Diálogo interreligioso

O Papa das Arábias

Autor
198

A verdadeira solidariedade entre os povos é demonstrada pelo abraço caloroso e cúmplice que o Papa e o Imam deram, num gesto de absoluta humanidade, que é também a nossa, sem máscaras nem artifícios.

Este seria um titulo improvável há uns anos atrás, diria mesmo impossível.
 Pois bem, desenganem-se aqueles que pensam que nos falta um acento numa das vogais ou estamos a falar de uma espécie de sheik das arábias porque estamos precisamente a falar da visita do Sumo Pontífice, chefe da igreja católica apostólica romana, magna organização dos cristãos com mais de 2000 anos, a um país árabe do golfo pérsico.

Quais são afinal, os impactos desta visita, já histórica, aos Emirados Árabes Unidos?

Comecemos pelo espírito de abertura que preside ao presente diálogo inter-religioso, num sinal claro de mudança e que promete e impõe uma aliança entre muçulmanos e católicos, tão necessária num mundo profundamente marcado pela influência dos religiosos, sobretudo pela negativa e fruto, diga-se em grande parte da actuação deficitária dos seus líderes.

Por outro lado, é razoável admitir-se um reconhecimento e cada vez maior afirmação de Al-Azhar, como a referência no mundo islâmico, estando para este último como o Vaticano está para o catolicismo. Al-Azhar é considerada a elite do mundo islâmico académico sunita e é dotada de um discurso pacífico, com uma raiz e visão já per se ecumenista (não nos esqueçamos que começou por ser xiita) e moderada, orientada pelo seu grande Imã, Sheik Ahmed Al Tayeb, que esteve com o Papa Francisco seis vezes, nos últimos tempos.

A história recente do mundo globalizado em que vivemos trouxe consigo um rol de novos desafios, designadamente a mudança no paradigma da integração que, se por um lado deveria ser desnecessária tendo presente a ampliação das fronteiras anteriormente impostas, é cada vez mais necessária, sôfrega muito por culpa dos movimentos migratórios que se fazem sentir, sejam estes voluntários ou não (refugiados).

É preciso pois, reflectir sobre se a religião pode e deve ter um espaço e/ou locais próprios ou se extravasa essa circunscrição, tendo por isso uma feição universalista. Achei especialmente curioso a forma como os cristãos do médio oriente fazem as suas preces, levantando as mãos para o céu (como fazem os muçulmanos de todo o mundo no Duá) ao invés de orarem como um típico católico de Lisboa faria, o que me faz crer que na subtileza dos pormenores assentam as vicissitudes de carácter cultural que impregnam a realidade religiosa, umas vezes bem, colorindo-a, outras nem tanto, conspurcando-a.

A ameaça global do terrorismo transporta-nos para a necessidade de perceber o papel das religiões e de se saber se estas estão demodé, tantas vezes que são instrumentalizadas para cumprir com agendas de outra índole.

A somar a isto, os habituais avanços e recuos de natureza geopolítica e estratégica, que nos convocam a uma estabilidade periclitante e mais grave do que isso: são geradores de incertezas e impõem escolhas que nem sempre temos como certas.

É neste contexto que se insere a visita de Sua Santidade aos Emirados Árabe Unidos, afirmando que neste local no qual “areia e arranha-céus se encontram, continua a ser uma importante encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o Norte e o Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos reservam empregos para pessoas de várias nações.” (Papa Francisco durante a visita aos EAU, discurso por ocasião do encontro com o Concelho Islâmico de Anciãos)

Visto como um melting pot das mais variadas religiões e culturas, os EAU são assim e do nosso ponto de vista inegavelmente uma terra de tolerância, conforme demonstra a iniciativa de realizar diversas actividades ao longo do ano nesse âmbito, promovidas pelo ministério com o mesmo nome.

A visita papal teve vários momentos relevantes, dos quais destacaremos apenas um — a missa — para a esmagadora maioria dos católicos, foi a primeira manifestação publica de fé, o que denota um facto histórico. A cruz é ainda proibida publicamente e as manifestações de cristianismo são permitidas, embora devam ser discretas. Espera-se que após esta visita tal venha a mudar, e que a liberdade religiosa no oriente seja uma plena realidade.

À boa maneira portuguesa eu e o meu companheiro de viagem, Pedro Gil, católico e que faz um programa de rádio comigo há mais de dois anos, fomos dar um passeio no jardim da tolerância, que assinala a visita conjunta do Papa Francisco e do grande Imam e onde coabitam ainda a catedral de Abu Dhabi, uma igreja copta ortodoxa e a mesquita que agora recebeu o nome de Maria mãe de Jesus.

Vizinhança essa aliás, muito útil, dado que o passeio foi precedido de uma missa e oração, respectivamente — cada um para seu lado — e separados por uma fé que se une por uma amizade, admiração e respeito inabaláveis.

Pois a verdadeira solidariedade entre os povos é demonstrada pelo abraço caloroso e cúmplice que o Papa e o Imam deram, num gesto de absoluta humanidade, que é também a nossa, sem máscaras nem artifícios, num verdadeiro amor incondicional.

Vogal da Direção da Comunidade Islâmica de Lisboa , kdjamal@me.com

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Empresas

Accionista e operador de máquinas: bons amigos?

Rui Esperança

A perpetuação do modelo da melhoria dos resultados das empresas à custa dos salários baixos e do consequente enriquecimento dos accionistas tem de mudar. Sem as pessoas, as empresas são pouca coisa.

Abusos na Igreja

Mr. McCarrick, I presume? /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Quando a Igreja castiga os clérigos pedófilos, com o máximo rigor que a lei canónica permite, age de acordo com o exemplo e a doutrina do seu divino Mestre.

Governo

A famiglia não se escolhe? /premium

Alberto Gonçalves
248

Se ainda não se restringiu o executivo aos parentes consanguíneos ou afins do dr. Costa, eventualidade que defenderia com empenho, a verdade é que se realizaram amplos progressos na área do nepotismo

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)