Maioria de Esquerda

Queijo fundido

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Ou muito me engano, ou o político astuto, ambicioso e corajoso que é Costa corre mesmo o risco de levar no topo do seu curriculum, que exibirá no alto-comissariado para onde for, o Siresp e o Resgate.

Desconheço se é característica conatural aos liberais, mas julgo que não. Tampouco sei se se trata de uma implicação directa das leis da termodinâmica, talvez seja isso. A verdade é que estou pessimista.

Estou pessimista apesar de ver o mundo ao contrário — Trump faz discursos sensatos, a família Kim faz-se representar na Coreia do Sul e Mário Centeno transfigurou-se de Ronaldo do Eurogrupo em Fernando Santos do Eurogrupo.

Estou pessimista porque ouço os sinais, leio nas entrelinhas e pressinto as consequências. Há muito que venho falando de António Costa como malabarista e fingidor; como político-sanduiche, entalado entre os compromissos comunitários que subscreve e reitera e o contrapeso radical marxista-leninista-populista luso com que escolheu associar-se. Há muito que se intui e compreende que uma das fatias da sanduiche acabará por expulsar a outra, porque são incompatíveis e a realidade disso se encarregará, como sempre acontece. O meu receio (e o meu pessimismo) tem que ver com o queijo que está no meio – Portugal.

Centeno encarregar-se-á, por brio, por dever e por convicção, de pugnar pelo respeito estrito do Governo português pelos compromissos com a “Europa”. Defender o crescimento económico, criar emprego, dar resiliência à economia e garantir esforços para assegurar políticas fiscais estáveis são alguns dos seus mantras e emblemas. Mas, simultaneamente, parece ter sido cancelada a trégua tacticamente decretada pelo PCP junto dos sindicatos, embora sem o dizer, naturalmente.

Que haja hoje, na Autoeuropa, “agitadores profissionais”, segundo o diagnóstico do líder da UGT, é apenas a ponta do iceberg. A necessidade de aumentar salários e do reforço da blindagem da legislação e do mercado laboral urgentemente — “enquanto é tempo”, na elucidativa expressão comunista — constituirá porventura uma consequência bem mais dramática sobre a nossa sociedade e sobre o nosso tecido empresarial, que sofrerão amargamente no rescaldo das reivindicações de tudo para todos, já.

Estou, entretanto, pessimista com a expectativa de uma economia portuguesa em abrandamento durante este ano e o próximo, de acordo com a Comissão Europeia. A performance da nossa economia está longe de ser decepcionante – já aqui o afirmei. Mas está também muito longe de ser brilhante ou sustentável, com o pano de fundo de extrema instabilidade que se vislumbra.

Por um lado, o crescimento a partir dos níveis de há 3 anos era inevitável; por outro lado, é agora para a zona euro estimado um crescimento para 2018 superior ao que se prevê para Portugal. Ou seja, a Comissão volta a estimar um rumo de divergência das nossas taxas de crescimento relativamente à média dos restantes países liderados por Centeno, reentrando nos carris do afastamento do centro e reassumindo a velocidade de cruzeiro em direcção às periferias. Sempre à custa de dívida, mais dívida.

Quer isto dizer que a pressão se vai intensificar sobre o político-sanduiche, que vai ser mais e mais comprimido entre as duas fatias — mais rigor de Bruxelas e mais reivindicações do Bloco e do PCP. Sempre à custa de impostos, mais impostos.

Ou muito me engano, ou o político astuto, ambicioso e corajoso que é António Costa corre seriamente o risco de levar no topo do seu curriculum, que exibirá no alto-comissariado que for servir depois da nossa República, o Siresp e o Resgate.

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1. Proceder à fundição ou à fusão de.
2. Derreter; lançar (a fusão) no molde.
3. Juntar, incorporar, adunar.
4. Afundar.

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