O apoio do CDS à candidatura de Luís Marques Mendes às presidenciais é um daqueles movimentos políticos que suscitam mais perguntas do que respostas. Não se trata apenas de estratégia, mas de coerência. Um partido que tenta recuperar identidade e relevância depois de anos de turbulência escolhe, para seu rosto presidencial, alguém que nunca demonstrou estima particular pelo CDS. Pelo contrário, fê-lo muitas vezes parecer um parente distante que se tolera por obrigação histórica.
Ao longo da última década, nos seus espaços de comentário televisivo, Marques Mendes deixou diversas observações que expunham um claro distanciamento em relação ao CDS. Chegou a descrever o partido como demasiado dependente de ciclos de liderança, incapaz de construir uma linha coerente e, sobretudo, pouco atento ao país real. Noutras ocasiões, afirmou que o CDS insistia em temas que considerava marginais no debate nacional. Não são palavras que transbordem afinidade política. São sinais de alguém que vê o CDS como uma nota de rodapé na direita portuguesa.
Também no plano ideológico, a dissonância é evidente. Marques Mendes defendeu repetidamente uma visão mais intervencionista do papel do Estado, rejeitando aquilo que chamou de liberalizações excessivas ou reformas económicas demasiado rápidas, posições que chocam com a tradição do CDS na defesa da liberdade económica, do mercado competitivo e da redução do peso estatal. Quando o partido apoia alguém que tantas vezes criticou esses pilares, transmite a sensação de que deixou de acreditar no seu próprio ADN.
No campo dos valores sociais, a distância cresce. O CDS construiu a sua identidade sobre a defesa explícita da vida, da família e do princípio da subsidiariedade. Marques Mendes, embora moderado, sempre adotou uma postura mais pragmática e menos militante nestes temas, sublinhando em várias ocasiões que a política deve evitar entrincheiramentos morais e que certas matérias devem ser tratadas com flexibilidade legislativa. Esta diferença pode parecer técnica, mas para um partido cuja força sempre esteve na coerência moral, torna-se um abismo político.
Além disso, há a antipatia latente que nunca foi totalmente disfarçada. Marques Mendes comentou repetidamente que o CDS sofria de irrelevância estratégica, que não sabia encontrar o seu espaço e que frequentemente se transformava num problema para a direita em vez de um ativo. Mesmo que muitas dessas observações tenham sido feitas em contexto analítico, o teor era claro: não via o CDS como parceiro desejável nem como força política particularmente respeitável. É difícil compreender como um partido decide apoiar, para Presidente da República, alguém que tantas vezes o descreveu como um fardo.
No fim, o que fica é um incómodo sentido por muitos militantes: o apoio do CDS a Luís Marques Mendes parece um gesto de sobrevivência, não de convicção. O partido arrisca perder ainda mais a sua voz própria, subsumindo-se a uma figura que nunca escondeu a sua distância e até desdém. Uma candidatura presidencial deveria reforçar a identidade de um partido, não diluí-la. Ao escolher um candidato que tantas vezes criticou as suas fundações, o CDS pode estar a comprometer aquilo que ainda o distingue na paisagem política portuguesa.