No passado 7 de Julho, o Santuário de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, que se situa na diocese de Barbastro-Monzón, província de Huesca, em Aragão, Espanha, fez cinquenta anos. Com efeito, foi a 7-7-1975 que foi inaugurado, com uma Missa por alma do Monsenhor Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei, que tinha falecido em Roma, onde residia, poucos dias antes, a 26 de Junho desse ano.

Esta devoção mariana já existia em 1084, mas foi em 1904 que surgiu na vida do fundador do Opus Dei. Quando Josemaria tinha dois anos e tinha sido diagnosticada a sua morte em menos de 12 horas, os seus pais recorreram à Senhora de Torreciudad. No dia seguinte, o seu filho não só não tinha morrido, como estava curado e aos pulos no berço! Pouco depois, talvez em 1905, os pais cumpriram a promessa de o levar à ermida de Torreciudad, para agradecerem a sua inexplicável e repentina cura. É provável que a viagem tenha sido feita a partir de Fonz, localidade de origem da família paterna e onde costumavam passar as férias de verão, embora vivessem em Barbastro, onde José Escrivá geria um pequeno estabelecimento comercial. Dos seis filhos do casal, só metade vingou, porque três filhas, com 1, 5 e 8 anos, morreram, respectivamente, em 1910, 1912 e 1913.

Em 1956, o fundador do Opus Dei manifestou o propósito de restaurar a velha ermida e construir nas suas imediações um santuário mariano. Como agia sempre em sintonia com a autoridade diocesana, em Novembro desse ano, pediu ao então Bispo de Barbastro, D. Jaime Flores, a necessária licença, que lhe foi concedida. Em virtude do acordo assinado pela diocese e pelo Opus Dei, a 24 -9-1962, aquela disponibilizou a ermida, que estava em estado ruinoso, mas mantendo a sua propriedade, bem como a imagem de Nossa Senhora de Torreciudad, que foi cedida perpetuamente para o novo santuário. O Opus Dei, por sua vez, encarregou-se do restauro da ermida e da imagem, bem como da construção do santuário e das instalações anexas.

Em 1963, o arquitecto Heliodoro Dols começou a trabalhar no projecto e, a 29-11-1964, foi constituído o Patronato de Torreciudad, que ficou encarregado de angariar os fundos necessários para este fim. A construção do santuário, num arrojado estilo moderno de grande sobriedade e beleza, durou cinco anos, e os custos foram suportados por milhares de fiéis que, com as suas pequenas, mas por vezes heróicas, esmolas, tornaram possível que se erguesse, no alto Aragão, mais um santuário a Nossa Senhora.

São Josemaria não chegou a ver o Santuário de Torreciudad terminado, mas visitou-o um mês antes da sua morte, tendo então dedicado o altar-mor e inaugurado, com a sua confissão, a cripta dos confessionários. A este propósito, a 17-6-1967, tinha escrito: “Espero que o Senhor conceda uma chuva abundante de graças espirituais aos que aí forem rezar à sua bendita Mãe ante essa pequena imagem, tão venerada desde há séculos. Por isso, interessa-me que haja muitos confessionários, para que as pessoas se purifiquem no santo sacramento da penitência e, renovadas as almas, confirmem ou renovem a sua vida cristã, aprendam a santificar e a amar o seu trabalho, semeando nas suas casas a paz e a alegria de Jesus Cristo.” 

Foram também suas algumas indicações: proibiu, nas imediações do templo, actividades comerciais ou outras e, para prevenir superstições milagreiras, quis que, nos fontanários do recinto, constasse a indicação ‘água natural potável’.

Desde a inauguração do Santuário de Torreciudad, estima-se que já por lá passaram 12 milhões de peregrinos de todo o mundo, pelo que é, de facto, um santuário internacional, sem custos para a diocese, pois todas as despesas são suportadas por uma fundação criada para o efeito. O clero diocesano também não ficou sobrecarregado com este empreendimento apostólico, porque o reitor e os capelães do santuário pertencem ao presbitério da prelatura do Opus Dei, que também se encarrega da gestão do complexo.

Não obstante mais de meio século de harmoniosa colaboração orgânica da prelatura do Opus Dei com a diocese de Barbastro, o actual Bispo, em Julho de 2023, como aqui se referiu na altura (Um ‘thriller’ eclesiástico: ‘assalto’ a Torreciudad, 17-8-2023), destituiu o reitor em funções e nomeou, como seu substituto, o P. José Mairal, pároco de Bolturina, de 86 anos, para fazer valer o que entendia serem os seus direitos como bispo diocesano. Não tendo sido então possível chegar a um acordo entre a diocese e a prelatura, o Papa Francisco nomeou o P. Alejandro Arellano, a 9-10-2024, Comissário Plenipotenciário Pontifício ad hoc, o qual, nesta qualidade, visitou Torreciudad, ouviu o Bispo de Barbastro-Monzón, bem como os representantes locais do Opus Dei.

Segundo notícia publicada, no passado dia 2, por Religión en Libertad, o Bispo de Barbastro-Monzón solicitou à Santa Sé, no primeiro dia deste mês, que “Torreciudad […] seja reconhecido e canonicamente erigido como Santuário internacional, sob a dependência directa da Santa Sé, […] e que o Opus Dei possa designar livremente o reitor do novo santuário. A diocese também inclui entre as suas propostas que, se reconhecido como tal, o novo santuário internacional goze de independência financeira em relação à diocese de Barbastro-Monzón e, como entidade dependente da Santa Sé, esta última se encarregue da auditoria e aprovação das suas contas […]. Neste sentido, a diocese assegura que renuncia a quaisquer benefícios, ou remunerações […]. Em relação aos bens do santuário, a diocese solicita que tanto a imagem original de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, como a pia baptismal originária da catedral da diocese de Barbastro-Monzón – transferida para a sede central da prelatura, em Roma – sejam devolvidas [sic] aos seus locais de origem. No caso da [imagem] da Virgem, exige que seja devolvida ao seu santuário-ermida, onde é venerada há mais de mil anos pelos fiéis diocesanos que, ao longo da História, a protegeram, até mesmo, em tempos de perseguição e guerra, com o custo das suas próprias vidas.”

Seria muito conveniente que, de facto, Torreciudad fosse erigido como santuário internacional, como efectivamente é, e ficasse sob a dependência directa da Santa Sé. Por outro lado, tendo em conta que as suas manutenção e actividade se devem exclusivamente à prelatura do Opus Dei, é razoável que a nomeação do respectivo reitor seja feita pelo seu prelado, como sempre se fez desde a sua fundação. É também justo que a diocese desista da pretensão de receber uma pensão anual, uma vez que não tem, nem nunca teve, quaisquer encargos económicos com o Santuário, que, pelo contrário, honra e beneficia, sobretudo espiritualmente, a diocese de Barbastro-Monzón.

Quanto à petição para que a imagem original de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, agora venerada no Santuário, regresse à primitiva ermida, recorde-se que foi a própria diocese que a cedeu perpetuamente, para que fosse venerada no novo Santuário, tendo sido, para esse efeito, restaurada e muito melhorada.

A antiga pia baptismal da Catedral de Barbastro foi destruída e atirada ao rio durante a Guerra Civil espanhola, tendo os seus restos sido resgatados e oferecidos pela diocese a São Josemaria, que nela fora baptizado e que a restaurou e devolveu ao uso litúrgico, na igreja prelatícia, em Roma, onde se encontra. Uma vez que foi oferecida, não faz sentido propor a sua devolução, até porque esta pia baptismal não tem nenhuma relação com Torreciudad e, por ser de pedra maciça e de razoável dimensão, a sua desmontagem e transferência seria de muito difícil e onerosa execução.

É provável que este comunicado da diocese, prevendo já o óbvio indeferimento das suas pretensões, seja, por via da sugestão de eventuais compensações, uma derradeira tentativa de uma solução menos humilhante. Espera-se, no entanto, que a Santa Sé, através do Comissário Pontifício, faça justiça ao Santuário de Torreciudad, neste seu 50.º aniversário.

Que Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad abençoe a diocese de Barbastro-Monzón, na pessoa do seu Bispo, sacerdotes e fiéis, conceda as suas bênçãos ao prelado, presbitério e leigos do Opus Dei, e que continue a derramar as suas graças sobre os seus filhos que, como os pais de São Josemaria, recorrem à sua maternal intercessão.