Era difícil, muito. Isso não era novidade. Nenhuma mesmo. Mas precisava de correr. Era viciado em exercício físico. Ainda mais quando disse basta e abandonou o pentatlo profissional. Mauro Prosperi precisava de um desafio e descobriu-o em Marrocos: percorrer 250 quilómetros de deserto em seis dias. A pé. O italiano disse que sim e lá foi ele. Antes, ao inscrever-se, contudo, teve que deixar uma informação — a morada para a qual pretendia que o seu cadáver fosse enviado. Porquê? Caso morresse durante a caminhada.

A Maratona do Sables era assim. Perigosa, desafiante e um risco de vida. Mauro sabia-o. Mas medo era coisa que não sentia. “O pior que me pode acontecer é apanhar um escaldão”, disse, em brincadeira, quando revelou à mãe dos seus três filhos que, aos 39 anos, ia participar numa aventura no deserto de Marrocos. Por isso treinou. Muito. Corria cerca de 12 horas por dia e, nos entretantos, bebia a menor quantidade de água possível. O objetivo era habituar o corpo à desidratação. Prudente.

Quando aterrou em Marrocos, em 1994, e começou a correr, as coisas até iam bem. Entre os 80 e tal corajosos, Mauro era um dos melhores. Bendita preparação. “Era sempre o primeiro italiano a chegar à meta e pendurava a bandeira italiana na minha tenda para que todos nos juntássemos à noite. Era divertido”, contou, no texto que, hoje, escreveu à BBC. Ou seja, a história, esta, acabou bem. Mas correu mal. E não foi pouco.

Ao quarto dia de prova, Mauro foi engolido por uma tempestade. O vento pregou-lhe uma partida e, a meio de uma etapa, as dunas que o rodeavam pareciam atirar-lhe areia. “De repente começou uma violenta tempestade. O vento tinha uma fúria terrível e fui engolido. Era como um furacão de agulhas”, recorda Mauro. E foi a partir daqui que tudo piorou. Bastante. Assim que a tempestade amainou, o italiano estava sozinho e não via ninguém à distância. Ao início até se preocupou em correr para não ser desqualificado — depois, porém, passou a preocupar-se em manter-se vivo.

Quando percebeu que estava perdido, Mauro apenas tinha metade de uma garrafa de água, uma faca, uma bússola, um saco de cama e alguma comida. Ao segundo dia perdido, Mauro avistou um helicóptero. Tinha uma tocha, acendeu-a, mas nada. Ninguém o viu. Passados dois dias descobriu uma pequena casa, um santuário muçulmano. Lá estavam vários morcegos, que Mauro decapitou e usou para beber sangue. Foi lá também que bebeu a própria urina, que guardara numa garrafa logo no primeiro dia, por precaução. “Foi a primeira coisa que fiz quando percebi que estava perdido, pois é quando estás bem hidratado que a urina é mais limpa e bebível”, explicou.

Passou alguns dias no tal casebre. Sozinho, já sem água, desesperado e desidratado. Até que perdeu a esperança. Deixou-se ficar por ali, escreveu uma mensagem para a mulher na parede, com uma pedra, e cortou os pulsos. Pensou que tinha morrido, mas Mauro acordaria no dia seguinte. “O meu sangue tinha ficado muito mais espesso e não escoava”, confessou, à BBC. Mas foi esse acordar que encheu Mauro de esperança. Levantou-se e voltou a caminhar. Andou, andou e andou, até um dia avistar cabras. Animou. Um dia depois viu uma pequena rapariga, que fugiu, assustada, para perto da tribo a qual pertencia. Mauro seguiu-a

“Já fizeste o meu funeral?”

Quando lá chegou foi recebido por mulheres, que trataram de si e chamaram a polícia que, temendo que o italiano fosse um criminoso, ainda lhe vendaram os olhos para o transportaram para o hospital. E foi lá que descobriu mais coisas. Estas surpreendentes. Mauro percorrera 291 quilómetros desde o ponto em que se perdera. E mais: tinha cruzada a fronteira entre Marrocos e a Argélia.

“Já fizeste o meu funeral?”, foi a primeira coisa que Mauro Prosperi perguntou à mulher quando finalmente teve oportunidade de lhe ligar. Por esta altura já estava no hospital em Tindouf, Argélia, para onde foi levado. “Porque depois de dez dias perdido no deserto seria de esperar que alguém estivesse morto”.

À data, Prosperi pesava apenas 45kg — tinha perdido um total de 16kg no processo, além de ter mazelas no fígado e nos olhos. “Mas os rins estavam bem”. Num estado de saúde extremamente debilitado, conta que durante meses não conseguiu comer nada além de sopa e líquidos. Foram precisos quase dois anos para recuperar totalmente.

Quatros anos depois regressou à Maratona de Sables, determinado a acabar o que tinha começado e porque, diz, não consegue viver sem o deserto. Argumenta que a febre do deserto é real e corre-lhe no sangue, razão pela qual sente necessidade de regressar todos os ano ao extenso areal para “cumprimentá-lo”, para “experimentá-lo”.

Atualmente, Prosperi já correu oito maratonas que tiveram lugar em cenários idênticos e assegura que está a preparar-se para o maior desafio de sempre — no próximo ano planeia correr 7 mil km através do Sahara, desde Agadir, em Marrocos, para Hurghada, no Egito. A mulher a quem chama de “santa” já não está a seu lado. A culpa, talvez, tenha razão de ser no estilo de vida que Prosperi insiste em levar, não fosse ele um homem em constante “missão”. Porque ele não pode, nem quer, mudar.