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O que diriam os socialistas se António Costa ganhasse as eleições em Setembro e fosse buscar o Vitor Gaspar para ministro das Finanças? Não se riam. Não estou a brincar. Foi o que aconteceu no Brasil. Dilma convidou um “Vitor Gaspar” para ministro da Fazenda.

A nossa esquerda bem-pensante entusiasmou-se com a vitória de Dilma sobre Aécio Neves nas últimas eleições presidenciais no Brasil. Uma vitória socialista num país lusófono e numa economia emergente – e contra um candidato de um partido como o nome de “social-democrata” – constitui sempre um motivo de celebração. Mas desde as eleições, nunca mais se falou no Brasil ou em Dilma.

Vale a pena reparar no que se está a acontecer no outro lado do Atlântico de língua portuguesa. Todos nos recordamos do que disseram Dilma e os seus camaradas do PT. Iriam aumentar os subsídios e reforçar as políticas sociais. Pelo contrário, os seus adversários de “direita” foram acusados de defender um programa “neoliberal” que visava “cortes sociais” e “austeridade”. Ou seja, Dilma ganhou as eleições a defender mais socialismo e a atacar o “neoliberalismo”.

O que fez a “Presidenta” – como dizem os nossos irmãos, com o seu talento para adaptar o português à realidade – após a reeleição? Fez exactamente o contrário do que disse e do que prometeu aos brasileiros. Começou por escolher Joaquim Levy para a Fazenda (o equivalente ao nosso ministro das Finanças). Levy foi sempre mais próximo do PSDB (o partido de Aécio Neves) – e foi mesmo membro do governo de Henrique Cardoso entre 2000 e 2002.

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O novo titular da Fazenda fez o Doutoramento em Economia na Universidade de Chicago, e depois trabalhou durante sete anos no FMI e um ano no BCE, antes de regressar ao Brasil. Quando Dilma o foi buscar para a Fazenda, dirigia o fundo de investimento do Bradesco, o segundo maior banco privado brasileiro. Resumindo. O ministro das Finanças do PT estudou na escola de Milton Friedman, trabalhou em duas das instituições da “Troika” e nos famosos “mercados”. Mas o mais interessante foi o facto de Levy ter sido aconselhado a Dilma por Lula. O antigo Presidente propôs a sua nomeação para a Fazenda.

Mas Dilma fez mais. Desde que tomou posse, já cortou subsídios de desemprego e pensões, para controlar o despesismo das finanças públicas brasileiras, causado pelo seu primeiro governo. Não é necessário estar no Euro para ser obrigado a controlar as despesas. Esta semana, em Davos, Levy anunciou aos “mercados” que o Brasil começou um “período de austeridade”, cujo objectivo será “construir um Estado melhor, mas não maior.” Levy foi assim dizer que os “mercados’ já podem investir outra vez no Brasil.

Acho que a Dilma fez muito bem em escolher um economista sério e que conhece os mercados, e deixar os seus camaradas no partido. Só fará bem à economia brasileira. Mas esta escolha simboliza a dupla personalidade da esquerda socialista. O socialismo é uma roupa que está guardada nas gavetas até chegarem as campanhas eleitorais. Após as eleições, quando as ganham, volta para o armário e lá ficará durante quatro anos. O socialismo serve para a oposição e para as campanhas. Mas não é traje de governo.