Na moção política de candidatura à liderança do partido, que apresentou esta tarde na sede do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares criticou a atual direção, encabeçada por João Semedo e Catarina Martins, e recusou entendimentos com o PS de António Costa. Mas desdramatizou a existência de opiniões divergentes dentro do mesmo partido, recusando a ideia de “fragmentação“. “No Bloco não há delitos de opinião“, diz.

Pedro Filipe Soares apontou o dedo à política de alianças que tem sido assumida pelo partido nos últimos anos e apelou a um “regresso às origens” e à “combatividade”. “O Bloco perdeu o capital de confiança”, disse o bloquista durante a apresentação da sua moção de candidatura à liderança. E lembrou alguns dos “equívocos” da atual direção do partido, como quando, no verão de 2013, o Bloco foi à sede do Partido Socialista propor a António José Seguro uma aliança de governação.

“Sempre que o Bloco se colocou ao lado do xadrez partidário foi submisso a outras agendas”, disse o atual líder parlamentar bloquista, para quem os problemas do Bloco começaram quando, em 2011, o partido apoiou Manuel Alegre na corrida presidencial e continuaram quando, no verão do ano passado, em plena crise política, “o Bloco se dirigiu à sede do PS para propor um Governo com o Partido Socialista de António José Seguro, quando, veio-se a ver, nem o próprio partido queria António José Seguro”.

“Começar a discussão com a pergunta ‘Com quem fazemos alianças?’ é abdicar da nossa identidade. Discutir apenas alianças é a escolha de quem já não acredita neste movimento”, lê-se na moção.

Mas nem António José Seguro, nem António Costa. Para o bloquista, que recusa a “alternância sem alternativa”, não há espaço para entendimentos com o PS de Costa, porque o recém-eleito candidato do PS a primeiro-ministro não pressupõe “nenhuma viragem política no PS” e “continua a defender aspetos como o tratado orçamental, de forma mais ou menos acérrima, mais ou menos envergonhada”.

Sobre a atual coordenação de João Semedo e Catarina Martins, o agora candidato à liderança do partido, diz que “haverá espaço” para os dois na direção do Bloco, caso a sua moção seja vencedora na Convenção de 22 de novembro, uma vez que, diz, no Bloco de Esquerda “não há delitos de opinião”. Para Pedro Filipe Soares, o modelo de liderança bicéfala em si mesmo não é um problema – “tem vantagens e desvantagens” -, mas a proposta que agora apresenta é de uma coordenação individual.

Pedro Filipe Soares procurou ainda demarcar-se da ideia de que a sua moção é uma moção de rutura de uma tendência organizada dentro do partido, sublinhando que “hoje é o dia próprio para apresentar as moções à Convenção” e que, como ele, “outros o irão fazer”.

Ao início da tarde, foi entregue junto da Comissão Organizadora da Convenção do Bloco de Esquerda a moção política de Catarina Martins e João Semedo, subscrita também por nomes como o ex-coordenador Francisco Louçã, a eurodeputada Marisa Matias, a deputada Mariana Mortágua ou José Manuel Pureza.

Questionado sobre a eventual incompatibilidade entre o cargo de líder da bancada parlamentar e o facto de estar a desafiar a direção do partido, o bloquista afirmou que o lugar estava “à disposição”, mas que não acredita que, pelo menos até à Convenção, se trate de incompatibilidade. Apenas de “pluralidade de ideias”.

Na moção “Bloco Plural, fator de viragem!”, pode ler-se que “o BE tem que voltar a ter um programa e um caminho próprio”. “O BE deve ter um projeto apontado ao socialismo e inconformado com o rotativismo e a alternância sem alternativa. Mais do que discutirmos alianças temos que discutir linha política para juntar forças. A nossa política de alianças não pode ser na base da soma de partidos, mas sim no desafio à cidadania e aos que já deixaram de acreditar na política. Só rompendo com os taticismos do jogo partidário conseguiremos recuperar a confiança“, dizem. De acordo com o candidato a líder, subscreveram a moção 864 pessoas.

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