Conheço Marinho e Pinto há muitos anos. Desde os tempos em que ainda estava no Expresso e ele era o correspondente em Coimbra. Fomos depois fundadores e membros da direcção do Observatório da Imprensa. Isso não me impede de já o ter criticado publicamente e de afirmar, sem sofismas, que tenho horror ao seu estilo populista de fazer política.

Comecei este texto assim porque é assim que muitos comentadores também começam algumas das suas intervenções, quando com grandes salamaleques se preparam para dar uma pequena bicada a alguém, que de uma forma ou outra, faz parte do seu círculo de relações. Aliviam dessa forma a sua consciência, mas sem se zangarem com um amigo. Trata-se de um estilo muito lisboeta, muito aqui das coisas nossas, que, bem ou mal, Marinho e Pinto não cultiva, pelo que dei comigo a pensar se não é isso mesmo que faz a sua diferença e explica muito do seu recente sucesso eleitoral.

Tomemos, por exemplo, a sua entrevista mais recente, ao Diário Económico. Vou seleccionar algumas frases:

A propósito do apoio de Mário Soares a António Costa: “Sabe que ninguém almoça à borla com o dr. Mário Soares e era bom ver os subsídios que a Câmara de Lisboa tem dado à Fundação Mário Soares”.

A propósito da regulação bancária: “O que é que falhou aqui? Foi só incompetência dos reguladores ou houve mais do que isso? O actual governador do Banco de Portugal há uns anos era funcionário do BCP, um banco envolvido numa das maiores manigâncias que houve”.

A propósito de política e negócios: “Houve um político em Portugal que negociou em nome do Estado português a instalação em Portugal de uma empresa estrangeira da área da energia para concorrer com a nossa EDP (…). Quando saiu de ministro foi para presidente dessa empresa. Chamam-se Pina Moura e Iberdrola”.

A propósito de Mário Soares: “As prendas que eu recebi ficaram na Ordem dos Advogados. Tivemos um Presidente da República que ficou para si com todas as prendas que recebeu enquanto Presidente”.

A propósito do Parlamento Europeu: “O desejo supremo de qualquer político é chegar ao PE, ganhar 17 ou 18 mil euros por mês e estar ali tranquilamente. Aquilo é bom para o dr. Paulo Rangel e para o dr. Francisco Assis que estão à espera do seu tempo cá em Portugal”.

Escolhi estas frases como podia ter escolhido muitas outras. Elas condensam o melhor e o pior de Marinho e Pinto. O melhor é que têm muito de verdade: são frontais – talvez desabridas, mal-criadas, inconvenientes. O pior é que, ao mesmo tempo, são parciais, só mostram uma parte da realidade, exploram a indignação fácil. Escusado será dizer que é o seu lado melhor que entusiasma muitos eleitores: “O Marinho e Pinto, ao menos, diz as verdades, não tem medo”. E que ao mesmo tempo é o seu lado pior, o seu lado mais populista, o lado que acicata sentimentos anti-políticos e anti-sistema que podem ser perigosos.

Quando o único programa de um político é este lado justiceiro até podemos apreciar a sua frontalidade, mas temos de denunciar o seu primarismo: a política é a arte do compromisso, de conseguir fazer pequenas reformas que contribuam para o bem comum, não o terreno para andar à espadeirada em nome do único desejo de “limpar a casa”. Esses são processos que por regra acabam mal. Basta pensar nas referências confusas de Marinho e Pinto, que ao mesmo tempo que diz querer governar com o PS ou o PSD, confessa que o político português que admira, “apesar das divergências políticas e ideológicas substantivas“, é Álvaro Cunhal.

Como faltam a Marinho e Pinto outras componentes do discurso populista – ele não anda por aí, por exemplo, nem a prometer impossíveis nem a explorar sentimentos irracionais –, creio que é sobretudo a ideia de que “diz umas verdades” que faz o seu sucesso. Ao mesmo tempo, os seus eleitores incomodam-se pouco, creio eu, com incoerências como a de ter integrado o grupo liberal no Parlamento Europeu ou agora dizer que pode deixar o seu lugar de eurodeputado para regressar a Portugal. Pelo contrário: apreciam a franqueza com que fala do ordenado e de pretender ficar com ele, “porque não é rico”.

O que me leva a outra reflexão: a brutalidade de Marinho e Pinto é a de um outsider. Mais: é a de alguém que não é de Lisboa, não frequenta os círculos de Lisboa, não tem de anteceder as suas críticas a alguém por uma espécie de pedido desculpas antecipado – “eu até o conheço”, “eu até sou amigo”, “eu até andei na mesma escola”… – e, por isso, como diria o povo, “entra a pés juntos”. Eu, que sou de Lisboa, filho de pais que nasceram em Lisboa, sinto que esta condição de estrangeiro que desce até à capital faz diferença. Já fez noutros políticos, de Sá Carneiro a Cavaco Silva, passando porventura pelo próprio José Sócrates. No caso de Marinho e Pinto, ele está à vontade para falar assim porque, depois, não se cruza nos mesmos restaurantes e nas mesmas vernissages com as elites da capital. Tal como não anda pelos corredores dos mesmos grandes escritórios de advogados. Nem passa férias na Quinta do Lago. Ele é homem de outras águas, e também por isso mais perto do sentir de boa parte do eleitorado.

Em Marinho e Pinto a sua condição de homem de fora da capital é mesmo assumida até ao fim: na mesma entrevista ele também diz que, quando se candidatar à Assembleia da República, o fará pelo círculo de Coimbra, não pelo de Lisboa, mesmo pretendendo apresentar-se como candidato a primeiro-ministro.

Mas atenção: o facto de o antigo bastonário dizer alto verdades que os outros apenas sussurram não faz dele um herói. A sua agenda monotemática, mesmo que pertinente aqui e ali, não deixa de ser monotemática e justicialista, logo uma forma de diminuir a política e de fazer do jogo democrático uma caricatura. Só que ele tem e terá sucesso, porque os tempos são de quem melhor se indigna.

A política é mais do que isso, bem sabemos, mas praticamos pouco, até no debate com Marinho e Pinto. Não por acaso um dos poucos a confrontá-lo abertamente, às vezes com a mesma brutalidade, é também alguém que não é de Lisboa nem pertence aos seus círculos: Paulo Rangel.