Todos os dias, da janela do autocarro a caminho do trabalho, deixo que o olhar se perca na montra de uma funerária no centro da cidade. As urnas, expostas com adereços da estação ou enfeitadas com motivos alusivos a feriados, parecem querer suavizar o inapagável. Por vezes até se nota um toque de humor cortês, como se fosse possível domesticar a ideia da finitude. Mas há dias em que essa visão se torna insuportável. A morte, em todo o seu silêncio, pesa de uma forma muito dura.

A morte é inevitável. Alguns afastam qualquer pensamento acerca dela, outros procuram-na de forma incessante. Há quem tropece nela cedo demais, e há também encontros que parecem não ser mero acaso, mas sim o resultado de um desgaste interior lento e profundo. Para quem trabalha em psiquiatria, esses encontros deixam marcas. Mais cedo ou mais tarde, cada psiquiatra é obrigado a gravar na memória um nome que se junta à sua própria história, um nome que não se apaga. Esses nomes, anónimos para quase todos, são para nós cicatrizes invisíveis. Vidas que se extinguem de forma abrupta, deixando para trás perguntas que nunca terão resposta. Não são apenas estatísticas ou relatórios. São rostos que nos acompanham, vozes que ecoam, histórias que se entrelaçaram com a nossa. A perda de um paciente por suicídio não é um evento que se arquiva num processo clínico; é uma memória que regressa, vezes sem conta, nos dias mais inesperados.

A prática clínica em saúde mental é feita de contrastes. Há dias em que testemunhamos pequenas vitórias: um sorriso tímido depois de semanas de silêncio, a coragem de alguém que admite pela primeira vez a magnitude da sua dor, um gesto de esperança ao aceitar ajuda. Nesses momentos acreditamos, com convicção, que a vida venceu. Mas há também outros dias: aqueles em que chega a notícia que nenhum de nós gostaria de ouvir. Um telefonema breve, uma reunião de equipa, um relatório da polícia que informa que alguém que acompanhámos já não está entre nós. O vazio que se instala não encontra lugar nos manuais de psiquiatria.

Segue-se quase sempre uma conferência clínica, o ritual de análise e revisão das circunstâncias. Perguntamo-nos o que poderia ter sido feito de forma diferente, que sinais ficaram por interpretar, que palavra não foi dita. Procuramos transformar a perda numa aprendizagem para proteger outros. Mas, no íntimo, a sensação é de impotência. É comum ouvir a frase de que, quando alguém decide realmente morrer, encontra sempre uma forma de o fazer. Ainda que esta constatação tenha algo de verdadeiro, nunca me consola. O suicídio não é uma escolha livre e serena. É, antes, a expressão extrema de uma dor e de uma situação intolerável. Um sofrimento que se torna maior do que a própria capacidade de existir. É a tentativa desesperada de pôr fim a uma mágoa que parece não ter saída, um túnel sem luz ao fundo. Quem fica, família, amigos ou profissionais de saúde, vive com a herança dessa ausência: as perguntas sem resposta, a culpa silenciosa, a sensação de que nada poderia ter sido suficiente.

Ao longo da minha vida como psiquiatra já vi muitas formas de sofrimento. Algumas mais visíveis, outras escondidas sob uma aparente normalidade. Já acompanhei pessoas que por fora pareciam ter tudo organizado (trabalho, família, projetos), mas por dentro carregavam um vazio insuportável. É essa dissonância que mais me impressiona, a distância entre o que o mundo vê e o que as pessoas sentem. Muitas vezes, o sorriso que se mostra é apenas uma máscara cuidadosamente mantida. E quando essa máscara cai, pode ser tarde demais. Como psiquiatras somos treinados para tratar, para encontrar estratégias terapêuticas, para oferecer esperança. Mas nunca nos habituamos a perder. A cada suicídio revivemos a mesma pergunta: como poderíamos ter salvo aquela vida? É uma pergunta que não encontra resposta definitiva ou satisfatória, mas que nunca deixa de ser feita.

É por isso que, neste mês de Setembro, dedicado à prevenção do suicídio, importa recordar o essencial. Falar salva vidas. Escutar salva vidas. Um encontro humano, genuíno, pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Mas é preciso coragem para abrir esse espaço. A sociedade ainda fala pouco sobre sofrimento mental, ainda teme dizer a palavra suicídio, como se apenas dizê-la pudesse invocar o ato. Mas o silêncio é cúmplice e o silêncio mata. O suicídio não se previne apenas nos consultórios, nos hospitais ou nas urgências. Previne-se no quotidiano, nas conversas aparentemente banais, na disponibilidade para escutar o outro sem julgar, no reconhecimento de que todos podemos, em algum momento, ser vítimas de uma dor maior que nós. Não é preciso ser uma especialista em saúde mental para oferecer a dádiva da presença, basta estar lá.

Ao mesmo tempo também é fundamental reconhecer os limites que ainda existem. Por mais recursos, técnicas e dedicação que possamos oferecer, nem sempre conseguimos impedir o desfecho mais doloroso. Esta é a verdade mais difícil de aceitar na psiquiatria. Mas, apesar disso, não podemos desistir. Não podemos deixar que o medo de falhar nos impeça de continuar a tentar. Cada gesto, cada palavra, cada tentativa, pode ser a rede de segurança que impede a queda livre de alguém.

Para quem já viveu de perto a perda de um paciente, o suicídio deixa um rasto difícil de apagar. É um desperdício, repito muitas vezes para mim própria. Um livro fechado a meio, uma biblioteca inteira que se desvanece sem aviso. É uma sensação de injustiça dilacerante. E, no entanto, é também esse vazio que me impele a continuar a falar, a escrever, a insistir na sensibilização. Não podemos devolver a vida às pessoas que já não estão connosco. Mas podemos, pela sua memória, erguer a voz. Podemos lutar contra o estigma, podemos repetir até à exaustão que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Podemos insistir que ninguém deve enfrentar sozinho a escuridão.

O Setembro Amarelo lembra-nos precisamente isto: que é urgente quebrar o silêncio, iluminar as sombras, abrir espaços de diálogo. Que é preciso estender a mão antes que alguém se afunde. É um mês simbólico, mas que deve ecoar todo o ano. No fim, tudo se resume a uma verdade fundamental. Não podemos salvar todos mas podemos sempre tentar salvar alguém, e é nessa tentativa incansável que está a nossa humanidade.