Crónica

Apaixone-se por alguém que você possa mandar à merda

Autor
8.347

Num relacionamento feliz - no qual, obviamente há desentendimentos cotidianos - chega uma hora em que o único jeito de ser feliz é mandar quem se ama à merda.

Nunca fui muito com a cara dos amores impecáveis. Nunca me convenci muito com casais que estão sempre felizes, sempre em paz e sempre cheios de certezas. Aliás, certeza parece-me coisa muito pouco coerente com o amor conjugal.

Aqueles casais que dizem que nunca brigam, nem têm grandes desentendimentos, soam para mim como uniões muito pouco saudáveis. A convivência entre duas pessoas presume que haja duas personalidades, duas formas de ser, duas opiniões diferentes. Quando há total convergência, parece-me que não haja muita sinceridade — ou pior, que haja bastante opressão.

A questão é que os relacionamentos não precisam ser perfeitos. Mas precisam ser de verdade. Quando há amor há alguma angústia. Quando há paixão há impulso. Quando há desejo há sangue correndo nas veias. Relacionamentos reais não navegam em mar muito calmo.

Discutir às vezes é normal. Mas guardar mágoa não. A raiva é uma erva daninha que se espalha rapidamente se não for arrancada pela raiz. E é aí que a coisa afunda, em um dois dois excessos: quando o peito está cheio de berros contidos ou quando nossos dias viram encadeados intermináveis de brigas sem sentido.

Por isso, acredito que num relacionamento feliz — no qual, obviamente há desentendimentos cotidianos — chega uma hora em que o único jeito de ser feliz é mandar quem se ama à merda.

Não se trata de uma agressão — desde que ambos saibam lidar com essa deselegância. Quando não há mais nada de construtivo para dizer, mas ainda há uma certa raiva, é melhor mandar à merda e pronto. O outro costuma dizer “vai você”. A briga acaba ali. A raiva é canalizada. Cada um vai para um canto. Liga-se a TV, abre-se um livro, toma-se um banho. Depois de 15 minutos já dá pra dizer “quer uma batatinha?”. E não há forma melhor de fazer as pazes do que com batatinha. Melhor assim.

Não acredito em amores perfeitos. Nem acredito nos amores que se afundam no pântano das discussões intermináveis ou das palavras não ditas. Acredito nos amores honestos. E, com honestidade, frequentemente queremos mandar quem amamos à merda. Depois passa. A raiva vai embora e só sobra a batatinha. Ainda bem. Vida que segue.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Como ser magro em Portugal

Ruth Manus
3.895

Tentar fugir do vinho, é uma tarefa tão árdua quando fugir do pão. Ele nos persegue, ele nos coloca contra a parede, ele quer nos destruir. 

Crónica

O segredo para um casamento dar certo

Ruth Manus
2.559

O segredo para um relacionamento dar certo, a meu ver- e digo por experiência própria- é não entender boa parte do que o outro diz. Isso tem dado muito certo por aqui.

Crónica

Como ser magro em Portugal

Ruth Manus
3.895

Tentar fugir do vinho, é uma tarefa tão árdua quando fugir do pão. Ele nos persegue, ele nos coloca contra a parede, ele quer nos destruir. 

Crónica

O segredo para um casamento dar certo

Ruth Manus
2.559

O segredo para um relacionamento dar certo, a meu ver- e digo por experiência própria- é não entender boa parte do que o outro diz. Isso tem dado muito certo por aqui.

Crónica

Os portugueses são grosseiros?

Ruth Manus
1.624

Em Portugal eu aprendi que ser reservado pode ser um grande ato de sabedoria, ao invés de falar sobre todos os assuntos com qualquer pessoa, em qualquer circunstância.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site