A posição de Donald Trump relativamente à solução para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, designadamente a recusa norte-americana da adesão da Ucrânia à NATO e o facto de o inquilino da Casa Branca ter telefonado primeiramente a Putin e de ter combinado reunir com ele na Arábia Saudita, desagradou profundamente a Zelensky.
Confrontado com uma situação que o fragiliza interna e externamente, o ainda líder ucraniano percebeu que no Mundo de Múltiplas Ordens a oferta de uma situação privilegiada aos Estados Unidos na exploração de terras raras ucranianas pode não funcionar como moeda de troca suficiente para acautelar os interesses de Kiev. Daí o virar de agulha no sentido do reforço do apoio europeu e, por via disso, durante a recente Conferência de Segurança de Munique, o apelo à criação de um exército europeu, justificado com a ameaça de uma invasão russa de países da NATO.
Este alerta por parte de Zelensky constitui mais uma evidência do desnorte que se apossou de alguém que, talvez por deformação profissional, se julgou demasiado tempo com direito a assumir o papel de ator principal na arena internacional. A queda na realidade, resultante dos sucessivos desaires militares no terreno e da posição norte-americana que insiste na necessidade de a Ucrânia ir a eleições, está a ser muito difícil.
De facto, Zelensky finge desconhecer que Putin não receberá a concordância de Trump para invadir qualquer membro da NATO enquanto os Estados Unidos detiverem a posição liderante na organização. Não é apenas a questão decorrente do artigo 5.º da NATO, que considera o ataque a um dos seus membros como uma declaração de guerra a todos eles. A questão é mais profunda. Prende-se com a circunstância de Trump não estar minimamente interessado em lançar Putin para os braços de Xi Jinping com a consequente reedição de um mundo bipolar onde o antiamericanismo leve a palma aos aliados norte-americanos. Um Mundo de Múltiplas Ordens serve melhor o interesse dos Estados Unidos.
Voltando à proposta de Zelensky para a criação de um exército comum europeu, diga-se que a ideia é uma senhora de idade. Na verdade, a ideia inicial parece ter sido do Duque de Sully, ao escrever o Grand Dessein para o rei Henrique IV, propondo a formação de uma Cristianíssima República, tendo em vista a pacificação da Europa, sendo que a nova estrutura formada pelos então quinze Estados europeus iria contar com um Cristianíssimo Conselho, com sede móvel, e com um exército composto por mil infantes, vinte e um mil cavaleiros e cento e vinte canhões.
Uma proposta que não foi colocada em prática, a exemplo de todas as que se lhe seguiram. Uma lista longa da qual importa referir os principais nomes e planos.
Assim, na segunda sessão da Assembleia Consultiva do Conselho da Europa, em 11 de agosto de 1950, Churchill defendeu a criação imediata de um exército europeu unificado, sujeito ao controle democrático europeu e atuando em total cooperação com os Estados Unidos e com o Canadá. Mais tarde, nesse mesmo ano, em 24 de outubro, o primeiro-ministro francês René Pleven apresentou na Assembleia Nacional o plano que ficou conhecido pelo seu nome para a integração de unidades militares alemãs num futuro exército europeu que contaria com um comando unificado, que dirigiria as forças armadas dos seis países fundadores da CECA, e a nomeação de um Ministro Europeu de Defesa, apoiado por um Conselho dos Ministros da Defesa dos seis países. Um plano que, malgrado ter sido rejeitado, viria a ser recuperado, novamente em vão, por Jean Monnet em maio de 1952.
A lista de fracassos da ideia não se queda pelos mencionados, pois poderia incluir outros elementos, como o plano Fouchet de 1962, as declarações de Petersberg de 1992, de Potsdam e de Saint-Malo de 1998, embora estas últimas assentassem na ideia de que a Europa precisava de uma força de intervenção rápida e não de um verdadeiro exército europeu. Mais recentemente, nas comemorações do 27.º aniversário da queda do muro de Berlim, num discurso na fundação Konrad Adenauer, Jean-Claude Juncker voltaria à ideia, embora falando num cenário a longo prazo, e, em novembro de 2018, Emanuelle Macron, em entrevista à rádio Europe 1, assumiu a urgência da formação de um exército único europeu.
Zelensky não é historiador e, como tal, não é obrigado a dominar esta cronologia de fracassos. No entanto, enquanto líder político, conviria que soubesse que a questão se prende com a luta entre duas visões estratégicas da defesa europeia: a atlantista, assente na NATO, e a continental, que entrega à Europa a sua própria defesa.
Esse conhecimento teria sido útil a Zelensky porque lhe teria permitido perceber que a União Europeia só enveredará pela criação de uma qualquer versão de exército comum europeu se os Estados Unidos decidirem afastar-se da NATO. Para que conste, os Estados Unidos rejeitaram os planos aqui referidos porque os consideraram divisionistas em relação à NATO.
Face ao exposto, não parece abusivo dizer que Zelensky, qual naufrago, luta desesperadamente por uma tábua de salvação. O processo relativo às negociações visando o fim do conflito pode vir a servir como tábua de salvação, ainda que frágil e insegura, para a Ucrânia. Quanto ao futuro político de Zelensky, caberá aos ucranianos decidir.