Acabara de passar meio ano longe, seis meses refugiado em Mirandela, a recolher minutos, bolas e fintas na terceira divisão. Dezasseis jogos e quatro golos depois, regressou a Lisboa, ao Atlético. Tinha 21 anos, já era rápido, irrequieto, amante de colar a bola à canhota e correr junto às linhas. O potencial já lá andava, mas faltava-lhe “perder o medo de enfrentar os adversários” para, depois, “ser craque, se quiser”. Assim o via António Pereira, o então treinador, quando Hernâni voltou ao Atlético para começar os pulos na carreira que lhe deram uma escala em Guimarães antes de aterrar no Dragão.

Chegou no Natal, mais graúdo, bem mais rápido, já sem receios e com vontade de sobra de desafiar adversários para uma dança e os deixar pendurados com dribles. Ou sprints, como o que disparou aos 12’ para fugir a dois defesas da Académica e caçar a bola que Aboubakar picara para a entrada da área. Hernâni lá chegou primeiro e não demorou a usar a canhota para rematar. Cristiano, o guarda-redes, defendeu a bola, mas sem a parar — deixou-a a saltitar, à sua frente e à do luso-cabo-verdiano, que fez da recarga um golo dos fáceis. Foi empurrar a bola, com calma, para depois correr rumo ao banco, onde abraçou Quaresma e Brahimi, os extremos do costume que lhe costumam tapar o lugar.

FC Porto: Fabiano; Ricardo, Diego Reyes, Alex Sandro e José Angel; Rúben Neves, José Campaña e Evandro; Hernâni, Juan Quintero e Aboubakar.

Académica: Cristiano; Oualembe, João Real, Iago Santos e Ricardo Esgaio; Fernando Alexandre, Nuno Piloto, Lucas Mineiro, Rui Pedro e Ivanildo; Rafael Lopes.

Era o 1-0, logo no arranque, e o segundo golo do extremo pelo FC Porto, a fechar uma semana das boas para ele: três anos após andar na terceira divisão dos futebóis nacionais, Hernâni estreara-se na Liga dos Campeões, e logo contra o Bayern de Munique e numa vitória das que ficam escritas a letras grandes na história. A mesma que, menos de 72 horas volvidas, deu a Julen Lopetegui razões para poupar pernas e inventar uma equipa com gente para quem a titularidade é privilégio raro. E, por isso, talvez diminuísse o “pedregulho” que a Académica teria de levantar.

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Fora assim que José Viterbo, o treinador da equipa que, com ele, tem “levantado pedras” no campeonato (só perdeu um dos últimos sete jogos), vira o FC Porto. Tinha razão, porque mesmo não sendo um rochedo limado, daqueles redondos, que rolam sem abrandar, face às muitas poupanças a pensar na Champions, ainda chegava para passar por cima da Académica. Havia Rúben Neves, o miúdo que é tão rápido quanto preciso a virar a bola de um lado para o outro, e os sprints de Hernâni. Havia a canhota certeira de Juan Quintero, os passes de José Campanã, que em miúdo era comparado a Xavi, do Barça, e aos 14’ disparou pouco por cima da barra, e a irrequietude de Evandro, que aos 37’ foi à caça de um ressaltos e rematou uma bola ao poste da baliza da Académica.

Estes dragões, mesmo desabituados a estarem juntos em campo, chegavam para terem à volta de 70% da companhia da bola e chegarem ao intervalo com mais do quadruplo dos passes do adversário (215 contra 51). Os passes, porém, não saiam tão rápidos, as jogadas eram mais lentas, as tabelas nem sempre saíam e, às vezes, os erros apareciam. Como a distração de Alex Sandro, que na primeira parte fez de central e, aos 37’, fez o que, dias antes, o Bayern de Munique fizera várias vezes — falhou um passe lá atrás. Mas Rafael Lopes, avançado que apanhou a bola, correu com ela e, à entrada da área, rematou-a por cima da baliza de Fabiano. De resto, Lucas Mineiro e Rui Pedro mexiam-se muito e tentava não deixar Rafael muito sozinho na frente, mas a bola não chegava lá muitas vezes.

Antes do intervalo ainda houve outro arranque de Hernâni, atrás de um passes de Evandro para a área, que viu o extremo a apanhar a bola em carrinho, a deslizar na relva, antes de a picar com a canhota para José Angel, embalado, a estoirar de primeira e ver Cristiano a desviar para canto. Espetáculo. Um que se repetiu quando, depois, logo aos 54’, um livre à beira da área parou a bola que Campaña rematou e para Cristiano, outra vez, voar para lhe tapar o caminho da baliza. O pedregulho, depois, com mais ou menos solavancos, ia rolando.

A empurrá-lo continuava a estar Hernâni, cuja velocidade trocou de lado e passou a fazer negra a vida de Ricardo Esgaio. Era ele que passava a ser atropelado pelos arranques do extremo, que aos 55’ até foi derrubado pelo lateral emprestado pelo Sporting, caiu, não quis nada com uma falta, ergueu-se, retomou a corrida e, depois, cruzou a bola direitinha para a cabeça de Aboubakar, que não acertou com o remate na baliza. Depois, aos 56’, Hernâni cairia mesmo quando Esgaio o voltou a tesourar com as pernas, e só não houve penálti por um palmo ou dois. Quase a mesma distância que, aos 64’, valeu ao FC Porto e a Fabiano, que conseguiu parar uma bola que um ressalto em Rúben Neves, num livre, desviara para a própria baliza.

A Académica tentava, corria, multiplicava os jogadores em perseguições aos dragões, mas pouca força tinha para pegar no jogo. Ivanildo mal tocava na bola, Rafael Lopes idem, e no meio campo as caçadas à bola não davam em nada porque o FC Porto, sejam titulares ou suplentes, têm o chip implantado para a manterem em sua posse com mais cautela do que risco. A Académica chateava muito os dragões, sim, obrigava-os a jogar a bola muitas vezes para trás ou para os lados, mas esta era uma pedra demasiado pesada para os estudantes levantarem. Arriscar era coisa que apenas Hernâni parecia ter autorização para fazer, acelerando, fintando ou cruzando a bola sempre que ela lhe chegava ao pé esquerdo.

E tempo ainda houve para alisar o pedregulho e aproximá-lo da imagem habitual. Iván Marcano e Óliver Torres ainda entrariam para não deixar que as pernas ganhassem ferrugem para terça-feira, tal como Jackson Martínez. O colombiano ainda foi a tempo de fechar uma jogada com passes de primeira e toques de calcanhar com um toque a picar a bola para, já na área, a rematar para Cristiano defender com o pé. Depois, minutos antes do último apito, e a um metro da baliza, falhou um remate, e um golo, que levantou o estádio de espanto. O jogo acabava quase ao mesmo tempo do dérbi lisboeta no Restelo, onde o Benfica também vencera (2-0).

Ou seja, confirmava-se o dois-em-umalém de vencer e de, na liga, se manter três pontos aquém dos encarnados, o FC Porto fazia-o a poupar quase todas as pernas que precisará de ter frescas em Munique, na terça-feira, a partir das 19h45. Aí jogar-se-á o futuro na Liga dos Campeões. Depois, a 26 de abril, será a vez do campeonato e do clássico no Estádio da Luz.