O futuro a Deus pertence, sempre disse o sábio povo. Se a actual cultura secularizada havia posto em causa esta frase e a empurrou para o horizonte do estrambólico, torna agora a fazer todo o sentido, pelo menos para os crentes.

Quem diria pois, há escassos meses, que se iria desencantar com as imagens da mesquita sagrada de Meca, santuário do Islão, praticamente deserta e apenas com um punhado de privilegiados a fazer a peregrinação obrigatória, a Hajj, 4.º pilar do Islão e uma das maiores concentrações da história da humanidade?

Etimologicamente, Hajj é um termo árabe que remonta ao tempo do profeta Abraão e que significa um caso contra o qual nada se pode arguir. Uma prova irrefutável.

A Hajj é realizada no mês de Zul-Hijjah, o último mês do calendário islâmico lunar nos locais sagrados de Arafat, Mina, Muzdalifah e Meca, e é composta por vários rituais simbólicos com o propósito de reforçar a nossa fé, de que são exemplo a caminhada de Agar entre os montes de Safa e Marwa à procura de água para salvar Ismael da morte.

Deus fez, em consequência, brotar água, criando a fonte de Zam Zam, expressão que a própria Agar usou, no intento de cessar a abundância da água sagrada concedida por Deus.

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Devido às restrições impostas pela pandemia da Covid-19, o cenário em torno da Kaaba, na Grande Mesquita de Meca, é totalmente diferente do habitualmente registado, com enormes multidões (Getty Images)

Meca já era sagrada, mesmo antes de Muhammad (que a paz e benção de Deus estejam com ele) ali ter nascido, no ano de 570, e local de poiso de todos os cantos da Península Arábica.

Esta casa de Deus, feita com grande sacrifício pessoal por Abraão, já albergara centenas de diferentes divindades — uma para cada dia do ano (que eles pensavam ter 360 dias) — sob a forma de estátuas, e representando os astros. A lua, era Hubal, uma divindade que ajudava os humanos a prever o futuro. Vénus, o planeta, era Uzza, a deusa do amor. Acima de todos, na sala da presidência celestial, sentava-se um Deus tão poderoso que nem tinha nome. Era apenas “O Deus”: al-Ilah. E, do mesmo modo que “vossa mercê” acabaria por se tornar“você”, al-Illah virou Allah.

Meca, destino de cerca de 2,5 milhões de peregrinos na era pré-pandémica que procuram o seu lugar ao sol escaldante da Arábia Saudita, este ano, apenas um número desconhecido entre um e dez milhares farão o conjunto de rituais outrora feito pelo Profeta Muhammad, designadamente a curta estada na planície do Monte Arafat, momento de reflexão que marca simbolicamente a misericórdia que se crê depositada neste local, onde o Profeta proferiu o seu último sermão como peregrino.

O reino, que goza simultaneamente do privilégio de ser o anfitrião de milhões de fiéis e da responsabilidade de mantê-los seguros tem gasto, ao longo dos anos, fortunas no legítimo anseio de tornar esta mega concentração cada vez mais segura e disciplinada, tanto quanto possível.

Este ano, deparou-se com um desafio adicional e para o efeito, tomou medidas inéditas:

  1. Redução drástica do número de peregrinos, como nunca antes visto na história moderna, objecto de uma criteriosa seleção a quem se propusesse, dando prioridade aos estreantes sob prévia quarentena num hotel em Meca;
  2. Testes, máscaras, tapetes individuais, guarda-sóis para todos e uma pulseira electrónica que se liga ao telemóvel e monitora o movimento e sinais vitais;
  3. Impossibilidade de beijar a pedra sagrada — atenta a necessidade do distanciamento social;
  4. A água da fonte de Zam Zam será engarrafada ao invés de ser servida em copos;
  5. A esterilização da mesquita sagrada por um conjunto de 3.500 profissionais, usando para o efeito uns impressionantes 54.000 litros de desinfectante e 1.259 litros de purificadores de ar e o chão a ser todo limpo dez vezes por dia, quando no passado era feito apenas três;
  6. Quarentena obrigatória para todos os peregrinos a seguir à peregrinação a expensas custeadas pelo ministério de Hajj & Umrah.

Desde a fundação da Arábia Saudita (1932) que a Hajj nunca foi cancelada,  mesmo em circunstâncias especiais tais como o surto de cólera (1837)  e mais recente do vírus ébola (2014), em que se estabeleceram várias restrições. É que a Hajj é um fundamento de fortíssimo teor religioso, e privar dela a humanidade é de um enorme prejuízo para todos.

Hajj. A Peregrinação a Meca

Quando necessárias, estas restrições estão em linha com os cânones islâmicos e socorrem-se de dois princípios orientadores: um que brota do próprio Alcorão, no qual Deus disse aos seres humanos que não “vos lanceis à destruição pelas vossas próprias mãos” (Alcorão Sagrado, Al Baqarah, 2:195) e outro que resulta de um hadith do profeta Muhammad (que a paz e a benção de Deus estejam com ele) no qual ele alerta a humanidade: “Se existe uma praga numa cidade, ninguém deverá entrar ou sair desta”.

Abundantes serão os ensinamentos islâmicos sobre esta natureza, dos quais destacamos os do pai da medicina moderna, o filósofo árabe Ibn Sina, que há dez séculos atrás havia já descortinado o fenómeno das epidemias, alertando um colega e um sábio amigo seu, de seu nome Al-Biruni, para a rápida propagação de uma epidemia de então e sob as formas de contágio e prevenção, aquando de uma visita à região de Khwarezm (actual Uzbequistão) posteriormente objecto de estudo no livro “Os Cânones da Medicina”.

No entanto, e por mais prodígios e antecipados que possam ser tais ensinamentos, estes não dispensam a intervenção divina e a crença que leva os milhares de destemidos a irem até Meca este ano, apesar das circunstâncias difíceis que todos vivemos, na partilha de uma prece comum:

Que Deus nos ajude e guarde esta mesma humanidade com o bem mais precioso que temos: a nossa saúde.

Desejo a todos um Feliz Eid Ul-Adhá e um rápido e revigorado regresso à tão desejada normalidade.

Director do Instituto Luso-Árabe para a Cooperação
Secretário da Assembleia-Geral do Observatório do Mundo Islâmico 
Comentador residente no programa da Antena 1 E Deus Criou o Mundo
Presidente do Rotary Clube da Portela