Um prejuízo de 3,58 mil milhões de euros, até há muito pouco tempo impensável, em apenas seis meses, custos com imparidades de 4,3 mil milhões de euros, rácios de capital abaixo do mínimo exigido pelo regulador depois de muitas garantias de uma almofada de capital mais que suficiente, veículos escondidos, financiamentos não autorizados ao grupo.

Os resultados do BES no primeiro semestre ficam na história, muito pela negativa. A lista de más notícias é considerável e parece ainda não ter acabado. Por várias vezes na apresentação de resultados enviada ao mercado, a administração do BES avisou que há muito que ainda não tem um quadro preciso porque não se conhece em detalhe o plano de reestruturação do Grupo Espírito Santo.

Os prejuízos já registados atingem os 3.577,3 milhões de euros mas podem subir em pelo menos 500 milhões de euros. Para já, não é provável, mas há muito por esclarecer. Aqui fica um resumo simples:

AS CONTAS

Os resultados dos primeiros seis meses têm duas componentes principais: o resultado da atividade normal e os fatores de natureza excecional. O resultado final é um prejuízo de 3.577,3 milhões de euros para o semestre, dos quais 3.488,1 milhões de euros dizem respeito apenas ao segundo trimestre.

O principal fator é o custo com imparidades e contingências, que atinge os 4.253,5 milhões de euros.

O banco fez um aumento de capital em junho, onde conseguiu angariar 1.045 milhões de euros, mas depois destes prejuízos extraordinários o rácio de capital Common Equity Tier I caiu para 5%, abaixo do mínimo exigido pelo Banco de Portugal, que é de 7%.

A administração do BES está confiante que este aumento de capital ajude a “mitigar” os futuros impactos da análise que o Banco Central Europeu (BCE) está a fazer e que serão complementados por testes de stress, mas deixa antever mais problemas.

Em termos gerais, o crédito a clientes em termos brutos aumentou 280 milhões de euros no segundo trimestre, enquanto os depósitos caíram 310 milhões de euros. O rácio de transformação crédito líquido/depósitos está nos 126%, sendo que a meta colocada pela troika era de 120%.

O crédito vencido há mais de 90 dias aumentou 223 milhões de euros e o crédito em risco também aumentou. Já o produto bancário caiu 23,8%.

O BES dá conta ainda de um aumento dos custos operacionais em 5,7%, em parte devido à inclusão nas contas de veículos que a anterior administração dizia não conhecer e das reformas antecipadas de 139 colaboradores do BES.

Olhando para os números mais gerais, é possível ver que o valor dos ativos totais do BES no final de julho caíram 2,97 milhões de euros face às contas do final do primeiro semestre de 2013 (menos 3,1%) e que o capital próprio do banco caiu 2,99 mil milhões de euros face a igual período (menos 41,3%).

Face há um ano, nota-se também uma queda de 5,2% nos depósitos de clientes, mas um aumento de 0,3% no crédito bruto concedido a clientes.

O banco perdeu também mais de três mil milhões de colaterais (ativos que podem ser usados como garantia) para operações de recompra (financiamento de muito curto prazo, inclusivamente para uso junto do BCE).

OS FATORES DE NATUREZA EXCECIONAL

A grande explicação passa portanto pelos fatores de natureza excecional. São vários e alguns ainda estão por acautelar na totalidade, mas o problema é a exposição às várias entidades do grupo Espírito Santo.

Provisões para a exposição ao GES, juros incobráveis de empréstimos do BESA, risco da carteira de crédito, imparidade com a participação na PT, quatro veículos desconhecidos com dívida do grupo, dívida emitida por entidades do grupo e vendida pelo BES aos clientes do retalho… a lista é considerável.

No total, o BES diz que teve de fazer provisões de 1.206 milhões de euros para perdas com a exposição ao GES, mas que ainda não conhece com “precisão” o plano de reestruturação do GES. Ou seja, pode ser diferente.

– A exposição às Seguradoras:

O BES tem uma exposição de 212,9 milhões de euros ligados à Tranquilidade e suas subsidiárias, que não estão ligados ao GES, e como tal diz que nesta altura “não são expetáveis perdas nesta exposição que possam ser diretamente atribuíveis à situação financeira do GES”. Isto não significa que não possam advir perdas, mas sim que estas podem não vir diretamente do GES.

– A exposição ao Espírito Santo Financial Group (maior acionista do BES):

Aqui revelam-se algumas das práticas que levaram a um aumento considerável dos prejuízos do BES. No segundo trimestre do ano o BES aumentou o financiamento à holding que gere as participações financeiras do grupo (agora em proteção de credores no Luxemburgo, juntamente com a ESI e a Rioforte).

O valor triplicou desde o início do ano, passando de 301,3 milhões de euros no final de 2013, para 416,2 milhões de euros no final do primeiro trimestre e finalmente para 927,6 milhões de euros no final do segundo trimestre. Os principais beneficiários foram a ES Financiére e o ES Bank do Panamá. Os reguladores tomaram conta da subsidiária do Panamá recentemente devido aos problemas financeiros da entidade.

O banco explica ainda na apreentação de resultados que, em primeiro lugar, as regras dizem que a ESFG tinha de estar protegida da área não financeira do GES devido às regras dos reguladores do Luxemburgo, Londres e Lisboa e que a partir de maio o BES ficou obrigado a reduzir a sua exposição à ESFG.

Não obstante a determinação da Comissão de Partes Relacionados, que foi ratificada pelo conselho de administração ainda liderado por Ricardo Salgado, de que a exposição sem colaterais tinha de ser reduzida para 400 milhões de euros até 30 de junho e que quaisquer novos créditos tinham de ter colaterais, foram dados mais 200 milhões de euros em créditos e as instruções não foram cumpridas, “podendo alguns deles ter ficado prejudicados pelo pedido de proteção de credores da ESFG”.

A isto acresce que já em junho o BES aumentou a sua exposição em 120 milhões de euros em operações não autorizadas. Como explica o banco, esta exposição aumentou “em consequência de algumas operações realizadas entre o banco e estas entidades, as quais não foram, no entanto, objeto de aprovação prévia pela Comissão de Partes Relacionadas, nem pelos órgãos do banco com competência”.

Para além do financiamento, a exposição do BES à ESFG aumentou com um esquema diferente. O ESFG tinha sido obrigado a dar uma garantia irrevogável à divida (da Rioforte e da ESI) vendida pelo BES aos clientes do retalho. A exposição direta do banco aumentou à ESFG por utilização da linha de crédito que estava associada a esta garantia, e em troca o BES recebeu como colateral 48,5 milhões de euros em ações da Tranquilidade, a seguradora do grupo.

Acresce que o ESFG vendeu 150 milhões de euros da sua dívida à Tranquilidade, a seguradora do grupo. Isto, diz o BES, “afeta de forma muito relevante o valor da garantia prestada aos titulares de papel comercial (dívida de curto prazo) atrás referidos, tendo este facto levado o BES a assumir diretamente o reembolso aos seus clientes de retalho”.

O risco obrigou a que o BES fizesse uma provisão de 823 milhões de euros com imparidades a este grupo de entidades.

– A exposição à Rioforte:

A exposição do BES à Rioforte, a sociedade de investimentos do GES que gere ativos não ativos financeiros e que também pediu proteção de credores no Luxemburgo, quase quadruplicou do primeiro para o segundo trimestre, passando de 69,6 milhões de euros para 270,8 milhões de euros.

Explica o banco que o BES fez adiantamentos porque tinha um mandato “exclusivo e irrevogável” para a venda de uma participação significativa do portfolio de ativos da Rioforte, mas com o pedido de proteção de credores este mandato fica afetado, já que o Tribunal do Comércio do Luxemburgo é que vai decidir a venda destes ativos.

A 28 julho a exposição ainda baixou para 190 milhões de euros, porque o banco comprou valores mobiliários para gerar liquidez para o reembolso da Rioforte do papel comercial colocado pelo BES junto dos seus clientes de retalho. O BES assumiu, de facto, os compromissos, mas a Rioforte ainda não transferiu os ativos.

Com tal, o BES decidiu fazer uma provisão de 144 milhões de euros para a exposição à Rioforte.

– A exposição à ESCOM:

A história da ESCOM continua, mas desta vez o banco decidiu precaver-se. Com os pormenores da venda ainda por revelar, o BES ainda mantém uma exposição bruta de 297 milhões de euros a esta entidade que terá saído do GES por venda alegadamente à petrolífera estatal angolana Sonangol, mas o processo está por concluir há quatro anos.

Como tal, o BES decidiu fazer uma provisão de 239 milhões de euros para se precaver de perdas com esta entidade.

– A exposição à dívida do GES:

Os clientes do grupo BES tinham no final de junho 3,1 mil milhões de euros de dívida do GES, e destes 1,1 mil milhões de euros eram de clientes do retalho e outros dois mil milhões de euros de investidores internacionais.
O BES diz, mais uma vez, que como ainda não se conhece ao detalhe o plano de reestruturação do GES “não é possível, à data da aprovação das contas do semestre, determinar com o indispensável rigor os montantes não recuperáveis da divida subscrita”.

Ainda assim, a administração conseguiu identificar já depois da comunicação feita ao mercado a 10 de julho a detalhar a exposição ao GES (numa tentativa de tranquilizar os investidores) a “existência de duas cartas emitidas pelo BES a benefício de entidades credores da ESI (outra das entidades com pedido de proteção de credores no Luxemburgo), cuja aprovação não havia sido realizada de acordo com os procedimentos internos instituídos no banco nem constava dos seus registos contabilísticos a 30 de junho”.

Mais um buraco encontrado sem registo nas contas e o resultado é mais uma provisão de 856 milhões de euros.

– A exposição ao BES Angola:

O BESA acabou por ter prejuízos de 355,7 milhões de euros no primeiro semestre, dos quais 198,2 milhões de euros são imputáveis ao BES, que detém até esta altura 55,7% da sua subsidiária.

Uma nova análise à carteira de crédito do BESA, levada a cabo pela sua nova administração, detetou 247,2 milhões de euros de juros que são incobráveis e, como tal, teve de os retirar das contas.

O banco central de Angola obrigou ainda a fazer provisões que, retirando uma provisão anulada, acabou por levar a um esforço adicional de 146 milhões de euros.

O BESA vai ter de fazer um aumento de capital e, caso o BES não acompanhe, arrisca-se a perder o controlo.
Resta saber o que vai acontecer à garantia dada por Angola às dívidas do BESA. Para já, diz a administração do BES, “garantia ainda se mantém válida”. Caso esta não avance, as perdas do BES podem crescer perto de 1,7 mil milhões de euros (contas do Citigroup).

– As imparidades com swaps:

O BES teve de fazer um ajustamento no valor que tem em carteira dos instrumentos financeiros. O aumento do risco de contraparte faz com que uma reavaliação do justo valor dos swaps de taxa de juro para operações de project finance tenham uma imparidade de 75,4 milhões de euros. Falta saber ainda qual será a forma de avaliação do BCE a estes ativos, o que pode levar a novas imparidades com o valor destes instrumentos.

– A Portugal Telecom:

A participação do Grupo BES na PT está na carteira de negociação, ou seja, de ativos “disponíveis para venda”, e como tal tem de ser avaliada a preço de mercado. A diferença entre o valor de aquisição e o seu valor de mercado tem de ser registada como perda por imparidade.

Neste caso, a 30 de julho, a participação do BES na PT tinha um valor de aquisição de 346,6 milhões de euros e o seu valor de mercado era de 240,5 milhões de euros. Esta desvalorização de 31% tem de ser registada com imparidade e como tal o BES é obrigado a registar uma perda de 106,1 milhões de euros com a participação na PT.

– Os quatro veículos misteriosos que todos dizem desconhecer:

O BES diz que encontrou já em julho quatro sociedades veículo cujos ativos eram principalmente dívida do Grupo BES que não estavam nas contas consolidadas do grupo e que a anterior administração, liderada por Ricardo Salgado, disse não conhecer a existência, finalidade e funcionamento.

“Já no decurso do mês de julho foram identificados três SPE (Special Purpose Entities) cujos ativos eram fundamentalmente constituídos pelas obrigações emitidas pelo Grupo [BES]” ao longo de 2014, emitidas a desconto e que mantém no balanço a custo amortizado, que foram vendidas aos clientes do banco no retalho a valores superiores ao valor emitido.

Já em julho foi encontrado um quarto veículo, sobre o qual a administração do BES diz que na data do fecho das contas ainda não tinha qualquer informação, e que tinha 77 milhões de euros em ativos.

A anterior administração, de Ricardo Salgado e Morais Pires, disse que os seus membros “desconheciam as transações realizadas através de intermediários financeiros atrás referidos, bem como a constituição, desenho e funcionamento daqueles SPE”.

O resultado foi uma provisão para o valor total dos ativos do quarto veículo, e de 121 milhões de euros para os quatro veículos.

Entre o ajustamento do valor das emissões, os veículos integrados nas contas que não eram conhecidos da anterior administração (segundo a própria) e outras contingências de emissões do Grupo BES vendidas a clientes particulares no retalho, o BES teve de registar perdas de 1,25 mil milhões de euros nos primeiros seis meses.

Mas a conta pode não ficar por aqui e, segundo o banco, pode ainda ter de vir a comprar uma parte das obrigações do grupo com prazo mais curto vendido a clientes do retalho, embora não ache provável para já que isso aconteça. Se tal acontecer, o prejuízo do primeiro semestre ainda pode aumentar mais 505 milhões de euros e ultrapassar os 4 mil milhões de euros.

– A Líbia e outro ativos:

A situação na Líbia não está fácil e o BES volta a sofrer com isso. O banco não consegue exercer o controlo sobre a sua filial na Líbia, o Aman Bank, e teve de registar uma imparidade de 10,2 milhões de euros.

A isto juntam-se novas avaliações aos ativos do banco, que resultaram em perdas de 85,4 milhões de euros. Destes, cinco milhões de euros são para provisões a fazer com o valor dos imóveis que o banco tem em carteira, 20,4 milhões de euros para prejuízos com ativos financeiros e outros 60 milhões de euros para provisões de ativos de sociedades detidas para venda.