Euro 2016

O triunfo dos mal-amados

Autor
  • Alexandre Borges
9.062

Como foi que isto aconteceu? Não faço a mínima ideia. O futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha – mas isso é no futebol de hora e meia. No de 120 minutos, ganha o Fernando Santos.

Crescemos por desapontamento. A aprender que só os meninos ricos, bonitos, fortes, influentes, vencem. Os que parecem sempre ter mais qualquer coisa à partida do que os outros. Afigura-se parte do processo de nos fazermos homenzinhos e mulherzinhas sermos informados de que o jogo está viciado e que devemos aceitar essa circunstância e viver o resto da vida no discreto lugar daqueles que, frequentemente, nem tentam entrar na corrida. Na cómoda quietude dos secundários. Como se maturidade fosse conformação.

Não sei se o futebol merece o espantoso tempo de antena que tem em Portugal, mas é preciso reconhecer-lhe o condão de conseguir empolgar um povo que, frequentemente, parece padecer de uma espécie de disfunção sexual do ânimo.

Análises ao sangue pátrio revelariam, sem dúvida, valores preocupantes de conformismo crónico, pessimismo agudo, vitimização compulsiva e o terrível, inextirpável eunãodissismo – doença do foro psiquiátrico que se apodera do cérebro da vítima e a faz sentir prazer em perder, desde que tenha dito logo que era isso que nos esperava.

É preciso ter jeito para ser feliz. Claro, é preciso muito trabalho e alguma sorte; mas também é preciso jeito. E nós, portugueses, no futebol ou não, não temos tido muito.

A extraordinária geração de Eusébio, Simões, Coluna, Torres, José Augusto, Jaime Graça e afins encontrou tão grande comprazimento no terceiro lugar no Mundial de 66 e no facto de ter sido prejudicada pelo caseirismo da organização inglesa, que nunca achou necessário explicar porque não conseguiu sequer apurar-se para mais nenhum outro Mundial ou Europeu. Nos anos 70, uma equipa talvez ainda mais forte que juntava aos últimos da geração dos Magriços uma nova que incluía figuras como Artur Jorge, Humberto, Jordão, Nené, Toni, Damas ou Vítor Baptista, não foi a uma só grande competição. Uma! Contentou-se com o brilharete num torneio não oficial a que o Brasil chamou Mundialito. Na década de 80, os Gomes e os Chalanas, os Bentos, os Carlos Manuéis, os Manuéis Fernandes e os Diamantinos, ficaram-se por uma meia-final, numa altura em que, com os Europeus disputados apenas por oito equipas, as meias-finais estavam à distância de passar a fase de grupos. E do Mundial de 86, em que foram lá ganhar um jogo, perder dois e fazer uma greve por causa dos prémios das vitórias que não conseguiram, é melhor nem falar.

Depois, andou Futre uns anos a pregar no deserto, até que, finalmente, chegou uma geração de príncipes da bola. A chamada “geração de ouro” que começou a ganhar tudo ainda júnior e que, mesmo assim, havia de se retirar sem conseguir um caneco dos grandes. Rui Costa, Figo, Deco, Sousa, Baía, Couto, João Vieira Pinto, Pauleta, Nuno Gomes, Sérgio Conceição, Simão Sabrosa… Deram-nos a alegria de ir a todas, depois de décadas de sofá a ver jogar os outros. Verões inesquecíveis como o de 2004. Até voltaram às meias-finais de um Mundial. Até chegaram à final de um Euro. Mas não tiveram jeito para serem felizes. Nem eles.

Até agora. Até chegar esta selecção que não merecia, que não jogava, que só sabia empatar. A equipa que não convencia ninguém. Que não tinha sequer um ponta-de-lança. Que era só um jogador e, no fim, já nem esse jogador tinha. A equipa que, sejamos francos, estava longe de ser a mais talentosa que já tivemos e que, no entanto, foi a única de todas as nossas que soube ganhar. Soube ser feliz. A equipa dos mal-amados, dos underdogs, a equipa que jogou feio, que jogou o que soube e pôde e que, porém, ninguém conseguiu bater. A equipa que – explique quem perceba realmente de futebol – era má, era má, mas anulou sempre o adversário. E foram sete. Ninguém jogou – perdoem-me o francês – a ponta de um corno contra nós.

Como foi que isto aconteceu? Não faço a mínima ideia. O futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha – mas isso é no futebol de hora e meia. No de 120 minutos, ganha o Fernando Santos.

Quaresma, o puto do Casal Ventoso que foi descoberto por acaso quando o Sporting ia à procura do irmão. Que andou pelo Barcelona, pelo Inter e pelo Chelsea e deitou, tantas vezes, as oportunidades a perder. Que esteve anos fora da selecção, esquecido ou ostracizado, e que voltou para marcar golos decisivos e mostrar que, por se acabar o Cristiano, não se acabava a magia.

Pepe, o brasileiro Pepe que tanto português não quis na selecção (lembram-se?). Pepe, o caceteiro, o fiteiro que já andou numa lista dos dez futebolistas mais odiados do mundo. O Pepe que, aos 33 anos, jogou como nunca e festejou como o mais português de todos.

Ricardo Carvalho. O senhor Ricardo Carvalho que estava com Cristiano na final do Euro 2004. O central de classe sobrenatural campeão português, inglês, espanhol e europeu. O senhor Ricardo Carvalho que tem 38 anos. Mais 20 do que o Renato. Que também andou fora da selecção e que voltou para levantar uma taça que não podia continuar a passar por ele porque, caramba!, ninguém passa pelo senhor Ricardo Carvalho!

E o Renato. O Renato que é um miúdo da Musgueira, filho de uma família pobre que se desfez pouco depois de nascer. O Renato que, num só ano, se estreou como profissional no Benfica, assumiu como patrão da equipa, foi campeão nacional, estreou na selecção, tornou titular e foi campeão europeu. E foi contratado para o Bayern de Munique. E mandou dinheiro para o casamento da mãe. Aos 18 anos. Enquanto resistia como o mais feito de todos os homens às insinuações, desconfianças e calhandrices que, todos os dias, os outros, os homens maduros, lhe lançavam ao caminho.

O Fonte, que teve de chegar aos 32 anos para merecer uma oportunidade como deve ser na selecção, já capitão de equipa e referência em Inglaterra. O Eliseu, um miúdo dos Açores, filho da Nené da tasca Africana, sempre mal-amado, mas sempre tão imune às bocas da arquibancada que, nestes dois anos que leva desde que voltou a Portugal, foi só bicampeão nacional e agora campeão europeu.

E o Éder. O Éder, caramba, de quem todos dissemos tão mal. O Éder que é um puto da Guiné, que prometeu no Braga e depois desiludiu, andou pelo Swansea e, ultimamente, pelo Lille. O Éder que quase não tinha tocado na chicha durante todo o Euro e que salta do banco para fazer tudo bem e depois marcar aquele golo…

O Cristiano. O Cristiano que é, obviamente, um menino bonito, rico e forte, ou que se fez um menino bonito, rico e forte, vindo do contexto familiar que todos conhecem e que, ainda assim, é tantas vezes o mais mal-amado de todos. O jogador mais internacional de sempre, o melhor marcador de todos os tempos da selecção, a máquina que já leva quatro mundiais e três europeus, o capitão visivelmente amado e respeitado pelos colegas, mas que, pelos vistos, tem de estar sempre a convencer a exigente plateia de compatriotas que nunca ganhou merda nenhuma.

E o Fernando Santos. O engenheiro do penta que foi também o homem que perdeu o hexa. Que passou sem deixar rasto por Sporting e Benfica. Que em anos de Grécia ganhou uma taça. Que nunca disse que era especial nem cérebro, mestre da táctica nem dos mind games. Este Fernando que acreditou quando mais ninguém estava lá. O Fernando de quem toda a gente se riu quando avisou que já tinha dito a mulher que só voltava dia 11 – e que ia ser recebido em festa.

Os nossos disseram duas grandes frases neste Euro: esta do treinador, e aquela outra do capitão: “Se a gente perder, que se f***”. Um punha a fé, o outro tirava a pressão. Ambos queriam muito. Todos quiseram muito. Acho que foi isso que fez a diferença desta vez. Desta vez, já não nos contentámos com a vitimização. Nem com o conformismo. Nem com o eunãodissismo. Houve uma mutação genética na espécie. Quisemos mesmo ganhar. Com o que havia, que é o que há sempre, e não o que gostaríamos que houvesse.

Obrigado, Fernando, Cristiano, Éder, Pepe, Renato, Fonte, senhor Ricardo Carvalho, Quaresma, Eliseu, Nani, Raphael, Rui Patrício e demais por não nos deixarem mais à espera dos messias. De Dons Sebastiões que, um dia, haveriam de vir para nos salvar. Já não é preciso esperar por mais ninguém.

E agora… Descansa em paz, Eça. Os vencidos da vida… venceram.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Autárquicas 2017

As eleições de André Ventura

Rui Ramos

Não há no que André Ventura afirmou qualquer vestígio de “racismo” ou “xenofobia”. Mas este Verão, a nossa oligarquia política precisava de inventar um Trump de palha, desse por onde desse.  

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site