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A dificuldade de consensos à esquerda não se fica pela falta de diálogo entre PS, PCP, BE e Os Verdes, traduzindo-se na maneira como estes partidos votam as leis no Parlamento. Um estudo da Universidade Nova de Lisboa mostra que durante os anos de governação do PS, nomeadamente os Governos de Sócrates, a esquerda votou mais contra os diplomas que vinham do governo do que os partidos de direita que nessa altura também estavam na oposição. Em tempo de crise, o consenso entre os partidos também se torna mais difícil, sendo o governo de Passos Coelho aquele que menos conseguiu cativar votos da oposição para as suas medidas desde 1995.

O estudo Incumbents, opposition and international lenders: governing Portugal in times of crisis dos investigadores Catherine Moury, Elisabetta De Giorgi e João Pedro Ruivo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a que o Observador teve acesso, contabilizou os votos dos seis partidos com representação na Assembleia da República (CDU agrega PCP e Os Verdes) em relação a propostas do Governo e mostra que os partidos de esquerda penalizaram mais os socialistas no poder do que os governos de direita.

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Nos anos de governação de Sócrates, tanto o Bloco de Esquerda como o PCP e Os Verdes votaram mais contra as medidas do Executivo do que o PSD e o CDS que nessa altura estavam também na oposição. O Bloco de Esquerda chegou mesmo a opor-se mais a Sócrates do que ao atual Governo, votando contra 55% das medidas do de Sócrates entre 2009 e 2011, enquanto rejeitou apenas 44% das medidas enviadas por Passos Coelho para a Assembleia.

Também o PCP e os Verdes se opuseram mais ao primeiro mandato de Sócrates do que aos anos de governação de Barroso. Os comunistas em conjunto com Os Verdes chumbaram 39% das medidas da coligação Barroso-Portas, enquanto se opuseram a 45% do que foi proposto entre 2005 e 2009 por Sócrates. No entanto, o campeão de chumbos da CDU é mesmo o governo de Passos Coelho, cujas medidas foram rejeitadas em 59% das vezes.

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Estes resultados não surpreenderam Catherine Moury, investigadora e professora auxiliar da FCSH, que considera que tanto o PCP como o Bloco de Esquerda assumiram a posição de partidos “radicais” e por isso “temem apoiar as medidas o Governo” face ao seu eleitorado. “O PCP não viabilizou o PEC IV e sabia que a consequência seria a vinda da troika à qual se opôs nos anos seguintes”, refere a investigadora, acrescentando que ao ser um partido eurocético, o PCP distancia-se de todas as medidas que provocam convergência entre as forças nacionais nas questões comunitárias.

No que diz respeito a possíveis coligações nas legislativas de 2015, o estudo mostra que a convergência à esquerda entre as forças representadas no Parlamento é um tema complexo – como têm demonstrado as divergências dentro do PS e do BE. Pelos números revelados por este estudo, o CDS seria mais facilmente parceiro de coligação do PS do que Bloco de Esquerda ou PCP e Verdes, já que tanto no primeiro mandato de Guterres, como nos dois Executivos de Sócrates, os centristas opuseram-se menos que os partidos de esquerda – respetivamente 12%, 25% e 17%.

Menos consensos na crise

No estudo, que vai ser publicado para o ano na revista The Journal of Legislative Studies, os investigadores concluíram que em tempos de crise os partidos convergem menos do que em tempos de abundância, continuando no entanto a existir largo entendimento entre os partidos no governo (PSD e CDS) e o maior partido da oposição. O PS votou apenas contra 20% da legislação produzida pelo Executivo de Passos Coelho.

Segundo Moury, isto deve-se à “centralidade” que a questão europeia assumiu na política portuguesa. “Os partidos mainstream ajudam-se mutuamente e houve pressões externas anteriores à crise que levaram ao entendimento à volta de questões como o euro ou a presidência da Comissão Europeia”, explica a investigadora, justificando assim a tendência de convergência que se traduz numa “aproximação de programas entre o PS e o PSD”. Apesar desta convergência, o Governo de Passos Coelho foi o governo com mais votos contra por parte da oposição, 45% das suas medidas foram rejeitadas (o número mais alto dos mandatos analisados pelo estudo).

A consequência desta proximidade, segundo a investigadora, é o surgimento de novos partidos no espectro político. “Os partidos de centro deixam de ter referências por terem programas muito similares e os mesmo objectivos e isso leva à criação de novos partidos”, sublinha Moury. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal e pode explicar o aparecimento de novas forças políticas por toda a Europa.

Outra das conclusões do estudo é que os partidos do centrão tendem a estar em desacordo quando há mais possibilidades de substituir o governo em funções, como aconteceu no segundo mandato de Sócrates que era minoritário e onde já anteviam consequências da crise financeira (foi o mais penalizado pelo BE). “Compromisso e cooperação nem sempre prevalecem sobre as ambições de poder dos partidos”, pode ler-se no estudo.