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Como se prepara a transição das PME portuguesas para um futuro mais sustentável? E de que forma é que este processo, o passaporte digital do produto, está a mudar a forma como as empresas olham para os seus processos internos? E que incentivos e soluções existem para não deixar nenhuma empresa para trás? Eu sei, são muitas perguntas, mas é para isso que aqui estamos, prometemos responder a tudo nos próximos minutos. A Júlia Tomaz está comigo, está aqui à minha frente e está também à frente da Direção de Planeamento e Políticas de Empresa do IAPMEI. É nossa convidada neste episódio do "Aliados do Futuro", powered by Aliados Consulting. E está também comigo, ainda que à distância, o João Pinto da Aliados. Sejam bem-vindos, Júlia e João. Muito obrigada por estarem conosco e pela vossa disponibilidade. João, eu acho que quando nós falamos nesta questão da transição sustentável das empresas, nós pensamos que isto é basicamente tudo para ontem. Já estamos todos muito atrasados, achamos sempre nós. Mas não há tempo a perder, de facto. De que domínios é que estamos a falar exatamente nesta transição? Se pudéssemos aqui enquadrar todo este tema para quem não está muito dentro do assunto.
Eu diria que nós quando falamos de transição sustentável, estamos a falar de muito mais do que só ambiente ou só cumprimento legal. Estamos a falar de vários domínios ao mesmo tempo. Estamos a falar de energia, emissões de carbono, circularidade, ecodesign, gestão de resíduos, compras sustentáveis, cadeia de valor, transparência de dados, reports de ESG, entre outros temas. Portanto, no fundo, aqui a grande mudança é que a sustentabilidade deixou de ser aquela pequena brochura que está no website da empresa. E estamos a focar o tema em empresas. Ou seja, cada vez mais as cadeias de valor querem mais dados e estes dados estão em praticamente todo o lado. Estão no produto, estão no processo produtivo, estão na escolha das matérias-primas, na relação com os fornecedores, no acesso a financiamento e, no fundo, até na forma como as empresas se posicionam perante o mercado global. Por isso, quando dizemos que as empresas têm de se preparar, não estamos a falar apenas de serem mais verdes. Estamos a falar de competitividade. Estamos a falar que quem conseguir medir melhor, demonstrar melhor e resenhar melhor os seus produtos e processos, vai estar melhor posicionado no mercado. Porque costumamos dizer que quem não mede, não gere também e, portanto, esta é a nossa abordagem mais ampla neste tema.
Exatamente. E tudo isto parece muito complexo, não é, Júlia? Como é que as PMEs estão a preparar para responder a estas novas exigências? Já percebemos aqui que todos estes parâmetros que é necessário dar visibilidade, eles no fundo já são medidos por estas empresas, mas agora vão ganhar a luz do dia. É quase assim este processo.
Obrigada pelo convite. As empresas estão a fazer este caminho de forma progressiva, porque como diz o João, são vários domínios a concorrer e confirmo que, de facto, não é só uma questão ambiental e como tal, a essência desta matéria é criar valor que dure no tempo e, portanto, não podemos deixar de relacionar isto com a competitividade que as empresas têm que ter pela via da inovação que têm que fazer, pelos processos de transformação que têm que implementar nas suas empresas. Progressivamente, elas estão a fazer um caminho muito também derivado da pressão dos mercados, porque quando querem se candidatar a determinados concursos internacionais, mais pela via da exportação, pela contratação pública, pela questão dos seus clientes, seus fornecedores, estão a sentir a pressão de fazer. Portanto, mais do que a questão regulatória, que é importante e que tem que se cumprir e vai ter que se cumprir, já existe um trabalho a ser concretizado pela via da pressão do próprio mercado onde competem. E estão a fazer por etapas. É claro que há um conjunto delas que já estão mais à frente e a preocupação essencial é que também, e pegando naquilo que também que o João estava a dizer, olhar para dentro de casa e perceber como é que podem melhorar. No fundo, o que nós estamos aqui a falar é produzir melhor, com menos recursos, com menos energia, com menos emissões, com um contexto que favoreça, de facto, num contexto em que temos escassez de recursos, escassez e custos elevados energéticos, importa depois como é que vamos produzir melhor. E para produzir melhor, temos que conhecer a nossa casa e a cadeia de valor onde nós estamos inseridos. E isso faz com que tenhamos que olhar para melhorar em termos da digitalização, aumentar a maturidade digital, tentar redesenhar processos, que estava-se aqui a falar do ecodesign, olhar como é que podemos dar novas vidas aos nossos produtos e procurar também, em colaboração com outras entidades, crescer no acesso ao conhecimento e às ferramentas. Portanto, é um caminho que é feito às vezes a várias velocidades, mas é incontornável este caminho.
Claro, é arrumar a casa e tornar esses processos, que muitas vezes são invisíveis, se calhar, para o consumidor, mais visíveis também. E era disso que falávamos. Mas o IAPMEI oferece que ferramentas para esta transição para as pequenas e médias empresas? Portanto, como é que facilitam este processo?
Para fazer este trabalho, ou seja, de medir, de trabalhar os recursos, é preciso também não só ferramentas que ajudem a medir e a trabalhar, e metodologias até mais eficientes de desenhar os processos, é preciso conhecimento e apoio financeiro. Há uma tendência a pensar sempre logo no apoio ao investimento, que é mais imediato. É preciso ter dinheiro para adquirir tecnologias, mas além disso é preciso também capacitar as equipes tecnicamente, é preciso trabalhar, olhar para os produtos e inovar. A inovação aqui é essencial e por isso, o que o IAAPMEI faz? Trabalha com um conjunto de parceiros para gerar informação e conhecimento. Tem algumas ferramentas também que ajudam a fazer o autodiagnóstico, porque sem sabermos em que ponto está, não podemos desenhar um plano de melhoria, obviamente. Tem uma vertente muito grande ao nível da capacitação. Temos uma academia de PME que faz um conjunto de atividades de disseminação de conhecimento com outros parceiros. Disseminamos ferramentas que nós trabalhamos em projetos ou de outros parceiros que têm boas ferramentas para as empresas começarem a perceber também como é que se podem posicionar. E depois já os apoios financeiros ao nível da transição energética, da descarbonização, até ao nível da certificação. E nesta componente toda mais alargada que é a digitalização da empresa, é preciso, de fato, repensar os processos de negócio, do modelo de atividade e ao nível dos apoios financeiros que têm vindo ao longo destes últimos anos, quer pela via do PRR, quer pela via do Portugal 2030, um conjunto de apoios muito direcionados para essa via da digitalização e da descarbonização no seu todo. Tem sido uma aposta muito forte nos últimos anos.
Nós hoje estamos aqui falando um pouquinho especificamente do passaporte digital do produto. Quais são os principais desafios que as empresas enfrentam precisamente para cumprir as informações necessárias para este passaporte?
Por um lado, temos a questão da qualidade dos dados, ou seja, nós conhecermos os dados que a casa tem, quando eu digo casa é da empresa, daquilo que move os seus e da sua cadeia de valor, porque quando estamos a falar do passaporte digital do produto, o que é que nós estamos a falar? Estamos a falar de uma identidade, de um produto e temos que conhecer a sua história de vida, no que diz respeito àquilo que compõe o produto, a sua origem, quem é que forneceu, quem é que distribuiu, quais são os consumos associados. E toda esta informação implica a recolha de dados que sejam fiáveis, que sejam verificáveis, que nos permita perceber que aquela informação traduz uma realidade e que nós depois podemos verificar se é suficientemente sustentável ou não, se há um caminho a fazer. Mas acima de tudo, como o próprio nome indica, o passaporte digital é, no fundo, uma identidade do produto que mostra qual é o grau de sustentabilidade daquele produto no contexto daquela atividade empresarial. E, portanto, uma dimensão importante, não é a única, a dimensão importante é nós conseguirmos recolher e tratar dados que estão associados àquele produto ao longo da sua história de vida, digamos assim, de uma forma mais simples. Por outro lado, além de ser complexo às vezes as cadeias, porque imagine uma camisola, um sapato, etc. Há muitas componentes associadas e a matéria-prima vem de sítios muito diversos. E conseguir que toda a cadeia de fornecedores e fabricantes nos empreste a informação torna-se muito difícil para conseguirmos garantir que aquilo não é uma coisa colorida, que estamos a dizer que é sustentável e depois não é efetivamente sustentável. Portanto, a parte dos dados é importante. E depois também ter as tecnologias certas para medir, tomar decisões relativamente ao que é importante, porque também não vamos comprar as maiores tecnologias deste mundo e fazer investimentos alargados, se depois aquilo não faz sentido para aquilo que é o nosso negócio. Portanto, há aqui um conjunto de decisões de estratégia, por um lado, de informação que é preciso recolher e de ter esta relação com as outras partes interessadas, como se costuma dizer, a contribuir também para a informação, para que depois nós, enquanto consumidores, possamos olhar para um determinado produto e dizer: "Este produto é sustentável e eu opto por este produto porque no fundo me transmite a noção de que ele vai ser durável, ele tem preocupações ambientais e não só ambientais, na questão também de respeito pelos vários intervenientes que ao longo do processo contribuíram para aquele produto". Portanto, isto é um caminho longo e complexo, digamos assim.
Sim, mas a sua experiência, e falando com as empresas, há mais empresas assustadas neste momento com esta necessidade de criar e de ter este ecossistema todo muito bem oleado para ter essas informações, ou neste momento as empresas já começam a encarar isto como uma questão de transparência também e que pode ser muito vantajosa para aquilo que é a estratégia também do dia a dia e junto dos consumidores?
Isto depende às vezes também daquilo que é a informação sobre o que vai ser obrigatório e áreas que estão a ter maior pressão. Dando um exemplo concreto: há setores prioritários para a adoção do passaporte. Nós já temos muitas boas experiências, projetos nacionais ao nível dos têxteis e vestuário e também das baterias, porque no setor das baterias eles vão ter que começar a ter os passaportes para o próximo ano e estão muito avançados em termos de reflexão. Na parte dos têxteis e do vestuário, que costumam aparecer agregados, também já existem muitos projetos concretos que, através de uma leitura acessível daquilo que pode ser o passaporte do futuro. E no fundo, quem está a liderar esses processos também está a testar com empresas dos setores e estão a experimentar e partilhando experiências e exemplos positivos, eu acho que isso também faz com que as empresas depois vão atrás. É claro que quando a parte dos regulamentos europeus obrigar efetivamente a estar presente, vai haver uma aceleração na aquisição e aí, se calhar, também uma maior consciência de como o consumidor também vai poder privilegiar alguns destes produtos. Agora, no fundo, o bem maior é, de fato, termos na Europa produtos muito mais sustentáveis, mas as empresas estão muito preocupadas nesta relação entre o investimento que têm que fazer neste momento, por comparação aos benefícios que se calhar não estão ainda a ver no imediato, que podem, por causa da concorrência, por causa da competitividade, tem outras variáveis que jogam aqui que muitas vezes não contribuem para esta evolução, mas é um caminho que se vai fazendo.
Claro, até porque se calhar essas vantagens são mais a médio e longo prazo. E, portanto, se calhar essa perspectiva no imediato acaba por ser mais difícil de compreender. João, chamando de novo à conversa, é aqui que entram também as plataformas que a Aliados disponibiliza para testar o que vai ser o futuro neste campo. Qual é a importância desse tipo de soluções e o que vocês fazem concretamente até nesta questão do passaporte digital do produto?
Nós na Aliados assumimo-nos como uma consultora pouco tradicional. Ou seja, não queremos ser a consultora do PowerPoint, que no fundo apenas produz diagnósticos ou recomendações teóricas. Queremos ser, e somos, uma consultora mais estratégica, mas também muito orientada para a execução e para a criação de soluções para o mercado. Ou seja, nós ao longo dos últimos anos, fomos percebendo que muitas das respostas aos desafios da sustentabilidade, da circularidade e da conformidade regulatória, passam inevitavelmente pela digitalização face ao volume de dados que está aqui por trás disto. Portanto, por isso, para além do apoio estratégico às empresas, desenvolvemos também ferramentas próprias. Temos, neste momento, já duas soluções, uma para a medição da pegada de carbono corporativa e uma outra para a emissão do passaporte digital do produto, sendo que esta, tanto quanto conhecemos à data de hoje, é a única solução multissetorial em Portugal para a emissão do passaporte digital do produto, já não só funcional, como através da qual já emitimos perto de 50 passaportes digitais de produto, de 50 empresas diferentes em Portugal, dos mais variados setores. Portanto, quando falamos de passaporte digital do produto, ecodesign, dados, sustentabilidade, muitas PMEs já perceberam a tendência, já perceberam, mais que não seja também por via da pressão regulatória, mas muitas vezes não sabem por onde começar. Não sabem que dado escolher, quem tem essa informação dentro da empresa, se os dados ou parte desses dados estão no RP, se estão em ficheiros Excel, se está dispersa por fornecedores, se sequer existem esses dados. Uma parte deles não existe. E, portanto, é aqui que entra, no fundo, o papel da Aliados, enquanto também promotora da GreenTech Lab, que é a test bed que lideramos para capacitar estas empresas para o passaporte digital do produto. E no fundo, o nosso papel é fazer esta ponte entre a regulação, a tecnologia e o dia a dia das empresas, porque ao mesmo tempo as empresas têm que-- isto é um tema, apesar de ser um tema altamente estruturante na realidade de uma empresa, não é o core, não é um negócio da empresa em si. Portanto, no fundo, nós traduzimos alguns destes requisitos complexos, até para que a empresa possa estar focada naquilo que é o seu negócio. E ajudamos as empresas a diagnosticar, desde o seu ponto de partida, organizar os dados, pilotar este tema do passaporte digital do produto, porque no fundo, aqui o nosso propósito também, e até porque estamos numa fase, diria, relativamente prematura neste tema, prematura no sentido de que não existe uma obrigação já ao dia de hoje, vai existir a curto prazo, mas no fundo aqui o nosso propósito é também ajudar as empresas a prepararem-se para o tema, pilotar para perceber depois como é que podem escalar. Porque tudo que seja um produto numa empresa terá que ter o seu passaporte digital do produto. Ou seja, uma empresa, por exemplo, que produz um par de sapatos, terá que ter um passaporte digital do produto, não só para cada par de sapatos, mas inclusive por tamanhos, diferentes passaportes digitais de produto. E, portanto, neste contexto, acreditamos que somos uma empresa e uma consultora que não só nos limitamos a interpretar a legislação, mas que Ajudarmos as empresas a mudar estes processos, a capacitar as suas equipas e inclusive a tomar algumas decisões de investimento e a prepararem-se também de forma estruturada para aquilo que o mercado e que esta regulação vai exigir.
Portanto, deveríamos ter aqui, Júlia, algumas obrigatoriedades a partir de 2027, dessa data para frente.
Sim, alguns regulamentos já vêm a existir. Houve um regulamento em 24 ligado ao Ecodesign, que não foi falado pela primeira vez, porque as baterias em 23 já falavam sobre o passaporte, mas entre as baterias que apontam para os primeiros passaportes em fevereiro de 27, temos também da parte dos produtos de construção também vai haver exigências, porque isto funciona normalmente depois dos regulamentos, há os chamados atos delegados, que vão dizer em particular depois como é que os pormenores mais técnicos vão ser concretizados. Portanto, está previsto para o ano as baterias, os textos também alguns no tempo vão acontecer. Há um grupo de trabalho ao nível da Comissão Europeia que definiu alguns setores prioritários, assim de uma forma sumária, em termos de trabalho para esta matéria. Temos os textos que já referi com o calçado associado, temos os produtos de construção, temos o aço e penso que alumínio também, vamos ter os pneus. Há ali um conjunto de setores que vão na frente avançar. E as baterias, que já tinha também mencionado. Depois, isto vai ser progressivo. É claro que agora que houve este período com os omnibus e com alguma flexibilidade em termos de prazos, nós não gostamos de dizer muito rigorosamente que vai tudo acontecer assim, porque pode haver aqui uma flexibilidade nos prazos para permitir também não comprometer alguma competitividade que tem que acontecer, mas vai acontecer. E o fato de nos darem mais tempo é uma coisa boa, porque permite que em vez de fazermos tudo a correr, do jeito que temos que cumprir já amanhã, encarar estas mudanças como uma forma de inovarmos as nossas atividades, porque se, de fato, como dizia o João, não conhecemos, se calhar, de onde é que vêm os dados, é começarmos a conseguir metodologias de apuramento dos dados, é olhar para se os contratos estão a pedir, a nível internacional, dados. Imagine, a nossa realidade são muito pequenas empresas, mas se eu trabalho para uma grande empresa e a grande empresa me está a pedir essa informação, mesmo que eu não seja obrigada a fazê-lo, por inerência, por querer continuar a trabalhar com aquela grande empresa, vou ter que emprestar os dados. É claro que há aqui também orientações no sentido que não se deve pedir a mesma coisa, o que se pede a uma grande não se deve pedir às mais pequenas. Tem havido algum trabalho de reflexão. Eu estou a falar disso porque nós também acompanhamos, e a APEMEC também acompanha um bocadinho a reflexão que se faz a nível da Comissão Europeia, e a nossa preocupação também tem sido passar esta mensagem que é: é preciso olhar para os contextos não só do Estado-membro em causa, mas também para a realidade das nossas empresas, que são de muito pequena dimensão. E isto tem que ser feito de uma forma progressiva para que seja bem feito e para que as empresas também consigam garantir a sua própria sustentabilidade econômica nas várias dimensões. Nós podemos encarar este tempo que nos falta para melhor preparar as empresas, pensando naquilo que pode fazer sentido adquirir, em termos de investimento, que também temos que investir. E aquilo que falta muito também às empresas, que é tempo para parar e pensar e redefinir processos e fazer opções, porque isso também vai ser uma forma de fazer diferenciação, também em termos de negócio, de inovar, porque nós sabemos que há recursos que são escassos, matérias-primas que são críticas para alguma atividade industrial, para uma parte industrial, a energia é cara, portanto, há que pensar estratégias novas e isso, no fim, vai até contribuir com a comunicação formal no passaporte que nós estamos a fazer um bom caminho, mas acima de tudo, também houve ganhos de competitividade para dentro da empresa, porque antecipamos o eventual risco que venha a existir no futuro. Portanto, temos que encarar isto como uma vantagem competitiva, mais do que um custo e um peso de cumprir. É claro que as empresas também perguntam: "Quando é que eu sou obrigada a ter?"
Qual é a data limite.
Qual é a data, é já amanhã, é depois de amanhã. Nós percebemos isso. Mas este raciocínio é muito de imediato, porque as pessoas, se houver uma regra e se houver penalizações, é claro que temos que estar atentos a isso e cabe-nos a nós também informar sobre a realidade e decodificar estas coisas que vêm da Comissão Europeia, que as empresas às vezes também não acompanham tão de perto. Mas acima de tudo, é perceberem que isto é um caminho que também tem ganhos para produzir o melhor, como se falava no início.
Exatamente. E como dizia o João, é importante nesta fase ir preparando o terreno, ir testando. Já temos aqui alguns setores, e já falámos disso, que já começaram a fazê-lo de forma concreta. Eu recordo-me, por exemplo, de uma marca têxtil que lançou ainda esta semana um produto com o passaporte digital pela primeira vez. E porque já estamos aqui a ficar sem tempo, João e Júlia, pedia-vos só que perspetiva aquilo que vai acontecer nos próximos meses, até chegarmos ao ano 2027, e a partir daí, se calhar, arrancar aqui com outra velocidade. E perguntava-lhe, Júlia, também se estes apoios que existem, falamos do PRR, falamos do Portugal 2030, se tudo isto lhe parece suficiente para apoiar as empresas e para terem essa almofada financeira para fazerem essa transição de forma correta.
Não sei se começo eu, começo ao João?
Pode ser. Já vamos ao João.
Se são suficientes, o investimento nos apoios tem sido significativo, mas, em paralelo, porque há pouco só falei do PRR e do PT2030, porque são apoios concretos no PRR, no que diz respeito a consórcios que já existem e que trabalham em conjunto, até medidas que vão ser muito impactantes para a adoção do passaporte e na área da digitalização. Mas, em paralelo, já agora para dar essa nota, existem outros projetos, outras estratégias que vão também alimentar e apoiar. Portanto, não podemos só nos centrar naqueles que são os mais conhecidos. Inclusive, quando temos agora uma estratégia digital nacional com plano de ação, em que temos medidas muito fortes que vão trabalhar a digitalização, que por sua vez vão ajudar a construir o passaporte. Quando temos um plano de ação da economia circular que vai trabalhar questões da circularidade. Podia enumerar aqui um conjunto de planos e atividades onde estão inseridas inúmeras entidades que vão implementar várias abordagens, porque lá estará aquilo que eu dizia há bocadinho. Não estamos a falar só de ter dinheiro para comprar as máquinas ou para comprar os sensores. É importante também o uso da robótica, inteligência artificial, mas acima de tudo é também melhorar os processos e acima de tudo também encontrar conhecimento especializado, porque há muita falta de conhecimento técnico para fazer estas, porque nós podemos até ter uma consciência que é preciso fazer mudanças, mas fazer as escolhas informadas é sempre complexo. Portanto, eu diria que os apoios existem, são importantes e vão ajudar. Mas é importante também, e temos que acelerar, isso sem dúvida, vamos ter que acelerar mais, porque o nível de maturidade digital a nível nacional ainda não é muito significativo e, portanto, é preciso trabalhar, apesar de termos uma boa conectividade digital, mas em termos da incorporação do digital nas empresas há várias velocidades. E, portanto, eu diria que existem vários mecanismos de apoio, existe um conjunto de ações e atividades programadas até 2030, isso já está definido, mas é preciso as empresas aderirem, fazerem também a sua análise daquilo que vale a pena, fazer as suas apostas e trabalhar acima de tudo em colaboração. E eu gosto de falar nisto porque tem havido excelentes experiências ao nível do PRR, de consórcios que trabalham onde estão empresas, academia, centros de saber, centros tecnológicos, pequenas empresas, grandes empresas. E estes consórcios, como têm conhecimentos muito diferentes, com experiências muito diferentes, nem sempre trabalham a nível nacional muito em conjunto e tem havido, e a experiência disso foi as agendas mobilizadoras do PRR, têm trabalhado num conjunto de outputs, de produtos concretos, mas pela relação de colaboração que ganharam, porque dividiram as tarefas, trocaram impressões, o conhecimento foi testado nas empresas e nós somos poucos e o consórcio e a colaboração consegue ganhar escala muito significativa. Portanto, eu diria, se conseguirmos a colaboração, se conseguirmos o conhecimento, se fizermos as apostas certas no investimento, eu acho que conseguimos acelerar o processo e conseguimos estar num patamar de sustentabilidade muito mais forte.
Muito bem, João, para terminar, como é que está a vossa agenda? Ainda com algumas vagas para empresas que nos próximos tempos queiram acelerar todo este processo e começar a testar?
Do nosso lado, nós tivemos esta antecâmara, neste período de antecâmara de preparação, tivemos esta Testbed em execução, precisamente para apoiar as empresas a prepararem-se, mas mesmo após o fim da execução desta Testbed, continuamos com capacidade e com todo o interesse em ajudar as empresas, sejam PMEs ou grandes empresas, a prepararem-se no âmbito deste tema. Até porque nós vemos que isto é um tema que as empresas poderão ter ganhos de competitividade se o fazem de forma prematura. Ou seja, há inclusive empresas, setores que não estarão obrigados, no âmbito do passaporte digital do produto, a ter um passaporte digital do produto, como é o caso, por exemplo, da indústria alimentar, mas há empresas nesse setor a fazê-lo, precisamente porque encaram isto como uma oportunidade estratégica para si. É também uma forma, muitas vezes, de comunicar diretamente com o consumidor final, por exemplo. Portanto, sim, apesar de este projeto ter nascido na Aliados há três anos e ter sido executado ao longo dos últimos dois anos, encaramos que estamos ainda no início e isto vai ser de tal forma impactante na indústria nos próximos anos, até 2030, que está praticamente tudo por fazer. Portanto, responder no fundo afirmativamente que sim, temos todo o interesse e capacidade e experiência já para apoiar as empresas a prepararem-se para este tema.
Muito bem, esperam-se tempos entusiasmantes, parece-me. Portanto, é assim que terminamos este episódio do Aliados do Futuro, powered by Aliados Consulting. A Júlia Tomás está à frente da Direção de Planeamento e Políticas de Empresa do IAPMEI. O João Pinto faz parte da Aliados. Muito obrigada mais uma vez por terem estado conosco. Este episódio, que é desenvolvido no âmbito da Testbed GreenTech Lab, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia.