Inovação

Tornar Portugal um país mais inovador

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O investimento de um país não se realiza por decreto ou por lei, nem se pode realizar para cumprir com objetivos generalistas e não alinhados com as necessidades das populações ou das empresas.

 

0,60% é o investimento das empresas portuguesas em investigação e desenvolvimento (I&D), medido em percentagem do nosso PIB. Os dados são do Eurostat e referentes a 2015, mas permitem comparar o quanto reduzido é o nosso investimento empresarial em I&D quando comparado com a média da União Europeia a 28 (UE28), que se situa nos 1,30% do PIB! Portugal investe menos de metade da média dos Estados-membros, ficando muito atrás do investimento realizado pelas empresas alemãs, com 1,95% do seu PIB, da Áustria, com 2,18%, da Bélgica com 1,77% ou da Eslovénia com 1,69%, por exemplo!

Se, por um lado, estamos atrás no que toca aos indicadores de I&D empresarial, por outro, e em relação ao esforço nacional total para o nosso país poder ser mais inovador e conseguir crescer mais, os nossos resultados também deixam muito a desejar. A média de investimento total em I&D da UE28 é de 2,03%, contra os 1,28% do total de Portugal. O próprio subsetor Estado em Portugal investe muito pouco quando comparado com os seus congéneres europeus: apenas 0,08% do PIB em Portugal contra 0,24% na UE28. A título de exemplo, o Estado na Bulgária investe 0,20%, na Estónia investe 0,16% e na Espanha 0,23% do PIB. Em toda a UE, apenas em três países encontramos subsetores Estado a investir menos que o Português.

O investimento em I&D é fundamental para as nossas empresas serem mais produtivas. Com melhores produtos e produtos mais inovadores, conseguimos aumentar o valor acrescentado que é revertido para a nossa economia, conseguimos exportar mais e assim podemos também gerar maiores lucros e mais emprego no nosso país.

Mas o investimento sem resultados ou sem direção é um investimento estéril. O investimento de um país, seja do Estado ou das empresas, não se realiza nem por decreto nem por lei, nem se pode realizar para cumprir com objetivos generalistas e não alinhados com as necessidades das populações ou das empresas. Existem certamente problemas para resolver, muitos problemas… E, se ambicionarmos ter uma economia mais competitiva e inovadora, capaz de gerar mais empregos e empregos mais bem pagos, porque não começamos a listar problemas e a atuar, todos juntos, para os resolver?

As nossas empresas necessitam de investir mais em I&D. Sim, em I&D. Mas um I&D com resultados práticos e orientados para o aumento do valor económico. Em Portugal, estamos habituados a ouvir discursos sobre a importância da inovação e das suas metas que temos de ambicionar concretizar. Mas para quê colocar as universidades a investigar mais, para quê incentivar a formação de mais e mais doutorados, quando problemas supostamente simples, como a gestão das nossas florestas, ainda não conseguimos resolver? A Administração Pública e os líderes políticos em Portugal têm responsabilidades nesta matéria. Os agentes públicos têm de ser os líderes da cultura de inovação a nível nacional.

Ao Estado e às Autarquias pede-se uma liderança pragmática e orientada para resultados. Todos necessitam de tomar consciência sobre os problemas que existem para resolver, e os agentes públicos devem promover iniciativas nacionais, regionais ou setoriais de promoção da inovação empresarial. A título de exemplo, atravessámos recentemente uma época crítica de incêndios. Se existe a necessidade de proteger as florestas, a propriedade privada e as pessoas, se existe a necessidade de aumentar a produtividade dos nossos meios de combate aos incêndios, porque não tem ainda Portugal as tecnologias mais inovadoras do mundo de combate aos incêndios florestais, os sistemas de informação de gestão da floresta mais avançados ou os profissionais mais bem preparados? Temos universidades, institutos politécnicos, escolas profissionais e temos empresas, muitas empresas, que podem desenvolver tecnologias, novos produtos, novos serviços de prevenção ou de combate aos fogos florestais. Temos bombeiros, militares e temos autarquias interessadas em atuar. Ao que parece todos estão interessados em resolver este problema. Então o que falta?

Porque não conseguimos, ano após ano, desenvolver as tecnologias mais inovadoras do mundo para combater incêndios? É sabido que o Estado contrata meios todos os anos e despende milhões de euros na contratação dos mesmos e na subsidiação do nosso dispositivo de proteção civil. Talvez o problema seja o esquema da contratação ou o sistema de incentivos que os nossos líderes implementam para resolver estes problemas… Ou talvez seja preferível investir-se o orçamento de I&D público em problemas que não são os prioritários da população. Talvez as autarquias não saibam que podem utilizar as suas escolas profissionais ou os politécnicos e universidades da sua região para desenvolver I&D orientada a resultados…

Sejamos sinceros nesta análise: todos estamos interessados em agir. Todos estamos interessados em melhores resultados. Se Portugal necessita aumentar o seu investimento em I&D para se tornar uma economia mais competitiva e próspera, o nosso Estado e os nossos autarcas têm aqui uma boa oportunidade para alinhar os interesses das empresas e dos nossos empresários com os interesses das populações e da floresta que supostamente devem defender.

Façamos de Portugal o país mais inovador do mundo e particularmente, o pioneiro na gestão da floresta, da biodiversidade e no combate aos fogos florestais. Tornemos as nossas empresas as principais exportadoras do mundo em tecnologia de combate aos incêndios. Tornemos os nossos bombeiros os melhores do mundo. Que todos no mundo possam olhar para Portugal como um país que resolve problemas sérios com o esforço e a envolvência de todos, alinhando o seu Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN) com as prioridades públicas. Coloquemos as nossas universidades e politécnicos a colaborar com as nossas empresas. Se muitos procuram negócios bons para fazer, será que o negócio de gerir a floresta e evitar que todos os anos milhares e milhares de hectares sejam destruídos, e vidas humanas sejam perdidas, não é negócio que interesse a todos?

Pedro Janeiro é economista e especialista em inovação

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