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O défice da nossa balança comercial de bens e mercadorias está a agravar-se. Segundo os últimos dados do INE, no trimestre terminado em julho de 2017, as exportações e as importações de bens aumentaram respetivamente 9% e 13,4% face ao período homólogo. Em julho, o défice da balança comercial de bens já se situava nos 1.057 milhões de euros, um aumento de 446 milhões de euros face a igual período homólogo de 2016. E mesmo excluindo a rubrica de “Combustíveis e lubrificantes” uma das que mais pesa nas nossas importações, a nossa balança comercial continua a apresentar um saldo negativo na ordem dos 625 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 219 milhões face ao mesmo mês de 2016.

Num país onde festejamos o sucesso económico, apresentando taxas de crescimento económico elevadas e a descida do desemprego, algo não pode correr bem, quando o défice das nossas contas internas baixa, mas o défice das nossas contas externas sobe…

O modelo de competitividade do país está desequilibrado. Dificilmente o nosso país pode gerar mais riqueza se continua a importar mais do que exporta, e com sucessivos agravamentos do saldo da balança comercial de bens.

Se a União Europeia (UE28) já investe menos em Investigação & Desenvolvimento (I&D), em percentagem do PIB, que o Japão, os EUA e a China, quando verificamos a performance de Portugal, dentro do espaço europeu, compreendemos que o nosso país continua muito abaixo da média da UE28 e da Zona Euro. E aqui é preciso não esquecer que grande parte do esforço de investimento no I&D nacional provém do setor público e das nossas instituições de ensino superior…

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Mas não é só o problema do investimento de fundos que Portugal enfrenta na área da inovação, nem tão pouco o problema da sua origem. Portugal é também um dos países na UE onde mais investigadores estão concentrados no setor público e menos nas empresas. Do total de investigadores na nossa economia, nem 30% se encontram ao serviço do setor empresarial, quando a média na UE28 é de cerca de 50%, enquanto nos EUA é quase 70% e na Coreia do Sul quase 80%!

Os números são evidentes, mas o nosso país encontra-se muito desfasado do que mais importa: os resultados obtidos que realmente importam. O país festeja a descida do desemprego e o crescimento económico, mas nada refere sobre o agravamento do défice comercial. O crescimento económico em Portugal é realizado à custa da “componente de procura interna” enquanto a “componente de procura externa” apresenta fragilidades e debilidades que, aparentemente, são ignoradas. Festejamos a descida do desemprego, mas temos dificuldade em valorizar os nossos salários. Continuamos a ser dos que pior recebem na União Europeia, mas dos que mais trabalhamos em número de horas.

É necessário preparar as nossas empresas para o futuro. Não basta dizer que queremos apostar na criação do emprego e nas exportações. É necessário criar mais postos de trabalho qualificados e bem remunerados e é necessário exportar mais bens e serviços de alto valor acrescentado. Só assim a nossa economia pode progredir e o país criar condições para crescer sustentadamente. O nosso modelo de crescimento económico necessita de ser revisto. E os resultados precisam de começar a ser analisados com exaustão. Isto se quisermos rumar a um futuro melhor…

Por exemplo, os suíços submetem todos os anos perto de 400 pedidos de patentes por milhão de habitantes. Em Portugal, a nossa produtividade fica-se pelos 5% em comparação com o valor de referência dos suíços! E se os suíços são o melhor exemplo na Europa, o que podemos dizer dos 349 pedidos de patentes dos suecos ou dos mais de 250 pedidos dos alemães por milhão de habitantes? Números que mostram, mais uma vez, o quanto estamos desfasados dos resultados obtidos relativamente aos melhores casos na Europa (e atenção que a Europa nem é o bloco que mais investe em I&D no mundo).

Há um longo caminho a percorrer em Portugal para fortalecer o nosso Sistema Científico e Tecnológico (SCT). Mais do que criar programas ou pacotes de financiamento extra, que muitas vezes apresentam resultados duvidosos, ou cujos objetivos nem sempre são definidos, ou quando definidos não são mensuráveis, importa criar sistemas de incentivos que premeiem objetivamente os resultados alcançados nas instituições nacionais de ensino superior, por exemplo, quer a nível da produção de patentes quer a nível de spin-offs de projetos empresariais de base científica ou tecnológica criados, com viabilidade económica e com acompanhamento de investidores privados para potenciar um mais rápido crescimento dessas novas empresas no mercado.

É fundamental dinamizar a cultura da avaliação dos resultados, do impacto e do mérito em Portugal. É necessário garantir a análise eficaz dos resultados a que a nossa economia se propõe atingir. É necessário que no discurso político e até do mundo da gestão, possam ser fixados objetivos claros e mensuráveis do que pretendemos atingir. Precisamos de ser mais exigentes, se queremos e procurarmos crescer e melhorar as nossas vidas.

Recentemente, o país atravessou uma crise severa que não pode e não deve, de forma alguma, procurar repetir. Essa crise custou centenas de milhares de postos de trabalho e a falência de dezenas de milhares de empresas. Uma crise económica é também uma ferida que fica na vida das pessoas e das suas famílias. É uma ferida que fica na história de um povo e de uma sociedade. E é o resultado de um acumular de erros de governação e de uma falta de preparação de uma nação, ou do seu modelo de desenvolvimento, para com as mudanças e imprevistos que gradualmente podem ocorrer na Europa ou no mundo.

Não voltemos a repetir esses erros. Olhemos com atenção para os números da nossa balança comercial e evitemos continuar a acumular défices sucessivos. Há muito a fazer. São as nossas vidas que estão em causa e, por isso, há que lutar por um futuro melhor.

Pedro Janeiro é economista e especialista em inovação