“O jornal Charlie Hebdo representa aquilo a que os jihadistas têm horror: a liberdade de imprensa”. A frase é de Carlos Gaspar, investigador e presidente do Instituto Português de Relações Internacionais, que não tem dúvidas: o atentado ocorrido esta quarta-feira em Paris na sede do jornal satírico francesa e que vitimou 12 pessoas – 10 jornalistas e dois polícias – foi preciso e teve um alvo claro: “É um atentado contra a liberdade de imprensa. Eles foram lá assassinar um certo número de jornalistas. Não é nada aleatório. A imprensa é um alvo dos jihadistas, como se viu no assassinato de James Foley [primeiro jornalista decapitado pelo Estado Islâmico]”.

O alvo era claro, a ação foi planeada e executada de forma “metódica, calma e operacional”, e é provável que se venha a apurar uma relação com um grupo jihadista mais conhecido. “Ainda se sabe pouco sobre o Estado Islâmico (EI), sobretudo fora da Síria e do Iraque”, advertiu Carlos Gaspar, que disse, no entanto, ver no ataque desta quarta-feira uma relação direta com a intervenção da França e da Inglaterra contra o EI e com a “projeção crescente que o Exército Islâmico tem como a nova bandeira do radicalismo islâmico, substituindo, de certa forma, a Al-Qaeda como imagem do radicalismo jihadista“.

À semelhança daquilo que acontecia com a Al-Qaeda, o Estado Islâmico tem uma estrutura difusa, sem uma hierarquia clara. “Não há propriamente um comando central, à exceção do comando central na Síria e no Iraque – dos jihadistas que estão no terreno”, disse Carlos Gaspar.

Isto pode dificultar que se apure uma ligação destes ataques ao EI, mesmo que a relação exista, em forma de apelo “à violência generalizada” e à “privatização da violência”. Em novembro, três combatentes franceses do Estado Islâmico pediram, em vídeo, aos compatriotas muçulmanos para que se juntassem à jihad e atacassem a população francesa. “Há um apelo geral do Exército Islâmico ao levantamento dos jihadistas para que estes tomem a iniciativa de atos de violência“, explicou o investigador.

Desde setembro – altura em que começaram os ataques a posições jihadistas no Iraque – que os dois países europeus têm vindo a aumentar os níveis de alerta e segurança. Depois do rapto de Hervé Pierre Gourdel, um francês de 55 anos, na Argélia, a França ficou em “segurança máxima”. O Estado Islâmico já tinha avisado: “Se puderem matar um infiel americano ou europeu, em particular os maus e porcos franceses, contem com Alá e matem-nos de qualquer maneira”. A 24 de setembro, Hervé Gourdel era decapitado pelo grupo Jund al-Khilifa, associado ao Estado Islâmico.

Nas últimas semanas foram desarticulados vários atentados, nomeadamente em França, lembrou Carlos Gaspar, afirmando que esses ataques são mais uma consequência da ofensiva contra o EI e não tanto uma resposta às tensões sociais que se vivem no país devido à comunidade muçulmana aí residente (cinco milhões) e ao discurso contra a islamização do país de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita que lidera as intenções de voto para as presidenciais de 2017. O investigador desvaloriza a influência deste contexto no ataque de quarta-feira e sublinha: “O que está a dar força a esta nova dinâmica de violência é a ofensiva do Exército Islâmico”.

No final de dezembro, uma série de acontecimentos levaram o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, a aumentar o número de patrulhas militares nas ruas durante o Natal. A 20 de dezembro, um cidadão francês convertido ao Islão – Bertrand Nzohabonayo – entrou numa esquadra de polícia em França e atacou três polícias com uma faca enquanto gritava: “Alá é grande”. Um dia depois, um condutor gritando “Allahu Akbar” foi responsável por um atropelamento em Dijon, do qual resultaram 13 feridos. No dia 22, outro atropelamento, em Nantes, feriu 11 pessoas e resultou na morte do condutor, que se esfaqueou.  

Os ataques possíveis no Ocidente

Para Felipe Pathé Duarte, porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, o atentado ao jornal Charlie Hebdo inclui-se num tipo de ataques que descreve como sendo “low level” e que geralmente são levados a cabo por grupos ou indivíduos que “não têm relação com o comando central do Estado Islâmico ou da Al-Qaeda”, mas agem recorrendo à narrativa destas organizações.

Para o académico, este tipo de ataques é o “único tipo de ação que pode ser feita em países ocidentais que não vivem em situação de caos ou de guerra e onde uma organização terrorista é facilmente detetável”. O professor universitário pensa que ataques como os que ocorreram em Madrid (2004) ou Londres (2005) “implicam uma organização estrutural e logística” e são mais difíceis de levar a cabo devido ao nível de alerta em que hoje se vive na Europa e nos EUA.

Utilizando facas e armas semiautomáticas, os atacantes conseguem passar uma imagem de “aparente imprevisibilidade que leva a uma dimensão de aleatoriedade”, o que, considera, facilita a “disseminação do medo”.

E é esse medo, diz, que quebra a relação de confiança existente na sociedade, que tende, depois, a “fechar-se”. Por isso mesmo, o investigador sublinha: “Não podemos ter esse medo”.

Islamofobia 

É de medo que fala também Daniel Pinéu, professor de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra e investigador do IPRI. Mais concretamente do medo que surge da confusão entre Islão e jihadismo e das atitudes islamofóbicas que se seguem. Por isso mesmo, diz ser importante fazer distinções. Ataques como os que ocorreram esta quarta-feira em Paris “são atos criminosos”, diz, e não podem ser “confundidos com o Islão político”, que por sua vez não pode ser confundido com o jihadismo, que não pode ser confundido com “os muçulmanos europeus”. Os jihadistas, afirma, “são uma minoria, dentro de uma minoria, dentro de uma minoria”.

Por isso mesmo as medidas tomadas na sequência destes ataques “não devem ser políticas contra os imigrantes muçulmanos, mas contra os indivíduos que fazem ataques deste tipo”. De forma a evitar, também, que os jihadistas manipulem a islamofobia. “Estes grupos pensam que a maior parte dos muçulmanos ainda não viu a luz. Por isso tentam, por um lado, radicalizar os muçulmanos moderados e, por outro, explorar a reação dura do ocidente. É mais difícil convencer a maioria dos muçulmanos através de uma decapitação do que quando um país começa a deportar muçulmanos em massa. Aí, a maioria dos muçulmanos dá-lhes razão”, disse Daniel Pinéu ao Observador.

O professor da Universidade de Coimbra defende que o discurso anti-imigração – que, na maior parte das vezes, considera, é “contra a imigração muçulmana” – “é uma construção retórica que tem pouco a ver com a realidade”. E dá um exemplo: “Há cerca de 19 a 20 milhões de imigrantes muçulmanos na Europa, o que corresponde a cerca de 6% da população europeia“. Para Daniel Pinéu, estes números não deixam falar “numa vaga”, como tantas vezes ocorre.

Os discursos dos partidos de extrema-direita que sublinham o efeito de uma “vaga” ameaçadora da cultura e da identidade, ou propostas de legislação como a que foi feita no Reino Unido para identificar crianças com potencial risco de serem terroristas “jogam bem com as intenções estratégicas dos grupos terroristas”, disse o investigador.

Filipe Pathé Duarte tem uma posição semelhante e sublinha: “A jihad não é uma representação violenta do Islão. É um conjunto de tolos que tem formas de ação parecidas aos grupos terroristas ocidentais.” Para o investigador, “se separarmos a jihad do Islão torna-se mais fácil pôr em causa a narrativa de conflito religioso, utilizada pelos jihadistas como justificação dos ataques”.

Acima de tudo, o porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo defende que o Ocidente não deve ter medo. “O que nos caracteriza é a nossa liberdade e o facto de não termos tabus. Quem teme tempestades passa a vida a rastejar. Esse é precisamente o exemplo do Charlie Hebdo.”