No início, era um líder de nicho, um candidato a mero pastor de saudosistas e outros ‘istas’ piores. Barulhento, incómodo, porém inofensivo. Depois, divertidos e com um cravo vermelho na mão, agigantaram-no artificialmente e fizeram dele um problema e um embaraço da e para a direita. Riram-se com a má sorte dos sociais-democratas e imaginaram um país a orbitar em torno de uma única estrela — o PS. Quando a esquerda desapareceu, entreolharam-se. Quando sofreram a primeira derrota, gritaram “não passarão”. Quando perderam de forma humilhante, uns, teimosos, disseram que a culpa era do povo. Outros, ainda que contrariados, perceberam que tinham de mudar de vida. Agora, fascinados com o barulho das luzes, voltam ao estado de negação. Foi tudo um mau sonho, a ameaça está neutralizada. Enganaram-se várias vezes e enganam-se outra vez.
André Ventura perdeu. E perdeu em muitas frentes. Mas isso não muda o essencial: há nove anos, André Ventura era um comentador de futebol. Uma terceira linha do PSD. Um candidato à Câmara de Loures inventado por caciques laranjinhas muito pouco recomendáveis. Hoje, é merecedor da confiança de mais de 1.7 milhões de eleitores. À exceção da primeira volta destas eleições, sempre que foi a votos em nome próprio, André Ventura cresceu. E cresceu muito. Nestas presidenciais em particular cresceu cerca de 300 mil votos face às últimas legislativas. São mais 300 mil para a mesa do líder que se confunde com o partido. Celebrar estes 300 mil a mais como sendo “poucochinhos” é, no mínimo, confrangedor.
O alívio que muitos sentem pela vitória esmagadora de António José Seguro não permite que reflitam sobre o crescimento objetivamente extraordinário de André Ventura. Estão presos à calculadora, às percentagens e às metas que o líder do Chega não conseguiu atingir. Tudo isso é válido e tudo isso deve merecer uma leitura política. Mas que não haja equívocos: estas presidenciais provaram, pela enésima vez, que André Ventura continua capaz de quebrar barreiras psicológicas e de conseguir convencer mais e mais eleitores
A pergunta que deveria ser colocada é outra. É porquê. Porque é que André Ventura está a conseguir convencer mais gente. Dir-se-á que a culpa é de Luís Montenegro. Da globalização, dos ares do tempo, das redes sociais, dos mais jovens, irrefletidos e permeáveis, dos que têm menos qualificações, dos “deploráveis”, dos “atrasados mentais”. Do reacionário, xenófobo e machista que existe, escondido, em cada vizinho do lado. A culpa é de todos menos dos abençoados com o dom da clarividência, dos virtuosos, dos combatentes pela democracia. Pois se isto era uma luta entre democratas e não-democratas, como muitos quiseram fazer crer, então há uma novidade: pelo menos um em cada três portugueses é um não-democrata.
Sim, haverá gente que sabe ao que vai e para onde quer ir quando vota em André Ventura e que portanto deve responder pelo voto que, goste-se ou não, legitima e conscientemente entregam ao líder do Chega. Mas não, não existem 1.7 milhões de eleitores não-democratas e todos os outros rótulos que lhes queiram colar. Pelo que importa voltar à questão-matriz, ao ‘porquê’. À falta de melhor explicação, volta-se à única que ainda parece fazer algum sentido: porque há gente, muita gente, frustrada, desiludida, zangada e desesperada com o que vai acontecendo ao país; porque os outros falham; e porque a tolerância para com os erros dos que estiveram e dos que estão agora no poder se está a esgotar.
Sim, André Ventura perdeu porque percebeu que há uma parte considerável do país que se mobiliza para o derrotar. Numa eleição altamente participada, a duas voltas, testados todos os argumentos possíveis (direita contra esquerda, elites contra o povo), os eleitores rejeitaram de forma expressiva o líder do Chega. O seu bloco cresceu, é inegável, mas ficou provado que não lidera a “direita” coisíssima nenhuma. Com estes números — insuflados por se tratar de uma corrida a dois — nunca será primeiro-ministro.
Montenegro continua a olhá-lo do alto dos dois milhões de votos numas legislativas muito mais concorridas. Só num cenário muito criativo é que Ventura será primeiro-ministro sem uma maioria absoluta. Não está nem perto disso. Na noite eleitoral, acabrunhado, Ventura percebeu que vai demorar mais tempo do que esperava para chegar ao poder. As notícias do fim do regime e da ascensão de Ventura ao Olimpo eram manifestamente exageradas.
Posto isto, António José Seguro, Luís Montenegro e José Luís Carneiro têm agora a responsabilidade de resgatar aqueles que estão a perder a paciência e a esperança. O Presidente eleito deu um primeiro sinal, simbólico mas importante, ao sublinhar que não permitirá que os que foram afetados pelas tempestades sejam esquecidos e que não vem para “deixar tudo na mesma”.
Luís Montenegro recebeu um aviso sério nestas presidenciais e é bom que arrepie caminho. Já venceu duas eleições, mas a cada ineficiência, a cada hesitação, a cada inexplicável gafe, a cada pecadilho, a cada pequeno-grande escândalo, a cada falha do Estado, cresce a desconfiança onde antes existiu o benefício da dúvida. José Luís Carneiro lidera um partido que “não pode com uma gata pelo rabo“, mas que se quer convencer, à boleia de Seguro, que venceu alguma coisa no domingo. Não ganhou nada a não ser mais uma oportunidade para refletir para onde quer e deve ir.
Como se viu noutras latitudes, tudo muda num sopro. Estes três, em particular Luís Montenegro, têm de perceber que, até prova em contrário, a única forma de conter o crescimento de André Ventura é responder aos problemas dos portugueses e do país. E sim, em muitos aspectos, Ventura tem funcionado como o canário da mina. Os eleitores estão a ouvi-lo, pelo que era importante ouvir os eleitores também. Anularem-se em jogos táticos e lutas palacianas não fará nada por eles. No final do dia, a maior responsabilidade está do lado de quem governa, naturalmente. Ou Montenegro reconhece o que está a correr mal e tem a coragem de corrigir a trajetória, ou será engolido. Mantendo o sangue frio e a racionalidade, é preciso a urgência de fazer melhor.