A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) tem poucas dúvidas de que os pequenos acionistas foram deixados a comprar ações condenadas, nas últimas 48 horas de vida do Banco Espírito Santo. Houve ações vendidas à pressa por uma grande parte dos investidores institucionais, que poderiam estar na posse de informação privilegiada, avança o Diário de Notícias.

As investigações às ordens de compra e venda de títulos do BES, efetuadas entre 31 de julho (data de divulgação das contas do 1º semestre) e 1 de agosto, ainda não terminaram. Para provar que houve abuso de informação privilegiada, é necessário seguir o rasto do dinheiro e dos títulos. Mas a venda apressada destas ações encontrou do outro lado pequenos e médios investidores que ignoravam a situação. Compraram ações que, no domingo, 3 de agosto, passaram a valer zero, com a criação do Novo Banco e do “banco mau”, este último destinado aos ativos e passivos tóxicos, e que englobava os investidores.

A venda de ações só foi suspensa na sexta-feira a meio da tarde, não só porque iria ser feito um anúncio importante nesse fim de semana, mas também porque a queda abrupta do valor das ações já não poderia estar apenas relacionada com a apresentação das contas muito negativas do primeiro semestre do BES.

O DN lembra que a aprovação em Conselho de Ministros, na quinta-feira, do decreto-lei que permitia ao Banco de Portugal a dissolução de qualquer banco, pode ter feito a  informação chegar a terceiros. No entanto, o Banco Central Europeu também estava a par do que se passava, já que naquela sexta-feira suspendeu o estatuto de contraparte que era devido ao BES e exigiu o reembolso imediato de 10 mil milhões de euros até ao fim do dia útil seguinte — 4 de agosto, segunda-feira. A investigação de uma possível fuga de informação pode demorar “meses, talvez mais de um ano”, anota o jornal.

Quatro dias loucos

A 31 de julho, o BES divulgou as contas do primeiro semestre e os alarmes soaram: prejuízo de 3,58 mil milhões de euros, custos com imparidades de 4,3 mil milhões de euros, rácios de capital abaixo do mínimo exigido pelo regulador depois de muitas garantias de uma almofada de capital mais que suficiente, veículos escondidos, financiamentos não autorizados ao grupo.

Na quinta-feira, o valor das ações caiu quase 50%, o que é visto como natural pelo supervisor. Mas na sexta-feira, de manhã, tudo parecia ter normalizado. Até às 13h30, anota o DN, quando de novo as vendas superaram todas as previsões.

Nessa sexta-feira, 1 de agosto, a CMVM suspendeu a meio da tarde a negociação das ações de BES, cuja queda vertiginosa as cotava apenas nos 12 cêntimos no momento da suspensão. Essa sessão teve um elevado volume de transações, o que levou o regulador a abrir uma investigação para saber se foi usada informação privilegiada na transação de títulos do BES nesse dia.

Só nos 42 minutos antes da suspensão dos títulos, foram trocadas mais de 83 milhões de ações do BES, um valor muito acima da média diária (de 37,7 milhões de ações transacionadas).

Dois dias depois, na noite de domingo, o Banco de Portugal tomou controlo do BES e anunciou a separação da instituição num banco mau, que concentra os ativos e passivos tóxicos, e num ‘banco bom’, o chamado Novo Banco.