Um dia, vamos talvez concluir que, perante a epidemia, os governos reagiram como teriam de reagir. Ao princípio, menosprezaram o que prometia ser mais um longínquo surto na Ásia. Não, não foi só Jair Bolsonaro. Já com os primeiros infectados e mortos, ainda Emmanuel Macron insistiu em fazer eleições municipais em França. Depois, quando jornais e televisões se aplicaram na contabilidade das vítimas, foi a vez dos alarmes e encerramentos. Nesta crise, o vento da opinião soprou em todas as direcções. Num dia, mandou gozar a hipocondria de Marcelo Rebelo de Sousa ao fazer quarentena; no dia seguinte, atacar a irresponsabilidade de Donald Trump por não usar máscara. Numa semana, quis toda a gente a imitar a China; na semana seguinte, angustiou-se com a economia e a liberdade. Os governos seguiram simplesmente as rajadas mais fortes: umas vezes caíram para ali, outras para aqui. Não há, no Ocidente, qualquer fonte de autoridade, nem mesmo o “especialismo”, facilmente contrariado por outro “especialismo”. Resta, como referência, o remoinho das opiniões. Nunca a voz do povo foi tanto a voz de Deus.

No meio deste vai e vem, não é fácil perceber o que se passa. Durante algum tempo, matemáticos e epidemiologistas deram furiosamente para o peditório do crescimento exponencial. Agora, passou a ser de bom tom ter receio do desemprego, e, talvez por isso, achar que todas as curvas estão achatadas. Os piores cenários continuam a ser úteis: serviram para exigir zelo, e vão servir agora, se tudo correr bem, para declarar vitórias. Trump foi, como de costume, o primeiro a perceber. Ao prever 200 mil mortos, garantiu que todos os mortos vão parecer menos.

A epidemia é uma tragédia, pelas mortes que poderiam ter sido evitadas. Mas como o 11 de Setembro ou a crise financeira de 2008, tem sido também uma oportunidade para sociedades incapazes de reformas se permitirem fantasias de revolução. Temos tido assim especulações sobre todo o tipo de mudanças, desde a etiqueta (voltarão os apertos de mão e os beijinhos?) à ordem mundial (é desta que a China fica a mandar?). Os debates mais cansados do nosso tempo cavalgaram logo o vírus. Vamos ter mais Estado? Vamos ter menos globalização? Não conseguimos ir mais longe. Assim temos enchido páginas e horas de estúdio. Mas assim também não temos reparado em três coisas, que talvez valha a pena lembrar.

A primeira coisa é o que não mudou. Há anos que tendemos a tratar epidemias como um exclusivo de regiões exóticas. O progresso ter-nos-ia feito ascender à era das doenças degenerativas, e foi com estas que nos habituámos a estar preocupados. A SIDA nos anos 1980 devia ter servido de lição. Mas a humanidade só aprende o que lhe interessa aprender. Quem acha que pode mudar o clima, não está disposto a admitir que pode não controlar vírus e bactérias. De repente, vimos os nossos serviços de saúde assoberbados e, enquanto esperamos a vacina, redescobrimos as quarentenas da Idade Média. As ideologias do progresso não nos tinham preparado para isto.

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A segunda coisa é o que já mudou. A ideia de que o vírus vai transformar o mundo tem a desvantagem de nos distrair do facto de que, antes do vírus, o mundo e as sociedades ocidentais já se transformaram. Não, não foi por causa do vírus que o resto do mundo voltou, pela primeira vez desde o século XVIII, a produzir a maior parte da riqueza do planeta. A China não precisou do vírus para ascender, nem o Ocidente precisará do vírus para perder peso relativo. O envelhecimento e a dívida bastarão para dar conta de um eventual declínio das sociedades ocidentais. Antes de culparem o vírus por qualquer alteração nos equilíbrios mundiais, lembrem-se de que a Peste Negra do século XIV não impediu a expansão europeia a partir do século XV.

A terceira coisa é o que não mudou e ainda não é desta vez que vai mudar, sobretudo em Portugal. O Estado impôs a quarentena. Faz sentido que tente minorar os seus prejuízos. O pior é que, ao resgatar a economia, é muito provável que resgate aspectos da economia que hoje representam sobretudo rendas para alguns e custos para todos. Para muitas novas iniciativas que podiam ter prosperado, esta crise foi uma calamidade. Mas para velhos incumbentes que já deviam ter-se adaptado ou falido, esta crise foi mais uma bênção, ao dar pretexto ao Estado para lhes prolongar a agonia, aliviando-os temporariamente das consequências, não da quarentena, mas da sua incapacidade de inovar e competir. Sim, a quarentena de 2020 ainda poderá ser, no curto prazo, a sorte grande dos zombies (empresariais, mas também sindicais e burocráticos) que, na nossa economia, bloqueiam iniciativas e empreendimentos. Poderia ter sido diferente? Poderia, mas não vai ser.