Esta semana dediquei duas horas do meu serão a descobrir os bastidores de uma música da minha infância. Certamente todos recordamos quando no ano de 1985, o mundo parou para ouvir “We Are the World”, a canção que foi o resultado do encontro de superestrelas da música num estúdio de Los Angeles, a qual se transformou  num hino universal de compaixão. Com vozes como as de Michael Jackson, Lionel Richie, Diana Ross e Bruce Springsteen, o projeto nasceu com um propósito claro: combater a fome em África, especialmente na Etiópia. O documentário da Netflix “A Noite que Mudou o Pop” mergulha nesse momento histórico de união artística e humana, recordando-nos que, quando o mundo quer, o mundo pode.

Mas hoje, quase 40 anos depois, permanece um silêncio ensurdecedor perante uma tragédia que também tem rosto infantil — o das crianças palestinianas que morrem de fome, sede e trauma na Faixa de Gaza.

O paradoxo é cruel: num tempo em que a comunicação global é instantânea, em que as redes sociais permitem ver em tempo real a dor alheia, a solidariedade parece mais dispersa, mais seletiva — talvez até mais politizada. E as crianças de Gaza, prisioneiras de um conflito geopolítico, pagam com o corpo o preço do (des)interesse e omissão internacional.

Não se trata de comparar tragédias. Cada tempo tem os seus contextos, as suas guerras e as suas emergências. Mas é inevitável questionar: onde está hoje o equivalente moral e mediático de “We Are the World”? Onde está o impulso coletivo de nos unirmos por aqueles que não têm voz? Estaremos a falhar não por falta de meios, mas por excesso de indiferença?

“Check your egos at the door”, escreveu num papel à entrada do estúdio, o icónico produtor musical Quincy Jones, responsável por dirigir a operação USA For Africa.  O documentário da Netflix revela não apenas o poder da música, mas o poder do propósito. Aqueles artistas – 45 superestrelas pop americanas, – com egos e estilos distintos, deixaram tudo à porta do estúdio porque sabiam que a urgência era maior do que as suas diferenças. Ninguém questionava a “narrativa” da fome na Etiópia. A resposta foi emocional, humana e mobilizadora. Hoje, diante da crise humanitária em Gaza, vemos governos hesitantes, instituições paralisadas e artistas que, temendo represálias ou cancelamentos, preferem o silêncio à ação. Aí estão os Egos a sobreporem-se à realidade desumana, algo que parece que o mundo está a “normalizar”, ou que está a “normalizar” o mundo.

Este é o paradoxo do nosso tempo: mais informados, menos comprometidos. Mais conectados, menos tocados. As crianças continuam a morrer de fome, mas a nossa capacidade de nos indignarmos tornou-se intermitente — ativada por algoritmos, anestesiada por ciclos noticiosos.

No fim do documentário, Lionel Richie afirma que a maior lição de “We Are the World” foi perceber que a arte pode salvar vidas. Hoje, essa lição continua válida — mas parece esquecida.

Precisamos de uma nova noite, de uma nova urgência que una vozes, talentos e consciências. Não para repetir um gesto simbólico, mas para restaurar a nossa humanidade partilhada.

Porque enquanto crianças morrerem de fome em Gaza, não somos o mundo. Somos o espelho daquilo que escolhemos ignorar.