Em cima da reunião do Eurogrupo que vai tomar decisões sobre a Grécia, o comissário português foi claro na resposta ao Observador: “Não nos podemos esquecer que há 28 Estados-membros. Cada um desses países tem o seu eleitorado, a sua visão, e os contribuintes de cada país têm a sua posição”. “Devemos perceber a Grécia mas a Grécia também tem que perceber a situação em que está, à volta de uma mesa com 28 Estados-membros”, afirma. “Espero que tudo corra bem. Desejo o melhor à Grécia. Não são tempos fáceis”, remata. Sempre realçando que “devemos respeitar e perceber a decisão soberana do povo grego”, o comissário português recordou que “os gregos viveram anos muito difíceis” – e por isso espera uma aproximação de posições entre a Grécia e os restantes parceiros.

Está há 100 dias à frente da pasta da Investigação, Ciência e Inovação na Comissão Europeia, em Bruxelas. Carlos Moedas faz um primeiro balanço de três meses marcados por uma agenda non-stop, mas também pela tensão política na Europa: ataques em Paris e luta antiterrorista, conflito no leste da Ucrânia, negociações sobre a dívida grega e futuro da zona euro. A UE vive aliás uma semana que pode ser decisiva para a resolução destes três dossiês.

Carlos Moedas faz com entusiasmo um balanço dos primeiros meses como comissário europeu. “Ser comissário é um trabalho muito interessante e que tem um impacto no dia-a-dia das pessoas”, afirma. Olha para a experiência que teve no Governo português como uma mais-valia para as atuais funções. “O meu passado era muito de gestão horizontal no Governo. Aqui também faço uma gestão horizontal” como comissário porque é uma pasta que abrange outros portfolios. “Aqui a capacidade de gestão de processos ainda é mais importante”.

Reconhece que trabalho de comissário “é duro em termos físicos e muito intenso” mas a fase mais difícil da sua vida foi quando desempenhou as funções de secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro em que foi interlocutor e negociador com a troika. “Depois de três anos de programa de ajustamento em Portugal com a troika acho que era difícil encontrar algo mais complicado e mais duro”. “Foram a fase mais dura da minha vida”, reconhece. “Espero que o país não volte a passar por essa situação”.

O ex-secretário de Estado Adjunto manifesta otimismo em relação ao futuro do país. “A visão que tenho daqui, e que é a da Comissão, é que Portugal atravessou um período difícil mas que conseguiu vencer”. “A situação económica está a melhorar. Obviamente que apesar dos números melhorarem todos percebemos que ainda há muito trabalho a fazer”. “Olhamos para Portugal como um país corajoso e que conseguiu travar uma batalha. Quando vemos o que foi o programa de ajustamento em Portugal e o que conseguimos fazer de A a Z…. Obviamente, a história julgará o que foi bem feito e mal feito. Os bons e os maus”.

“Mas há uma coisa óbvia: é que o programa em Portugal começou e acabou”. Moedas garante que “as pessoas olham para Portugal como um país que cumpriu. Isso é muito positivo. As pessoas olham para Portugal como um país credível”. Afirma ainda que as reformas em Portugal devem continuar. “O processo (de reformas) vai ser contínuo. As reformas nunca têm um fim per si”. “Os países têm que ir avançando com as suas reformas”.

Em relação à pasta que dirige, a investigação na área da saúde foi uma das prioridades que assumiu logo no início do mandato. Apostou nomeadamente no apoio à pesquisa de medicamentos para combater doenças como a sida, a malária, a tuberculose, havendo expectativa de ainda este ano se descobrir uma vacina contra o ébola. Para isso, Carlos Moedas apoia-se no Horizonte 2020, o maior programa de ciência do mundo com um orçamento de 80 mil milhões de euros.

O comissário garante que a Europa “está em grande forma” no que diz respeito à ciência pura e ao conhecimento mas o grande desafio que a UE tem pela frente, nesta área, é transformar essas ideias e excelência em produtos acessíveis a todos.

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