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China

Caos nos mercados, silêncio nos jornais chineses

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No rescaldo da segunda-feira negra, a maior parte dos jornais, agências e canais de televisão chineses ficaram calados. Na capa do jornal oficial do PCC, uma reportagem do Tibete. Ordens do Governo.

AFP/Getty Images

O colapso estava à frente de todos. O mercado bolsista a tremer por todos os lados e a bolsa de Xangai a cair a pique, libertando ondas de choque que se fizeram sentir em todo o mundo. Esta segunda-feira foi verdadeiramente negra para os mercados, mas isso não impossibilitou que muitos dos jornais chineses fechassem os olhos e optassem por escrever sobre outros assuntos. No noticiário do canal de televisão estatal, ao final do dia, nada. Nas capas dos jornais do dia seguinte, pouco mais de nada. Na internet, segundo relatos do editor do South Morning Post, a pesquisa por determinadas palavras-chave como “mercado de ações” chegou a ser bloqueada. Ver para crer – ou o contrário.

Aconteceu com o Diário do Povo, que na edição impressa desta terça-feira tinha na primeira página uma reportagem sobre o desenvolvimento económico no Tibete e não fazia qualquer referência ao crash da bolsa nas 24 páginas seguintes, preferindo focar-se no 70º aniversário da derrota do Japão na II Guerra Mundial. Mas não aconteceu só com o jornal oficial do Partido Comunista Chinês. A página inicial da agência de notícias estatal Xinhua preferia dar destaque a um trabalho sobre a visita do Presidente Xi Jinping ao Tibete em 1998, e, ontem, ao final do dia, o canal de televisão público chinês CCTV “esquecia-se” de referir o colapso da bolsa no noticiário das 19h00.

Os exemplos seguem por aí fora. George Chen, editor do South Morning China Post, jornal com sede em Hong Kong que não está debaixo da rígida alçada do Governo chinês, começou a alertar na segunda-feira ao final do dia para um facto curioso: quando alguém procurasse no principal motor de busca chinês, o Baidu, pelas palavras 股灾 (algo equivalente a queda do mercado de ações) a pesquisa era impossibilitada:

“Devido à política e regras, alguns resultados de pesquisa não serão mostrados”, era a mensagem que apareceria no ecrã.

Antes, George Chen já tinha também revelado no Twitter uma nota enviada pelas autoridades chinesas aos órgãos de comunicação nacionais a censurar os artigos que fossem negativos para os mercados chineses no rescaldo da “segunda-feira negra”. A acompanhar a nota, o jornalista de Hong Kong ainda ironiza: “A censura dos artigos sobre o mercado bolsista coloca a censura dos media chineses em todo um outro nível – o departamento de propaganda já acredita que pode controlar a bolsa!”, escreve.

De acordo com o New York Times, esta não é a primeira vez que a propaganda chinesa tenta intervir nas movimentações dos mercados. O China Digital Times, com sede na Califórnia, EUA, que reúne um conjunto de diretrizes confidenciais de censura, que foram impostas a jornalistas chineses, avançou que em junho os jornalistas já tinham sido orientados a manter a cobertura dos mercados de ações em conformidade com as regras oficiais, apenas para dissuadir o pessimismo ou o pânico.

As ordens eram claras:

Não fazer análises profundas, não especular nem avaliar a direção do mercado”.

“Não realçar pânico ou tristeza. Não carregar na emoção nem usar palavras como ‘queda’, ‘pico’ ou ‘colapso'”.

A questão parece ser até que ponto o Governo se deve ou não intrometer para tentar inverter o pessimismo dos mercados. E nos últimos meses foram experimentadas as duas vias. Ou é oito, ou oitenta. Certo é que, até aqui, o Governo tem sido uma espécie de cheerleader a olhar para a subida do mercado de ações e, quando, em julho, surgiram os primeiros sinais evidentes de que o caos na bolsa estava ao virar da esquina, o Governo começou, com pés de lã, a comprar ações. Travou algumas ofertas públicas e ordenou a alguns dos principais acionistas a não vender. E assim conseguia ir controlando as expectativas entre os investidores. A intervenção, durante um tempo, até resultou.

Consequência? “A intervenção foi tanta no passado que levou os investidores a acreditarem que o Governo consegue mesmo influenciar os preços dos mercados”, explica Nick Lardy, economista no Instituto Peterson para a Economia Internacional, citado pelo Washington Post. Mas a verdade é que, nem o Governo é “todo-poderoso” nem, segundo Lardy, se consegue levar um investidor a pensar de determinada maneira.

Esta segunda-feira a bolsa chinesa estoirou, com as principais praças chinesas a registarem perdas não vistas há muito, mas o Governo, numa primeira fase, ficou a assistir aos espasmos do mercado sem nada fazer. Fechou os olhos e ordenou, através da comunicação social, que todos fizessem o mesmo. No dia seguinte a intervenção veio do Banco Central da China, que procurou, à semelhança do que tem feito nos últimos meses, estancar a hemorragia aplicando o quinto corte na taxa de juro para os empréstimos e os depósitos a um ano em 0,25 pontos percentuais.

Segundo disse ao Wall Street Journal Fraser Howie, co-autor da obra “Red Capitalism: The Fragile Financial Foundation of China’s Extraordinary Rise”, os acontecimentos recentes só mostram que “o mundo está a começar a perceber que a China não é tão competente como se pensava, especialmente no que diz respeito à esfera económica, que era onde todos lhe davam as melhores notas”.

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