: “a indignação face aos poderes constituídos e aos patetas burgueses que faziam tudo o que eles lhes mandavam, eis tudo o que é preciso. Zás! Era-se um intelectual”. Sem indignação o intelectual deixa de ser.

A avaliação de Wolfe é interessante porque ele considera que o intelectual é uma criação europeia que se adapta à América, ainda que com alterações assinaláveis. Vai assim: é só depois da Primeira Guerra Mundial que os escritores e eruditos americanos conseguem visitar em escala o Velho Continente. O sarcasmo do intelectual europeu que então é detectado era parte natural de um cenário com os escombros de tão grandes conflitos.

“O único problema era que, quando os neófitos intelectuais regressavam aos Estados Unidos para assumir a pose, não havia escombros para apontar. Longe de ser uma civilização em ruínas, os Estados Unidos tinham saído da guerra como a nova estrela que ocupava o centro da cena mundial. Longe de tresandar a decadência, tinham o fulgor de um jovem gigante: admirável, robusto, inocente e simples”.

Se a Europa tinha passado pelo fascismo real, os americanos enfiaram na crítica ao New Deal do Presidente Roosevelt a sombra do “social-fascismo”. Como o intelectual é a tal criatura que sente mais do que sabe, novas fontes de escândalo moral precisam de ser encontradas. A banalização da palavra fascismo também vem daí, segundo Wolfe: “o antifascismo tornou-se uma pistola de raios universal, para dar cabo de quem quer que fosse do Everest da Indignação dos intelectuais”.

Diverte-me na análise de Wolfe a sua intuição epistemológica. No fundo, grande parte das opiniões que ouvimos na imprensa vêm mais do coração do que da cabeça, ainda que os oradores disfarcem com óculos ou estatísticas. Ao escrever isto não desprezo a importância de quem faz por consubstanciar as suas teses com factos. Mas a consagração do intelectual, por exemplo hoje presente na versão mais popularucha do comentador televisivo, não deve esconder o seu real conteúdo e genealogia.

Sem sentimentos vivos o intelectual vira robot. Nunca esgotaremos o nosso stock de intelectuais porque o mundo não pára de nos oferecer matéria para as nossas emoções mais intensas. Muitas vezes as ideologias, estejam à esquerda ou à direita, são uma roupa mais engomada que vestimos em cima do que espontaneamente nos escandaliza. O intelectual, nesse sentido, apenas aprendeu a arte de envernizar as agruras do seu batimento cardíaco. Como o poeta, é um fingidor.

O intelectual tem uma história e a viagem da Europa para a América é parte dela. Cá o intelectual era mais cínico, lá foi mais idealista. Hoje, com o mundo mais desterritorializado pela internet, o intelectual pode facilmente misturar os ingredientes geográficos. Ainda assim, interessa situar a sua génese menos no pensamento e mais na paixão. Não sei se este reconhecimento nos vai dar mais amor pelos intelectuais mas, no mínimo, pode revelar neles o romantismo que nunca quiseram abandonar.