A democracia na Europa, mais precisamente no Parlamento Europeu, tornou-se num lugar árido, onde os maiores partidos – ainda que rivais – estão quase sempre de acordo: votam da mesma maneira em 80% dos casos. Isto é, nesta legislatura, de Julho a Dezembro de 2014, as duas maiores formações políticas do Parlamento Europeu – o partido de centro-direita European People’s Party (EPP) e o partido de centro-esquerda Socialists and Democrats (S&D) –, votaram da mesma maneira em quatro de cada cinco votos, sendo várias vezes acompanhados por outro partido de menor expressão, o ALDE, centro-liberal no espetro político.

Esta contabilidade foi realizada por Tony Barber, editor da secção Europa do jornal britânico Financial Times. Como estas três forças políticas elegeram quase dois terços dos deputados Parlamento Europeu – ocupam 478 lugares num total de 751 – isto significa que há uma certa monotonia e previsibilidade nas decisões da europarlamento.

Este cortejo partidário, essencialmente centrista com pequenas variações à direita, à esquerda e ao liberalismo, faz com que “seja muito mais difícil para o público entender quais são as alternativas propostas por estas forças políticas dominantes, tornando-se consequentemente mais difícil para o público se rever em alguma delas“, diz a VoteWatch Europe, um grupo de investigação focado nas questões parlamentares europeias, citada pelo Financial Times.

Em contrapartida, os partidos mais pequenos e que se constituem como alternativas, a ‘oposição’, tendem a exibir vertentes “populistas de extrema-direita, nacionalistas, extremistas de esquerda, insurgentes e excêntricos” e encontram-se normalmente do lado dos “perdedores”.

Este não é contudo um problema que se sinta exclusivamente à escala europeia, explicadiz Tony Barber. Basta pensar que no mais populoso dos seus países, a Alemanha, o governo é constituído desde 2013 por uma aliança entre o partido Cristão-Democrático e o partido Social-Democrata. A verdadeira oposição vêm assim dos extremos, como do partido Die Linke, de extrema-esquerda com reminiscências do comunismo do Este da Alemanha, ou do partido Alternative für Deutschland, a plataforma anti-euro de tendência mais conservadora.

Apesar de os partidos extremistas muitas vezes parecerem não apresentar “soluções realistas para os problemas da Europa”, acrescenta Barber, “não é saudável para a democracia, ou para a legitimidade do Parlamento Europeu, que os partidos dominantes estejam tão aconchegados uns com os outros“.

“Os maiores partidos devem fazer os eleitores sentir que têm escolhas. Caso contrário, podem desviar atenções para o inconvencional ou para os extremos”, conclui,

É contudo possível que, no futuro, venhamos a encontrar maiores tensões entre os partidos dominantes do Parlamento Europeu, nomeadamente em questões relacionadas com a redução de burocracia na UE, com a proteção ambiental e com o acordo de comércio livre UE-EUA, o que pode inverter um pouco esta tendência para uma convergência quase total.

Daí que Tony Barber deixe a questão: “não terá sido precisamente este tipo de consenso europeu dominante no establishment que abriu espaço para a actual insurgência antissistema?“.