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Pense numa garrafa de plástico. Sabia que a cor dos elementos que a compõem pode mudar drasticamente a forma como é processada numa central de triagem de resíduos? Ou que um telemóvel com alguns componentes facilmente desmontáveis é mais eficiente do ponto de vista da durabilidade do que um totalmente compacto? Quando um produto é projetado, a sustentabilidade deve entrar na equação e pode até ser um motor de inovação. Hoje falamos disto mesmo no "Aliados do Futuro", powered by Aliados Consulting e Observador Lab. Eu sou a Ana Filipa Rosa e comigo estão o Marlhos Henrique da Silva, que lidera o departamento de Inovação e Digital da AMC Sonae, e também o João Pedro Pinto, que é co-CEO da Aliados Consulting e também partner. Sejam bem-vindos, João e Marlhos, obrigada pela vossa disponibilidade para se juntarem a nós. E Marlhos, começamos por si, porque pensando neste tema, há algum exemplo que seja imediato de um produto que inovou para cumprir metas ambientais? Eu falava aqui das garrafas, dos telemóveis, mas que exemplos é que nos pode dar?

Olá, Ana, boa tarde, muito obrigado. Teria vários exemplos, mas posso falar, por exemplo, de algo muito simples, mas bastante poderoso, que nós temos trabalhado nos últimos anos, que são as próprias embalagens de marca própria do Continente, que cada vez mais evoluem para uma utilização do monomaterial. Reduzir a mistura dos materiais, dos polímeros, facilita claramente a reciclagem, aumenta também a taxa de reaproveitamento, com os desafios, que nos obrigou efetivamente a repensar o design, a trabalhar muito bem com os nossos fornecedores e mesmo, em alguns casos, alterar processos industriais. Ou seja, trabalhamos aqui a sustentabilidade, mas através de uma inovação que para nós é bastante real.

E falam dessa questão da inovação em todo o ciclo do produto. Nós não estamos a falar aqui apenas, por exemplo, da embalagem que no final é descartada. Ou seja, estamos a falar de algo que acompanha o ciclo do produto desde o design.

Sim, exatamente. Hoje, eu diria que já não faz sentido olharmos apenas para os materiais ou para o design de um produto de uma forma isolada. Temos que olhar para o ciclo de vida completo, desde a origem das matérias-primas, a sua produção, a sua logística, o uso, o próprio fim de vida e aqui também assumimos um papel de apoiar os nossos clientes com soluções convenientes, para que eles também possam dar o seu contributo numa gestão correta no fim de vida desses produtos. Portanto, acreditamos que a verdadeira inovação acontece quando conseguimos otimizar o sistema como um todo, e não em partes isoladas.

E, portanto, são produtos que podem ser também enquadrados aqui numa lógica de economia circular. Quer nos dar algum exemplo concreto de um produto de marca própria do Continente que está disponível e que promove isso mesmo?

Cada vez mais, sim. Para nós, a economia circular não é apenas um ideal. Entendemos que é um requisito competitivo, regulatório. Nós queremos produtos que considerem uma reutilização, uma reciclagem, uma regeneração, caso contrário, eles vão perder relevância no mercado, quer pela própria legislação, mas também pela preferência dos consumidores. Nós já lançamos e fomos pioneiros no negócio, ou seja, em produtos de economia circular, e posso citar aqui os nossos chutneys, ou mesmo o pão de banana, o chamado panana, a nossa bread beer, uma cerveja feita também com aquilo que é o desperdício do pão. Portanto, temos aqui um conjunto de produtos que já lançamos no passado, com bastante aceitação, mas que também, na altura, representaram o nosso compromisso em ter uma economia cada vez mais circular e menos linear.

E Marlhos, a sustentabilidade tem de estar obrigatoriamente no centro de toda a estratégia de uma empresa, também porque os consumidores, e como dizia há pouco, estão cada vez mais exigentes?

Sim, muito mais exigentes. Eu entendo que hoje, no discurso, pelo menos, a sustentabilidade estará em qualquer empresa hoje, principalmente de grande dimensão. Infelizmente, em muitos casos, ainda não estará totalmente no centro das decisões. Organizações mais avançadas nesses parâmetros, e considero aqui também a AMC, naturalmente, e o grupo Sonae, já tratamos a sustentabilidade como um driver estratégico. Está presente, por exemplo, em decisões financeiras de médio e longo prazo, mas também está presente em decisões operacionais do dia a dia dos nossos negócios. Portanto, já não é apenas um posicionamento, já não é apenas uma responsabilidade social, é efetivamente algo que se torna também, per si, um vetor estratégico.

Eu acho que quando nós pensamos nisto e em objetivos de desenvolvimento sustentável, isto parece bastante óbvio, como é que existem empresas que não pensam nisto, mas de facto há aqui vários entraves e já vamos falar, Marlhos, um bocadinho mais sobre isso. João, a sustentabilidade é o motor de inovação do produto. Falamos disto que o Marlhos aqui dava como exemplo. Os consumidores estão cada vez mais despertos para estas questões, portanto, as empresas têm obrigatoriamente de acompanhar aquilo que está a acontecer.

Certo. Estamos a falar de usar critérios de sustentabilidade para repensar o próprio produto. Isto pode estar na escolha de materiais, pode ser, por exemplo, na característica do produto, através da redução de peso, na eliminação de componentes difíceis de reciclar, na melhoria da durabilidade, na facilidade de reparação, modularidade, na embalagem ou até no próprio modelo de negócio No fundo, a sustentabilidade obriga a fazer perguntas novas sobre o produto. Se o produto dura o suficiente, pode ser reparado, pode ser desmontado, pode incorporar material reciclado, pode gerar menos resíduos. Muitas vezes é precisamente destas questões que nasce a inovação de produto.

Mas na vossa experiência, na Aliados, as empresas ainda olham para isto como um custo extra, um aumento de fatura, ou já começam a olhar como uma oportunidade real de se diferenciarem de outras?

Ainda existem as duas realidades. Como o Marcos dizia há pouco, as empresas mais avançadas olham para o tema numa perspetiva diferente de outras empresas. E, portanto, muitas dessas empresas continuam a entrar nestes temas por pressão regulatória ou por exigência de clientes, por necessidade de responder a auditorias, mas já há uma mudança em que vemos que estas empresas mais avançadas começam a perceber que a sustentabilidade pode diferenciar o produto, ou que através da sustentabilidade podem diferenciar o seu produto. E com isso abrir mercados, melhorar a sua reputação e criar vantagens competitivas. Portanto, o ponto crítico é passar de uma lógica defensiva, de apenas cumprir requisitos legais, para uma lógica, eu diria, mais estratégica, onde a sustentabilidade entra na própria conceção do produto, na parte do R&D, da inovação, e da proposta de valor desse mesmo produto.

Mas na vossa experiência, esta questão da dimensão da empresa importa também aqui? Ou seja, as que estão mais à frente são as maiores ou não, também há pequenas e médias empresas que estão também a trilhar um caminho interessante?

Sim, há, claramente. Eu diria que do ponto de vista estatístico, provavelmente há mais grandes empresas num caminho mais avançado do que PMEs, mas claramente que há PMEs que fazem deste tema a sua vantagem competitiva e, portanto, existem e diferenciam-se e têm nichos de mercado precisamente porque colocam estes temas no centro da sua estratégia e a partir daí, diferenciam-se por essa forma.

Marcos, da sua experiência também do mercado, como dizia há pouco, produzir algo alinhado com os objetivos de desenvolvimento sustentável, parece-me bastante óbvio, mas quando isto não acontece, quando existe uma resistência neste aspeto, qual é o principal motivo? É o financeiro?

Sim, o fator financeiro ainda pesa. Sobretudo no curto prazo. Soluções precisam de maturidade até para terem melhores business cases. E, portanto, sim, é inegável que ainda pesa. Mas muitas vezes a própria resistência e essas dificuldades, essas barreiras até vêm da própria complexidade. Mudar um produto, mudar uma embalagem, uma composição, muitas vezes implica alterar cadeias de valor inteiras, que per si já são bastante complexas. O desafio é que esses projetos e essas iniciativas possam demonstrar que, mesmo que no médio prazo, que a sustentabilidade reduz o risco, que pode criar eficiência e que pode também gerar valor. E aqui, obviamente, olhamos de uma forma mais holística para a componente regulatória, também das preferências do consumidor. Eu acredito que, e penso que aquilo que tem sido o nosso percurso, já de alguma forma comprova, que existe efetivamente a possibilidade e que há capacidade para se contornar esta barreira. Não em tudo aquilo que desejávamos, mas em alguns casos, sim. Acredito que ultrapassar essa complexidade também ajuda a mitigar o próprio risco ou a própria dificuldade da questão da componente financeira.

E precisamente por falar dessa questão financeira, ainda há pouco tempo era notícia que nem todos os portugueses optam por artigos mais sustentáveis, precisamente pela questão do preço. Como é que nós podemos sensibilizar os consumidores para privilegiarem estes produtos sustentáveis? Como é que se faz esse trabalho e não apenas esta valorização de preço em tudo isto, nesta equação? Como é que vocês têm feito isso?

Eu falei anteriormente sobre também criarmos conveniência para o consumidor também exercer o seu papel no ciclo de vida dos produtos e nessa transformação da nossa economia em uma economia mais sustentável, mais circular e menos linear. A sensibilização é, neste caso, crítica, tem é de ser simples. Nós não podemos esperar que o consumidor, naquilo que são decisões corriqueiras, do dia a dia, que ele possa fazer análises complexas. Nós precisamos de tornar a escolha sustentável fácil, intuitiva. E temos todos que o fazer. Nós todos somos consumidores, e precisamos também assumir o papel, e eu acho que a sensibilização também serve para isto, assumir o nosso papel enquanto agentes da mudança, sermos exigentes, sermos conscientes e buscarmos também informação.

Nestes episódios do "Aliados do Futuro", que pode voltar a ouvir já agora em todas as plataformas de podcast, também no site do Observador, falamos muito também de greenwashing, e da forma como as empresas também comunicam esta questão da sustentabilidade. Como é que nós podemos, João, distinguir uma empresa que só comunica sustentabilidade de uma empresa que realmente inova no produto e que está a ser verdadeiramente sustentável? Repetindo aqui um bocadinho a palavra.

A diferença está entre o dizer e demonstrar. Uma empresa que apenas comunica sustentabilidade tende a falar mais de compromissos genéricos, objetivos mais amplos e mensagens de marca. Uma empresa que inova produto com base em sustentabilidade Muda decisões concretas, ou seja, altera materiais, redesenha produtos, mede impactos, envolve fornecedores, melhora a durabilidade dos produtos, reduz resíduos e prepara dados. Acima de tudo, aqui a diferença vai estar nos dados. A comunicação depois acaba por ser uma consequência disso. No fundo, primeiro há uma transformação no produto e no processo, há a obtenção de dados e depois uma narrativa credível, sustentada por esses mesmos dados para o mercado e consegue-se perceber facilmente por aí. Por outro lado, existe também uma maior tendência, e vamos ter ainda este ano uma diretiva da Comissão Europeia, a Green Claims, que impede, por via de sancionar as empresas que possam alegar termos relacionados com sustentabilidade, sem os conseguir comprovar, sem os conseguir medir. E portanto, acredito também que cada vez mais as empresas terão dificuldades ou pelo menos poderão ser sancionadas ao tentar fazê-lo de forma vaga, genérica, sem que ateste isso através dos dados. Eu diria que logo aqui vai se notar nos próximos meses alguma diferença.

Até porque depois há ferramentas que também vão ajudar nesse processo a tornar-se mais transparente o passaporte digital do produto, que também já falamos aqui várias vezes. Portanto, todas estas ferramentas vão ajudar também as empresas e obrigá-las quase a terem essas provas.

Sim, é basicamente isso mesmo. No fundo, o passaporte digital do produto vai claramente ser um acelerador muito importante, porque obriga as empresas a organizar informação que muitas vezes ainda não têm estruturada. Ou seja, para criar um passaporte é preciso conhecer dados como a composição, origem, materiais, desempenho ambiental, instruções de uso, reparação, reciclagem, fim de vida, entre outros dados. E portanto, isto no fundo obriga a que as empresas possam olhar para si, possam olhar para a sua cadeia de valor, para que nesse processo possam acabar por surgir algumas oportunidades de melhoria, de inovação e diferenciação que talvez não fossem identificadas se o tema fosse apenas tratado de forma mais vaga. No fundo, é um bocadinho por aqui que vemos que os produtos vão, com esta regulamentação do passaporte digital do produto, mudar significativo, pelo menos uma parte deles, nos próximos anos.

E Marlon, falando do vosso trabalho concreto na MC Sonae, para já como é que um consumidor, fazendo a mesma pergunta, pode distinguir o que é mero marketing do que é efetivamente inovador? E porque já estamos a ficar sem tempo, mas o que vocês estão a trabalhar neste momento de inovador, pode levantar um bocadinho o véu àquilo que vocês estão por aí a trabalhar, para quem nos está a ouvir ficar a saber?

Sim, claro. Sobre a primeira pergunta, a questão do greenwashing, não consigo acrescentar muito àquilo que o João já disse. Portanto, a transparência, uso de dados, o João já indicou bastante bem, certificações credíveis, o science based, ter métricas claras, sermos consistentes também ao longo do tempo, isto é super importante. E portanto, entendemos que se uma proposta de valor não for mensurável, vai perder credibilidade e obviamente não queremos de todo estar aí. Nós, e o João também falou sobre o passaporte digital do produto, entendemos como um potencial game changer. É um desafio, mas também uma oportunidade. Obriga transparência e nós já temos trabalhado a rastreabilidade e a transparência já há algum tempo, relativamente aos materiais, à origem, o impacto, a forma como as coisas são feitas, porque entendemos é também uma forma de criar confiança com os nossos consumidores. Lançamos recentemente aqui no grupo alguns produtos já com o PDP, com passaporte digital do produto, ou DPP, Digital Product Passport, por exemplo, na Salsa, que é um dos negócios do grupo Sonae, na área de fashion.

Sim, umas calças que têm já passaporte digital, já é possível ter.

Exatamente, desenvolvemos isto no âmbito de um projeto de inovação, o Bit, e mais virado em outras áreas de negócio, nós estamos a olhar efetivamente, porque já trabalhamos a componente da rastreabilidade há algum tempo, nós estamos a trabalhar em algumas soluções que vão permitir, mesmo na área alimentar, que o consumidor, nessa lógica da confiança, possa de facto ter acesso à informação no momento da compra.

Que é uma área que não é obrigatória, Marlon. Não é obrigatório ter esse passaporte, mas vocês quiseram avançar por uma questão de transparência.

Exatamente, da componente da rastreabilidade. Sim, nós entendemos que esta confiança, essa relação de confiança é importante e portanto estamos a trabalhar para dar esta informação ao consumidor, como tem sido também aquilo que nos pauta já com mais de 40 anos de mercado.

E portanto, isso vai marcar também os próximos tempos por aí também. E avançar, falávamos disto já também em off algumas vezes, essa questão de começar a testar, começar a lançar já, mesmo quando ainda não há legislação que o obrigue. Esta questão do passaporte digital, só mais lá para a frente, 2027, 2028, por aí. Mas isso foi importante para vocês começarem já a testar?

Sim, e já o fizemos no passado. Antes da pandemia, houve uma forte legislação relativamente aos plásticos e com toda a razão, mas nós desde 2017 que já estávamos a trabalhar em alternativas, já estávamos a estudar, já estávamos a testar novos materiais, novas formas de organizar as nossas cadeias para ter, efetivamente, no caso das embalagens, embalagens mais sustentáveis nos produtos. Portanto, anteciparmos aquilo que são os ventos da mudança, sejam eles regulatórios ou mesmo de preferências dos consumidores, eu acredito que também está na gênese da forma como nós vemos e praticamos a inovação. E aqui a componente do passaporte digital também acompanha, de alguma forma, aquilo que tem sido a própria transformação digital do nosso negócio e como nós também vemos o servir o cliente e a informação, a utilização de dados. Portanto, acho que está tudo muito alinhado.

Portanto, João, aqui o Marlus podia levar um selo de qualidade, porque é isso que as empresas devem de facto fazer, é começar a testar para depois implementar.

Exato. Até porque estamos numa fase preparatória. É importante começar a pilotar algumas soluções para depois escalar para aquilo que são todas as referências que uma empresa produz. E portanto, isto terá, como dizia o Marcos há pouco, será um game changer e terá um impacto brutal. Há números que, por curiosidade, apontam para cerca de oito bilhões de novos produtos produzidos a nível mundial todos os anos. Ou seja, naturalmente, isto é um tema a aplicar-se na União Europeia, a todos os produtos que sejam produzidos cá ou possam ser produzidos fora, mas consumidos cá. A União Europeia também é vista atualmente como o espaço que mais investe nestes temas, ou seja, que mais legislação cria também para estes temas da sustentabilidade. E portanto, significa que irá ser game changer precisamente por causa disso, porque terá um impacto brutal não só sobre os produtos já existentes como sobre novos produtos. Basta olharmos à nossa volta, vermos a quantidade de produtos de que estamos rodeados e perceber que quando cada um deles tiver um passaporte digital do produto, o que está por trás desse QR code, ou que seja, para se conseguir chegar a todos os dados que envolvem aquele produto, que tem vários materiais, matérias-primas que vieram de diferentes sítios do globo. No fundo, é escalar este tema e imaginar o trabalho que se tem pela frente. Portanto, sim, claramente, este é o caminho que as empresas devem fazer para estarem preparadas.

Muito bem, adivinham-se tempos de muito trabalho, como dizia o João. Marlus, muito obrigada por ter estado conosco. Marlus Henrique da Silva lidera o departamento de Inovação e Digital da MC Sonae e o João Pedro Pinto é o co-CEO e também partner da Aliados Consulting, foram nossos convidados neste "Aliados do Futuro", powered by Aliados Consulting e Observador LEV. Este episódio é desenvolvido no âmbito da Testbed GreenTech Lab, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia.