Antes de Victor Yanokovich, antigo presidente da Ucrânia, se demitir do cargo em fevereiro de 2014, a Rússia já pretendia “tentar iniciar acordos fronteiriços e inter-governamentais com territórios ucranianos” onde “existia um estável apoio pró-russo”. A informação consta num alegado documento estratégico, divulgado na segunda-feira pelo Novaya Gazeta, um jornal russo conhecido pelo seu trabalho de investigação e comentário crítico, que terá sido enviado para o Kremlin pouco antes de Yanokovick fugir para a Rússia.

O documento, alega o diário, terá chegado às mãos do governo russo a 4 ou 5 de fevereiro — antes de, a 22, Victor Yanokovich ter fugido do país, no seguimento da revolução e dos protestos que irromperam contra o regime que liderava. “O regime, finalmente, está falido. Já não faz sentido que a Federação Russa o continue a apoiar política, diplomática e financeiramente”, lê-se, na fração que o Novaya Gazeta revelou.

A continuação de um apoio ao governo ucraniano, prossegue o documento, poderia colocar em causa a Gazprom, empresa de gás russa, e causar “enormes danos” à economia do país. Moscovo, defendia-se também, arriscava-se a “perder não só o mercado de energia da Ucrânia”, como o “controlo indireto” sobre o “sistema de distribuição de gás” do país, algo que foi até identificado como “muito mais perigoso”.

Em fevereiro do ano passado, a Ucrânia começou a acusar o Kremlin de financiar e disponibilizar armamento a grupos de rebeldes separatistas, pró-russos, localizados na região leste do país. A 18 de março, e depois de um referendo no território, a Rússia anexou formalmente a Península da Crimeia. Também nas cidades de Odessa e Carcóvia, esta a segunda maior do país, se registaram confrontos entre as tropas ucranianos e os rebeldes separatistas.

O documento, alegadamente redigido, em parte, por Konstantin Malofeyev, um oligarca russo, indicava ainda que o país teria um proveito “incalculável”, em termos “geopolíticos”, se anexasse territórios ucranianos — pois “teria acesso a novos recursos demográficos” e a “pessoal altamente qualificado no sector da indústria e dos transportes”. Também foi sublinhado o “potencial industrial” na região este da Ucrânia, além da hipótese de o seu “setor militar ser incorporado” na Rússia, o que permitiria ao país fortalecer “as forças armadas mais rapidamente”.