Escrevi uma carta ao presidente do hospital de Santa Maria, dando conhecimento ao diretor clínico e ao diretor do serviço de doenças infeciosas. O serviço que se destacou – por exemplo – entre outros, durante a pandemia da SARS-Cov2, é o serviço do piso 4 e 5, ala sul, do edifício grande, obra de um arquiteto nazi do Hospital de Santa Maria.
Sou mais rica, sou doente (oncológica). Um dia, caí e ganhei uma rutura do menisco. Para ser operada ao joelho, descobri, e ganhei um cancro urotelial de alto grau de malignidade (que escondi até hoje, da minha mãe – ela já não consegue ler) e o resultado foi, falhados todos os tratamentos, uma cistectomia radical com reconstrução de neobexiga, raramente feito em mulheres). As infeções atropelavam-se. Umas atrás das outras e eu não tinha resistência para tanto antibiótico. Não é normal o intestino ílion ser convertido em saco que substitui a bexiga. Como eu a valorizo agora. Converti-me numa “doente” saudável, com controle neste serviço.
Sou filha de uma mãe, de fibra, mas que teimosamente, nunca seguiu conselhos sobre como melhorar o seu estilo de vida e tornou-se, um dia doente, vítima há 4 anos de AVC. Precisei da ajuda para melhorar a sua condição. Fui ao centro de referência em Portugal, o campus neurológico sénior, o CNS. Liderado por Joaquim Ferreira, e sendo privado, deveria ter uma espécie de convenção com o Estado porque ali, verdadeiramente reabilitam casos de extrema gravidade, na janela que já não era a da mãe, depois da avaliação da médica Ana Castro Caldas.
É neste contexto e já mal que levo, nesse mesmo dia da avaliação, a minha mãe para o Hospital de Santa Maria. Entendo que devemos nunca deixar de expressar o nosso mais sincero e profundo agradecimento, como merece, a toda a equipa do Serviço de Doenças Infeciosas da ULS Santa Maria, manifestando-o nos pontos:
- O contato: O meu contacto com aquele serviço teve início há já mais de dois anos e meio, na consequência da minha doença oncológica, e seguimento pelo Dr. Sérgio Paulo, na qualidade de meu médico infeciologista, tendo estabilizado as minhas recorrentes infeções, (e eu parado), a toma de antibióticos o que fiz, durante 3 anos.
- As visitas: Durante esse tempo, sempre que ia ao serviço (todos os dias que estava em Lisboa, às mais diversas horas do dia) pude observar casos diferentes do meu, e a forma humana como, especialmente, este serviço e a sua equipa, médicos, enfermeiras, auxiliares (de um humanismo exemplar) e a secretária do serviço se referem a todos os familiares e aos doentes.
- O AVC: Mais tarde e, na sequência de um AVC terrível que afetou o seu hemisfério esquerdo, a minha mãe, de (à data com 82 anos), com cegueira cortical, AIT em ambiente de urgência do São Francisco Xavier com internos que mal sabiam o que fazer à doente, tendo agravado ainda mais a sua condição de saúde. Recuperada, mas com uma condição irreversível, viria, a ser transferida de uma UCCI (média duração) para uma ERPI onde os seus cuidados de higiene se agravaram, tendo colapsado com um surto herpético e consequente agravamento do seu sistema imunitário, foi recebida no internamento daquele serviço.
- O serviço de Doenças Infeciosas de Santa Maria: Recorri ao serviço do Hospital de Santa Maria e lá foi parar a minha mãe ao serviço de doenças infeciosas, à data piso 4, onde vi, foi tratada, ferida a ferida, lesão a lesão com pinças e delicadeza indescritíveis. Muitos episódios se verificaram, ainda mais exames se fizeram, por orientação do especialista que a passou a seguir, Dr. Sérgio Paulo.
Sendo este contexto e enquadramento, ficou urgente para mim, manifestar este cuidado exemplar e humano prestado à minha mãe, e a tantas mães e filhos ou pais que passam neste serviço, durante o seu internamento recente. Como, infelizmente, o sistema não funciona, teve de estar cerca de 8 meses hospitalizada, ocupando uma cama em hospital universitário, quando poderia, se houvesse mais resposta protocolada (por exemplo com o Instituto de São João de Deus) teria saído antes, abrindo espaço a outros doentes que precisavam daquela cama.
A minha mãe deu entrada neste serviço num estado extremamente debilitado, depois de sofrer um surto herpético generalizado que lhe afetou profundamente o corpo, com lesões da cabeça aos pés, e a mente. O seu sistema imunitário encontrava-se gravemente comprometido e, por duas vezes, chegou a perder quase por completo a lucidez, ao ponto de, com o coração apertado, temer sinceramente que a viesse a perder. Foi neste cenário de angústia e fragilidade, que muita gente não consegue perceber o papel exemplar de alguns médicos, que encontrei, no corpo clínico da unidade, serviço de doenças infeciosas, não só competência técnica de excelência, mas também uma humanidade difícil de descrever por palavras. Quero destacar, em particular, o médico infeciologista Sérgio Paulo, cuja postura foi sempre absolutamente irrepreensível desde o primeiro dia. A sua forma de comunicar connosco – sempre clara, serena, respeitosa e empática – teve um impacto profundo em toda a família. O Dr. Sérgio Paulo não só cuidou da parte clínica da minha mãe com o maior rigor e atenção, como também cuidou de nós, os familiares, com palavras de apoio e explicações compreensivas que nos ajudaram a atravessar esse momento de dor e incerteza. A sua atitude inspira, além de um humanismo único, uma confiança e tranquilidade, qualidades essenciais num médico que lida com casos tão delicados, e que, no caso da minha mãe, fizeram toda a diferença para que o processo de recuperação fosse possível e, felizmente, positivo. Nunca desistiram da mãe apesar da sua idade e condição de saúde.
Também gostaria de enaltecer todo o trabalho da equipa de enfermagem e auxiliares, destaco a Maria, destaco as enfermeiras chefe Ana, a enfermeira Rita, o enfermeiro João, e tantas cujos nomes não tenho presente, e a muito adorável auxiliar Cátia, o Fernando e tantos que todos os dias punham a tocar música da Amália Rodrigues no telemóvel da mãe. Que nunca desistiram dela, sobretudo quando a minha mãe, em determinada altura, desistiu, e parou de comer e de beber água. Supliquei-lhe que ao menos bebesse água e comesse sopa. Mas ela não queria. Recomeçaram tudo do princípio, comos e fosse o dia da sua chegada ao serviço. Podem existir muitos médicos, muitos enfermeiros, muitos especialistas, muitos professores, muitos doutores, muito isto e mais aquilo, mas o humanismo que carateriza este serviço deveria ser um apanágio de replicação em outros serviços deste e de todos os hospitais. Despem a sua pele e vestem a do doente. Isso faz toda a diferença. Esta equipa, com a mão e a presença clínica do Dr. Sérgio Paulo, foi a especial que acompanhou a minha mãe com um profissionalismo constante, paciência, cuidado e uma atenção verdadeiramente humana. Cada gesto, cada palavra, cada momento de escuta ou conforto prestado, mostrou que ali se pratica uma medicina que vai além do protocolo e a melhor evidência científica disponível – uma medicina feita com compaixão e, muito especial, a ciência dos afetos.
Eu concluo, que é importante para mim que este reconhecimento não fique por dizer. A dedicação que encontrei neste serviço de doenças infeciosas entre o Piso 4 e 5, merece ser publicamente reconhecida, valorizada e lembrada. Numa altura em que tantas vezes se ouvem críticas ao sistema de saúde, umas bem justas e merecidas, como o caso vergonhoso dos dermatologistas e de tantos que abusam do sistema em falência, mas que é uma história mal contada, porque os hospitais faturam com estes extras – pertenci à equipa que fundou e criou o SIGIC na Unidade de Missão dos Hospitais AS, com Mendes Ribeiro no ministério da saúde, quando os hospitais e 50% do sistema de saúde português (público) foi empresarializado, e porque alguns falham, é fundamental dar voz às experiências positivas e, sobretudo, honrar os profissionais que fazem a diferença, como o Dr. Sérgio Paulo e a sua equipa.
Em nome da minha mãe, incapaz de o fazer e já transferida para a Unidade de Cuidados Integrados de Longa Duração, na Estrela, uma unidade de excelência, parceria com a Misericórdia de Lisboa, e que tem um fee diário (e bem) e, em meu nome pessoal, muito obrigada.