A Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade (ENTSOE, na sigla em inglês) está preocupada com os efeitos que o eclipse de dia 20 de março pode ter na produção de energia – são cerca de quatro horas em que o Sol não alimentará os painéis solares com a potência máxima. Mas António Sá da Costa, presidente da Associação de Energias Renováveis (Apren), desvaloriza – o eclipse não terá um mais impacto do que um dia de nevoeiro cerrado.

Baseando-se num estudo sobre o impacto do eclipse na produção de energia, a ENTSOE alertou que mitigar os riscos e manter a rede energética europeia a funcionar normalmente será um “desafio sem precedentes”, conforme refere o comunicado de imprensa. Mas para António Sá da Costa o alarmismo é desnecessário. “Como sabemos que vai haver um eclipse, os gestores estão preparados para responder a essa situação – fazem entrar outros grupos na rede, como carvão, gás natural ou hídricas”, diz ao Observador.

Patrick Graichen, diretor executivo do Agora Energiewende – grupo de discussão berlinense sobre energias renováveis – disse, citado pelo Financial Times, que há várias formas de compensar esta quebra de energia e muito tempo para fazer o planeamento. Contudo, admite que este será um teste de stress aos sistemas de energia. “Em 30 minutos a produção de energia solar vai descer de 17,5 gigawatts para 6,2 gigawatts e depois aumentar outra vez para 24,6 gigawatts. Isto significa que em 30 minutos o sistema terá de se adaptar a uma carga de -10 gigawatts para +15 gigawatts.” António Sá da Costa desvaloriza novamente, desta vez com um exemplo. São Paulo teve um aumento de 20 gigawatts em 20 minutos, quando muitas pessoas ligaram o ar condicionado e se preparavam para ver um dos jogos do Mundial de Futebol na África do Sul, conta. “E não houve apagão nenhum.”

Como a produção energética funciona de forma integrada, é possível gerir por antecipação. Um eclipse ou um dia de nevoeiro, no caso da energia solar, mas também o vento ou a chuva, nos casos da energia eólica ou hídrica, podem ser compensados. “O pior é quando um dos grupos avaria”, lembra o presidente da Apren. As situações inesperadas requerem outro tipo de medidas: uma avaria numa central de carvão, por exemplo, pode ser compensada ativando uma central hídrica no Alto do Lindoso – que em dois minutos passa dos 0 aos 320 megawatts em cada uma das duas unidades presentes.

A instabilidade da produção de energias renováveis é muitas vezes apontado como uma desvantagem, mas António Sá da Costa defende que é possível prever situações e ter planos de contingência para situações inesperadas. “A Rede Elétrica Nacional (REN) que gere o sistema foi-se adaptando, com muita capacidade de desenrascanso e milagres sustentados. Mas os alemães não acreditam que é assim que conseguimos estes desempenhos e não estão preparados para o fazer.”

A Alemanha tem um plano de transição energética (energiewende) que pretende eliminar todas as centrais nucleares até 2018 e apostar nas energias renováveis. Apesar de ser um programa do governo, continua a encontrar alguma resistência. Embora admita que as centrais nucleares são mais fáceis de gerir, o presidente da Apren lembra que o paradigma energético mudou e que os países têm de se habituar a essa ideia. Mas, segundo António Sá da Costa, os alemães estão com muita dificuldade em adaptar-se a este novo paradigma. “Alguns nem sequer querem adaptar-se.” E vai mais longe: “Há pessoas na ENTSOE [que apresentou o estudo de impacto] que são pagas pelas centrais nucleares.”

O relatório sobre o impacto do eclipse usa como estudo de caso o Reino Unido, um país onde predominam os dias de nevoeiro e onde a expressão da energia solar é muito baixa, nota António Sá da Costa. “O Reino Unido é dos mais céticos em relação às renováveis”, acrescenta. Se no Reino Unido o impacto será pequeno, em Portugal também – apenas 1,7% da potência energética depende do Sol (322 megawatts). “Na Alemanha terá algum peso [39.734 megawatts de capacidade instalada], mas não será nada do outro mundo”, diz o presidente. De qualquer forma o país já tem de lidar com o facto de não ser mediterrânico e ter muito mais dificuldade em produzir energia solar por problemas com a fonte.